Um
estudo publicado recentemente no periódico científico The Lancet Regional
Health – Americas¹ apresentou revelações importantes para a saúde
reprodutiva: a relação entre a diversidade bacteriana da vagina e o risco de
perda gestacional. A pesquisa reforça que a presença de certas comunidades
bacterianas e a ausência de equilíbrio na flora (disbiose) podem estar ligadas
a desfechos negativos na gravidez.
O
estudo indica que mulheres com um microbioma vaginal dominado por Lactobacillus
(especialmente o L. crispatus) apresentam um ambiente mais favorável
à manutenção da gestação. Em contrapartida, uma microbiota mais diversa e com
baixa presença dessas bactérias protetoras cria um ambiente inflamatório que
pode elevar o risco de aborto espontâneo.
Para
a dra. Martha Calvente, ginecologista do Alta Diagnósticos, marca da Dasa no
Rio de Janeiro, o estudo valida a importância da individualização do cuidado
pré-concepcional e pré-natal. “A saúde da gestação não depende apenas de
fatores genéticos do embrião, mas também do ecossistema no qual ele se
desenvolve. O ambiente vaginal é uma barreira de proteção. Se a microbiota está
em desequilíbrio, aumentam as chances de inflamações que podem comprometer a
gravidez. Compreender esse cenário nos permite atuar de forma muito mais
precoce”, afirma.
Segundo
a ginecologista, o microbioma vaginal é um microecossistema formado por
diversos micro-organismos responsáveis por estabilizar o pH e proteger o trato
reprodutor. Avaliar a composição exata dessa flora agora é possível por meio de
exames genéticos que utilizam o sequenciamento de DNA.
Diferentemente
de exames de cultura tradicionais, esse teste utiliza o Sequenciamento Genético
de Nova Geração (NGS) para mapear todas as populações de bactérias e fungos,
como pontua o dr. Gustavo Guida, geneticista do laboratório Sérgio Franco e da
Dasa Genômica.
“Com
o exame de microbioma, conseguimos identificar o perfil genético daquela flora
de maneira detalhada. Isso ajuda a entender por que algumas mulheres apresentam
maior predisposição a complicações reprodutivas. É uma ferramenta de medicina
de precisão que identifica a disbiose antes mesmo de surgirem sintomas
clínicos, permitindo uma intervenção assertiva para restaurar o equilíbrio
antes da gestação ou durante seu desenvolvimento”, detalha o dr. Gustavo Guida.
O
ginecologista dr. Jaime Kulak, do Laboratório Frischmann Aisengart, destaca que
a avaliação do microbioma também amplia a compreensão sobre infertilidade e
falhas repetidas de implantação embrionária.
“Muitas
pacientes passam por tentativas frustradas de gestação sem uma causa aparente.
Hoje sabemos que alterações no microbioma vaginal podem interferir diretamente
na receptividade endometrial e no ambiente necessário para o desenvolvimento
saudável da gravidez. Identificar precocemente esses desequilíbrios permite
conduzir tratamentos mais individualizados e aumentar as chances de sucesso
reprodutivo”, explica.
A
perda gestacional é um desafio sensível na saúde feminina. Embora as causas
sejam multifatoriais, a ginecologista Marta Calvente afirma que o monitoramento
do microbioma surge como um aliado, especialmente para mulheres com histórico
de perdas recorrentes ou dificuldade de implantação embrionária.
De
acordo com a médica, o exame é indolor, realizado por meio de uma coleta
simples de swab (semelhante a um cotonete), e oferece um relatório que auxilia
o ginecologista a prescrever tratamentos específicos, como o uso de probióticos
ou ajustes no estilo de vida.
“O
futuro da ginecologia é preditivo. A avaliação direcionada da microbiota
vaginal permite identificar mulheres em risco, além de prevenir e combater
diversas condições, garantindo uma jornada gestacional mais segura e saudável”,
finaliza Calvente.
Referência
¹The Lancet Regional Health –
Americas https://www.thelancet.com/journals/lanogw/article/PIIS3050-5038(25)00035-4/abstract
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