O debate sobre a importância
da educação online ou a distância, neste período de isolamento
social, parece ter conseguido consensos e até unanimidade quando falamos
das crianças maiores, dos pré-adolescentes e dos jovens. Tanto as escolas como
os órgãos oficiais se apressaram em viabilizar o seguimento do ano letivo com o
ensino a distância e os educadores passaram a enfrentar o desafio diário de
manter todos os alunos motivados, interessados e construindo
conhecimentos.
Mas e os menores, de 4 e 5
anos? A controvérsia, neste caso, pode ser maior.
Há aqueles que falam apenas
em manutenção do vínculo, através de histórias e vídeos, e em muitas escolas,
os professores têm mantido contato com suas turmas e distraído os pequenos em
alguns períodos do dia. Afeto e entretenimento.
Mas será que a necessidade
das crianças dessa idade se limita a isso? Sabemos que, nessa faixa etária, os
pequenos aprendem muito através das representações, do “faz de conta” e
por isso brincar é tão importante. Afinal, trata-se de uma poderosa atividade espontânea
que ajuda as crianças a compreenderem o mundo, a organizarem seus sentimentos,
e expressarem seus desejos e medos, além de favorecer maneiras de
interpretar a realidade. E para isso, nada melhor do que o convívio com seus
pares em ambiente seguro. É exatamente o que não temos agora!
E é precisamente por
esta razão, que os educadores especializados na infância fazem ainda
mais falta nesse momento. Se as crianças já estão privadas do convívio e dos
desafios das brincadeiras espontâneas, precisam ainda mais de boas e adequadas
propostas para que possam seguir aprendendo e desenvolvendo suas capacidades
humanas.
Se não há a briga e a
disputa pelo brinquedo nas atividades presenciais, o educador pode oferecer
narrativas que trazem a experiência do conflito e das possíveis resoluções. Os
filmes selecionados por eles podem permitir a vivência de situações que levem
posteriormente, numa conversa online com os amigos a discutirem as atitudes dos
personagens, a evocar situações semelhantes já vivenciadas e a se colocarem no
lugar do outro.
Se o espaço físico é
restrito, o educador pode criar situações de desafio para o controle motor,
equilíbrio, ritmo, e favorecer a construção de habilidades físicas em contextos
lúdicos. Se os materiais de casa não são os ideais para práticas das artes
plásticas, é ainda mais importante o conhecimento dos professores para as
propostas diversificadas que permitam as representações ricas e criativas da
infância.
Da mesma forma, o processo
de alfabetização não deve ser interrompido e o professor deve seguir criando
propostas de uso da linguagem escrita que sejam estimulantes e levem as
crianças a relacionar a pauta sonora com a pauta gráfica, estabilizar a escrita
do nome próprio, brincar de encontrar diferenças e semelhanças em textos
variados. Se a escola pode prover a criança desse tipo de estímulo
garantirá o desenvolvimento cognitivo usando novos recursos, talvez não
explorados anteriormente, mas possíveis e necessários agora.
Os familiares, por sua
vez, podem propor jogos e explorações das quantidades e suas
representações, mas são os educadores infantis aqueles que poderão ainda melhor
criar situações problema instigantes que incentivem o raciocínio lógico, que
desafiem as contagens e os registros de quantidades em contextos divertidos que
garantem as aprendizagens adequadas para cada faixa etária.
As crianças são pequenas, e
o uso excessivo da tela não é recomendável, é verdade! Mas, este período
em casa permite certa flexibilidade. Assim, é possível que os familiares
escolham os melhores horários para as atividades enviadas pelos professores. As
atividades menos dirigidas podem ser realizadas pelos pequenos nos momentos em
que os adultos precisam trabalhar, ou se ocupar com os afazeres da casa, mas
também pode-se reservar um tempinho para aquelas propostas que realmente
precisam da nossa mediação.
O importante é que a escola
e a família não se furtem de suas responsabilidades: os pequenos precisam
de muito mais do que afeto e distração, necessitam de nutrição cultural,
desafios físicos, cognitivos e morais.
Afinal, há muito tempo a
educação infantil deixou de ser curso preparatório para a escola de verdade,
a chamada “pré-escola”, pois a sociedade reconheceu as necessidades das
crianças de 4 e 5 anos de aprenderem e se apropriarem das ferramentas que
ajudam a interpretar o mundo. Não as deixemos sozinhas agora.
Nenhum comentário:
Postar um comentário