A gestão de atestados médicos e do absenteísmo nas
empresas há muito tempo deixou de ser uma mera rotina burocrática do
departamento de Recursos Humanos. Hoje, ela se posiciona no centro da mesa de decisões
como uma prioridade estratégica de sobrevivência corporativa.
Um estudo recente da Marsh joga luz sobre o tamanho
real desse impacto nas organizações. De acordo com o levantamento, foram
contabilizados mais de 2.366.000 dias de trabalho perdidos em diversos setores
da economia devido a afastamentos por doença. O alerta surge em um momento
crucial, antecedendo a entrada em vigor da atualização da NR-1, prevista para o
final deste mês, que passa a exigir das empresas um controle rigoroso sobre a
organização do trabalho e os riscos psicossociais.
Os dados do levantamento revelam que o absenteísmo
não é aleatório; ele segue um padrão comportamental bem definido no decorrer da
semana, expondo os momentos de maior vulnerabilidade dos profissionais.
A segunda-feira lidera isolada em volume de
ausências, concentrando cerca de 460 mil dias perdidos e o maior número de
entrega de atestados médicos.
Já as terças e quartas-feiras registram os maiores
picos de incidência de transtornos psicológicos, enquanto as quartas e
quintas-feiras acumulam a maior média de dias perdidos por ocorrência,
especialmente em casos ligados à saúde mental.
Esse fenômeno desenha um cenário alarmante: muitos
profissionais tentam iniciar a jornada semanal na segunda-feira, mas entram em
colapso e não conseguem conclui-la trabalhando.
Enquanto as dores osteomusculares ainda ocupam a
segunda posição geral nos motivos de afastamento, os transtornos psicológicos
avançam rapidamente.
Eles estão diretamente ligados a fatores
estruturais cotidianos, como carga e ritmo de trabalho inadequados, jornadas
extensas, pressão excessiva por desempenho, falta de autonomia e relações
interpessoais fragilizadas.
O estudo também traz à tona um grave diagnóstico de
"apagão" de informações na saúde ocupacional do país, apontando que
mais de 2 milhões de dias perdidos de trabalho estão associados a atestados
médicos que não possuem a identificação clara do motivo do afastamento.
Essa ausência de padronização gera uma fragilidade
interna severa. Afinal, sem saber a causa real do absenteísmo, as organizações
ficam impossibilitadas de identificar a raiz do problema e de implementar ações
preventivas e estratégicas eficazes para proteger suas equipes.
O principal resultado esperado pelas novas
diretrizes do mercado é uma mudança de paradigma no ambiente de trabalho. Uma
vez iniciado o processo de mapeamento de riscos, torna-se essencial adotar
ferramentas tecnológicas e metodologias que rastreiem, identifiquem e controlem
os riscos detectados.
Uma abordagem orientada por dados (data-driven)
permite intervenções muito mais direcionadas. Ao identificar os dias da semana
em que se concentram o volume e as crises de saúde mental, o RH e a liderança
podem desenhar ações preventivas sob medida para esses períodos críticos.
O retorno desse investimento se reflete diretamente
na redução do absenteísmo e dos sinistros de saúde, na elevação do engajamento
e da produtividade e no fortalecimento da sustentabilidade e reputação do
negócio.
Diante desse cenário, a atualização da NR-1 surge
como uma ferramenta essencial para obrigar as organizações a avançarem na
estruturação do ambiente corporativo e na promoção de uma cultura de cuidado
integral.
O grande desafio atual não é apenas assinar
relatórios, mas transformar os processos de trabalho através da revisão de
metas, da redistribuição de atividades e do posicionamento da liderança por
meio de uma gestão humanizada e da escuta ativa.
Para as empresas que desejam se antecipar e
transformar esse desafio em vantagem competitiva, as ações práticas devem focar
em três pilares fundamentais.
Primeiro, na organização do trabalho e processos,
revisando e distribuindo melhor as atividades, metas e jornadas, além de
aprimorar o monitoramento do dia a dia para evitar sobrecargas crônicas.
Em segundo lugar está o desenvolvimento da
liderança, com as empresas treinando os gestores em liderança humanizada e
escuta ativa para que consigam identificar precocemente os sinais de
esgotamento nas equipes.
Por fim, é importante investir em governança de
dados de saúde, melhorando os registros e as análises de saúde ocupacional
integrados à gestão de pessoas, verificando continuamente o desempenho das
ações adotadas para garantir a assertividade das intervenções.
Investir em um ambiente psicologicamente saudável e
em uma gestão eficiente de atestados deixou de ser uma política de bem-estar
opcional para se tornar uma garantia de continuidade e eficiência do próprio
negócio.
Luiz
Rafael Bezerra - Consultor Sênior de Saúde Ocupacional da Mercer Marsh
Benefícios
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