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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Biópsia líquida: exame de sangue poderá no futuro detectar o câncer com precisão

 

Para o oncologista clínico Paulo Hoff, presidente da Oncologia D’Or, faltam apenas alguns anos para o procedimento entrar na rotina médica a fim de agilizar a detecção de tumores e a definição e o acompanhamento dos tratamentos.

 

A cada ano que passa a Medicina está mais avançada. Na Oncologia não é diferente. Já ficou claro que conhecer as características específicas do tumor é fundamental para o sucesso do tratamento. Hoje, essas informações são obtidas pela biópsia, que consiste na remoção de parte do tumor ou de tecidos do órgão atingido para análise em laboratório. Num futuro não muito distante, esse procedimento poderá ser substituído por um exame de sangue. É a biópsia líquida. 

Além de acelerar a obtenção de resultados, o teste dispensa a remoção de um pedaço do tumor, um procedimento que nem sempre é simples. Às vezes, o tecido cancerígeno está em um local de difícil acesso ou o paciente apresenta comorbidades que requerem atenção especial. Outra vantagem é que o exame não demanda um local preparado, como a biópsia tradicional.

O oncologista clínico Paulo Hoff, presidente da Oncologia D’Or e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), acompanha com entusiasmo as pesquisas realizadas em relação à biópsia líquida. Mesmo porque os três pilares do tratamento moderno – a imunoterapia, a terapia-alvo e o anticorpo-conjugado (combinação da quimioterapia com a terapia-alvo) – dependem da identificação das alterações presentes na célula tumoral com bastante acurácia.

Exames já existentes produzem muitos falsos-positivos e falsos-negativos,
desencorajando sua inclusão na prática médica.
“A biópsia líquida não é uma ficção científica. Já existem no mercado exames de sangue para detectar o câncer, mas produzem muitos resultados falso-positivos e falso-negativos, o que desencoraja seu uso rotineiro”, afirma o médico. “Por isso, não estamos falando de futuro distante, mas de um refinamento dos produtos existentes”, complementa.

 

Histórico

Desde o século passado, a Ciência procura um meio de identificar indícios de tumores cancerígenos pelo sangue. Nas décadas de 1960 e 19701 pesquisadores buscavam antígenos tumorais que pudessem ser úteis como biomarcadores. Nos anos 1990, a Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, aprovou o exame de sangue PSA para triagem do câncer de próstata1. Entretanto, a presença de marcadores de maneira isolada não permitia a análise histológica ou molecular do tumor. 

Anos depois, a melhoria da tecnologia de análise do sangue levou os cientistas a estudarem meios de identificar as células, que eram liberadas pelo tumor na corrente sanguínea. Porém, a maioria era destruída pelo organismo, deixando uma substância remanescente no sangue. Por isso, o objetivo inicial do estudo perdeu protagonismo para uma nova estratégia: decifrar o DNA do conteúdo remanescente. O feito só foi possível com o desenvolvimento de um método para separar o conteúdo remanescente das células cancerígenas das células normais. 

“Hoje existem diversas ferramentas que permitem separar esses conteúdos para a análise molecular do tumor. Alguns produtos vendidos comercialmente possibilitam que um laboratório analise uma amostra de sangue e identifique alterações importantes para a definição do tratamento”, explica Paulo Hoff.
 

Um leque de oportunidades

A detecção precoce do câncer, antes mesmo do surgimento de sintomas, é apenas um dos benefícios da biópsia líquida. Ao fornecer as características específicas do câncer, o exame vai auxiliar o médico a prescrever de forma mais assertiva cirurgias, medicamentos e terapias complementares. 

Para Paulo Hoff, esse exame provocará na Medicina algo tão grandioso como o que ocorreu na aviação. “Imagine observar um homem engravatado com um chapéu interessante montar num aparelho em um campo em Paris, voar a alguns metros do chão e pousar. Na época, seria difícil imaginar que, anos após o 14 Bis de Santos Dumont, todo mundo viajaria de avião a jato entre os continentes. Nós estamos testemunhando algo semelhante na Medicina”, comemora.

Além de detectar o câncer de maneira precoce, teste permitirá ao médico
 definir com mais precisão o tratamento para cada paciente.

A biópsia líquida poderá fornecer dados atualizados, permitindo um acompanhamento em tempo real do paciente e a avaliação da necessidade de tratamentos complementares. Esse recurso é bastante importante porque poderá ajudar a encurtar procedimentos, muitos deles longos. É o caso do câncer de mama, que requer terapia hormonal por cinco a dez anos. 

O exame também poderá ajudar a investigar o local de origem do tumor — uma tarefa difícil principalmente em casos de pacientes com grandes metástases. Embora já existam testes neste sentido no Exterior, é preciso melhorar a sua acurácia. 

O presidente da Oncologia D’Or afirma que o custo da biópsia líquida será elevado por se tratar de um exame de alta sofisticação. “Mas é preciso olhar o impacto sobre o custo do tratamento, que pode ser ainda mais significativo. Ele vai poupar não só gastos financeiros, mas também o estresse e a angústia dos pacientes”, pondera Paulo Hoff.

 

Oncologia D'Or


Referências

Catalona WJ. History of the discovery and clinical translation of prostate-specific antigen. Asian J Urol. 2014 Oct;1(1):12-14. doi: 10.1016/j.ajur.2014.09.008. Epub 2015 Apr 16. PMID: 29511633; PMCID: PMC5832880.


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