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domingo, 8 de fevereiro de 2026

Adolescentes e cães: um vínculo que importa

 

Ter um cachorro em casa pode fazer diferença na vida de um adolescente, talvez muito mais do que se imagina. Um estudo recente, divulgado pelo The Guardian, mostra que jovens que convivem com cães desde os 13 anos tendem a apresentar menos problemas sociais, como isolamento, comportamentos agressivos e dificuldades de pensamento ao longo da adolescência.

Se a ciência costuma explicar esses efeitos falando de hormônios do vínculo, como a ocitocina, e até de mudanças no microbioma, a psicanálise, por outro lado, nos convida a olhar para um ponto igualmente importante: o laço que se constrói nessa convivência.

A passagem da infância para a adolescência não é simples. Trata-se de um momento em que o sujeito começa a romper com a imagem infantil que possuía de si, construída, em grande parte, pelos afetos e expectativas parentais. De repente, essas imagens já não fazem sentido. Surge a estranheza. Diante do espelho, o adolescente se vê incompleto, cheio de defeitos. O corpo já não responde como antes, os sentimentos são novos, imprecisos e ambíguos. As perguntas aparecem: Quem sou? Quem serei? O que querem de mim?

Nesse contexto, o cachorro pode ocupar um lugar particular. Ele está ali todos os dias, não julga, não cobra explicações ou exige desempenho. Oferece presença e companhia sem condições. Essa relação cria um campo de encontro menos atravessado pela crítica ou pela rejeição, no qual o adolescente pode se aproximar do outro com menos medo.

Em uma fase em que o jovem se sente observado, avaliado e comparado o tempo todo seja na escola, nas redes sociais ou pelos adultos, a experiência de ser visto sem exigências pode ter um efeito organizador. Esse espelhamento simples ajuda a sustentar uma imagem de si menos marcada pela inadequação ou pela vergonha, reduzindo a necessidade de defesas como o isolamento ou agressividade.

O vínculo com o animal também pode ajudar a dar destino a emoções intensas. Brincar, cuidar, passear e alimentar são formas de contato que aliviam tensões e oferecem uma via de ligação para afetos difíceis. Em vez de descarregar a angústia em atitudes agressivas ou se fechar em silêncio, o jovem encontra uma relação viva que responde.

Além disso, cuidar de um cachorro ensina, na prática, algo fundamental: perceber o outro, respeitar limites e assumir pequenas responsabilidades. Não se trata de impor regras, mas de viver uma experiência cotidiana de cuidado e troca, que reinscreve o sujeito no circuito do laço.

Em tempos marcados também por violência e negligência contra animais, pensar o cuidado como dimensão ética do laço se torna ainda mais urgente.

Por isso, mais do que um simples companheiro, o cachorro pode operar como uma forma singular de amarração entre corpo, afeto e mundo, justamente em um momento da vida marcado por instabilidade e insegurança. Não se trata de uma solução para todos os casos, mas, para muitos jovens, essa presença silenciosa e fiel pode fazer diferença na travessia da adolescência. 

 

Ana Lizete Farias - psicanalista, Pós-doutoranda em Psicanálise, Meio Ambiente e Educação. Pesquisadora associada do NUPPEC-eixo 3 em Psicanálise, Educação, Intervenções Sociopolíticas e Teoria Crítica-UFRGS. Doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela UFPR; Mestre em Geologia Ambiental pela UFPR. Professora dos cursos de saúde do Grupo Uninter.


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