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| Não existe dose “segura” e nem “detox” de álcool pós-Carnaval. Shutterstock |
Médico alerta que não existe dose segura e rebate mitos como “intercalar água com álcool” e “detox” pós Carnaval
Com a chegada do Carnaval, o feriadão mais aguardado do ano, a combinação entre festa, calor e consumo excessivo de bebida alcoólica se repete em todo o país. Para muitos foliões, beber faz parte do ritual da diversão. O problema é que a falta de moderação pode trazer consequências sérias para o organismo, inclusive para órgãos que costumam ficar fora do radar, como os rins, além de impactos importantes sobre o fígado e o coração.
Segundo o médico nefrologista Dr. Thyago Proença, da Nefroclínicas - Eco Medical Center, concentrar grandes quantidades de álcool em poucos dias, como é comum durante o Carnaval, sobrecarrega o corpo e pode causar efeitos importantes mesmo em pessoas jovens e aparentemente saudáveis.
“O
álcool provoca desidratação, irrita o trato gastrointestinal, sobrecarrega o
fígado e reduz os reflexos e o julgamento. Isso aumenta o risco de acidentes,
quedas e comportamentos de risco”, explica o médico.
Álcool
desidrata e não é só o fígado que sofre
Um dos principais mitos populares é o de que apenas o fígado é prejudicado pelo álcool. Na prática, os rins também são fortemente afetados. O álcool inibe a ação da vasopressina, hormônio responsável por ajudar os rins a reter água. Com isso, o corpo passa a eliminar mais líquidos do que deveria.
“O resultado é sede intensa, boca seca, dor de cabeça, tontura e cansaço. Além disso, quando estamos desidratados, o fluxo de sangue para os rins diminui, reduzindo temporariamente a capacidade de filtração”, afirma Proença.
A
perda excessiva de líquidos ainda pode causar desequilíbrios de sódio e
potássio, afetando a pressão arterial, os batimentos cardíacos e a função
muscular. Esses desequilíbrios ajudam a explicar por que o álcool também
impacta o coração. Episódios repetidos de exagero aumentam o risco de lesão
renal aguda, formação de pedras nos rins, arritmias e piora da hipertensão.
Cerveja
hidrata? Não. E água não é “passe livre”
Outra crença comum no Carnaval é a de que a cerveja “hidrata” por conter água. O nefrologista é categórico: isso é falso. “A cerveja não hidrata. Apesar de conter água, o álcool tem efeito diurético, fazendo o corpo perder ainda mais líquidos. O saldo final é desidratação”, diz.
Intercalar
bebida alcoólica com água, sim, ajuda a reduzir os danos, mas não elimina os
riscos nem autoriza beber mais. “A água não neutraliza o álcool. Mesmo
hidratada, a pessoa continua intoxicada, com reflexos prejudicados e exposta a
riscos cardiovasculares, neurológicos e renais. É uma estratégia de redução de
danos, não uma carta branca para exagerar”, reforça o médico.
Pressão
alta, arritmia e queda da imunidade
O consumo excessivo de álcool também pode elevar a pressão arterial e provocar arritmias, inclusive em pessoas sem doença cardíaca conhecida. Outro efeito pouco lembrado é a redução da imunidade, o que facilita infecções, um risco considerável em ambientes com grandes aglomerações, como blocos de Carnaval e festas.
Pessoas com hipertensão, diabetes ou que fazem uso frequente de medicamentos merecem atenção redobrada. O álcool pode interferir no controle da glicose, reduzir o efeito de remédios, aumentar o risco de sangramentos, queda da função renal e alterações neurológicas.
“Nesses
grupos, mesmo pequenas quantidades podem causar efeitos mais intensos. A orientação
é redobrar a cautela”, alerta Proença.
Urina
escura é sinal de alerta
O corpo costuma dar sinais claros quando algo não vai bem. A urina escura é um dos principais alertas de desidratação e sobrecarga dos rins após o consumo excessivo de álcool. O normal é que ela seja clara ou levemente amarelada.
Outros sinais incluem diminuição do volume urinário, cheiro forte da urina, inchaço nas pernas ou pálpebras, náuseas, tontura, cansaço intenso e dor lombar. É fundamental procurar atendimento médico se houver ausência de urina por várias horas, vômitos persistentes, confusão mental, desmaios ou sonolência excessiva.
Em
situações mais graves, o excesso de álcool pode evoluir para lesão renal
acentuada. Embora muitas vezes a lesão seja transitória, ela não deve ser
banalizada. “Em casos que evoluem com mais gravidade, há necessidade de
internação e até diálise temporária”, explica o nefrologista. O risco é maior
em idosos e em pessoas com doenças prévias ou uso de certos medicamentos, como
anti-inflamatórios.
Existe
dose segura? E detox pós-Carnaval?
Do ponto de vista médico, não existe dose totalmente segura de álcool. Fala-se apenas em consumo de baixo risco: até uma dose por dia para mulheres e até duas para homens, lembrando que concentrar várias doses em pouco tempo, como no Carnaval, aumenta significativamente os riscos. Pode-se considerar uma dose uma lata de cerveja (350 ml), uma taça de vinho (150 ml) ou uma dose de destilado (40 ml).
Para gestantes e pessoas com doenças renais, hepáticas, cardíacas ou histórico de dependência, não há quantidade segura.
Também não existem “detox milagrosos” após a folia. “Quem faz a desintoxicação é o próprio organismo, desde que haja hidratação adequada, alimentação equilibrada, descanso e suspensão do álcool. Produtos detox não aceleram esse processo de forma comprovada”, afirma Proença.
Portanto,
explica o médico, moderação é a melhor prevenção. Além disso, deve-se evitar
beber em jejum, intercalar álcool com água, estabelecer limites, não dirigir
após beber e respeitar os sinais do corpo. “O excesso de álcool não é
inofensivo. E os efeitos podem ir muito além da ressaca”, conclui o médico.

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