Imagine a seguinte situação: dona
Maria, brasileira de 74 anos, vai à agência do INSS para realizar a prova de
vida, como já fez várias vezes. Ao ser chamada ao guichê, ouve que agora o
procedimento deve ser feito digitalmente, caso contrário o benefício será
automaticamente bloqueado. O atendente começa a explicar os passos: “senhora,
é preciso se cadastrar no gov.br, depois fazer o reconhecimento da biometria
por meio de uma selfie, então acessar o app Meu INSS …”.
Atônita, aflita, ela tenta acompanhar as instruções, mas não consegue entender
o que está sendo dito. Percebe que, de certa forma, está diante de uma tela que
se tornou um obstáculo em sua vida atual e se sente tão obsoleta quanto o velho
celular que carrega na bolsa.
Dona Maria faz parte, segundo a PNAD
Contínua de 2023 do IBGE, de um contingente de 11,6 milhões de brasileiros com
60 anos ou mais que permanecem desconectados, seja pela falta de conhecimento,
seja por não verem necessidade em usar a internet. Embora o uso da internet por
esse público no Brasil tenha aumentado 21,2 pontos percentuais (em relação aos
dados de 2019), ainda há inúmeros desafios. Ao contrário de seus filhos e
netos, Dona Maria não cresceu com computadores e telas, tampouco compreende
jargões técnicos como “login”, “nuvem”, “QR Code” e tantas outras
palavras que agora integram o cotidiano. Assim, além de ter dificuldade prática
para usar um app no celular, ela também se sente excluída de conversas,
antiga, deslocada diante das notícias que apresentam palavras que ela nem faz
ideia do que significam. Esse distanciamento emocional é completado pela
ansiedade e medo: a fobia de apertar o botão errado, de “estragar o aparelho”
ou cair em um golpe digital.
Do ponto de vista geracional, esses
dados reúnem as gerações caracterizadas como Fundadores (também denominados de
Tradicionalistas, nascidos antes de 1946) e Baby Boomers (nascidos entre
1946-1964, decorrente do crescimento populacional pós-guerra). São pessoas que
construíram a sociedade atual e promoveram mudanças socioeconômicas e
culturais, tendo à sua disposição tecnologias como rádio, cinema, telefone,
televisão e fita cassete. Viveram guerras, viram o homem chegar à Lua e a
consolidação dos meios de comunicação de massa, mas a internet, os smartphones
e aplicativos só se tornaram relevantes no cotidiano quando muitos deles já
tinham saído do mercado de trabalho.
Esse cenário é agravado por
experiências digitais negativas. Muitas aplicações apresentam problemas de
interface (letras pequenas, excesso de etapas para a realização de tarefas,
símbolos que não são intuitivos), tornando essa barreira ainda maior para quem
muitas vezes já enfrenta limitações visuais, motoras ou cognitivas. Por isso,
tornam-se fundamentais as iniciativas de letramento digital para o público
acima dos 60 anos; caso contrário, estaremos, dia a dia, instituindo uma
invisibilidade digital crescente.
Neste sentido, é necessário promover
iniciativas para desmistificar conceitos, esclarecer significados e oferecer
ferramentas para a aprendizagem deste universo digital. Afinal, mais do que
“usar a internet”, trata-se de estabelecer uma ponte para a inclusão digital
real, para a autonomia de acesso aos serviços públicos, para o contato com a
família, para a participação na sociedade contemporânea. Em um cenário em que a
migração para o digital é cada vez maior, é fundamental impedir que milhões de
‘donas Marias’ fiquem num exílio digital, presas atrás de uma tela que as
tornam invisíveis à sociedade.
*O
conteúdo dos artigos assinados não representa necessariamente a opinião do
Mackenzie.
Profa. Dra. Pollyana Notargiacomo é docente dos cursos de Fundamentos de Ciência da Computação e Metodologia da Pesquisa em Computação e lidera o JAS3 lab. – Laboratório de Jogos, Aprendizagem, Simulação, Sistemas e Sinais – da Faculdade de Computação e Informática (FCI) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM).
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