Ter um cachorro em casa pode fazer diferença na
vida de um adolescente, talvez muito mais do que se imagina. Um estudo recente,
divulgado pelo The Guardian, mostra que jovens que convivem com cães desde
os 13 anos tendem a apresentar menos problemas sociais, como isolamento,
comportamentos agressivos e dificuldades de pensamento ao longo da
adolescência.
Se a ciência costuma explicar esses efeitos falando
de hormônios do vínculo, como a ocitocina, e até de mudanças no microbioma, a
psicanálise, por outro lado, nos convida a olhar para um ponto igualmente
importante: o laço que se constrói nessa convivência.
A passagem da infância para a adolescência não é
simples. Trata-se de um momento em que o sujeito começa a romper com a imagem
infantil que possuía de si, construída, em grande parte, pelos afetos e
expectativas parentais. De repente, essas imagens já não fazem sentido. Surge a
estranheza. Diante do espelho, o adolescente se vê incompleto, cheio de
defeitos. O corpo já não responde como antes, os sentimentos são novos,
imprecisos e ambíguos. As perguntas aparecem: Quem sou? Quem serei? O que
querem de mim?
Nesse contexto, o cachorro pode ocupar um lugar
particular. Ele está ali todos os dias, não julga, não cobra explicações ou
exige desempenho. Oferece presença e companhia sem condições. Essa relação cria
um campo de encontro menos atravessado pela crítica ou pela rejeição, no qual o
adolescente pode se aproximar do outro com menos medo.
Em uma fase em que o jovem se sente observado,
avaliado e comparado o tempo todo seja na escola, nas redes sociais ou pelos
adultos, a experiência de ser visto sem exigências pode ter um efeito
organizador. Esse espelhamento simples ajuda a sustentar uma imagem de si menos
marcada pela inadequação ou pela vergonha, reduzindo a necessidade de defesas
como o isolamento ou agressividade.
O vínculo com o animal também pode ajudar a dar
destino a emoções intensas. Brincar, cuidar, passear e alimentar são formas de
contato que aliviam tensões e oferecem uma via de ligação para afetos difíceis.
Em vez de descarregar a angústia em atitudes agressivas ou se fechar em
silêncio, o jovem encontra uma relação viva que responde.
Além disso, cuidar de um cachorro ensina, na
prática, algo fundamental: perceber o outro, respeitar limites e assumir
pequenas responsabilidades. Não se trata de impor regras, mas de viver uma
experiência cotidiana de cuidado e troca, que reinscreve o sujeito no circuito
do laço.
Em tempos marcados também por violência e
negligência contra animais, pensar o cuidado como dimensão ética do laço se
torna ainda mais urgente.
Por isso, mais do que um simples companheiro, o cachorro pode operar como uma forma singular de amarração entre corpo, afeto e mundo, justamente em um momento da vida marcado por instabilidade e insegurança. Não se trata de uma solução para todos os casos, mas, para muitos jovens, essa presença silenciosa e fiel pode fazer diferença na travessia da adolescência.
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