· Pesquisa mostra que crianças medicadas
apresentaram miopia aos 17 anos e as não medicadas aos 10 anos.
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· Oftalmologista alerta que o achado não autoriza uso de anti-inflamatórios sem prescrição. Entenda.
Pesquisa retrospectiva apresentada na ARVO 2026 pela Faculdade de Medicina da Universidade de Oklahoma reacende o debate sobre inflamação e miopia infantil. Foi realizada com 308 crianças míopes e dessas 154 usaram anti-inflamatórios sistêmicos para tratar doenças inflamatórias crônicas, como artrite idiopática juvenil. Os pesquisadores observaram que este grupo teve progressão mais lenta da miopia e início mais tardio da condição que só surgiu aos 17 anos, enquanto nas crianças não tratadas a miopia surgiu aos 10 anos.
Para
o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, diretor executivo do Instituto Penido
Burnier, o achado, no entanto, exige
cautela. “O resultado desta pesquisa não significa que anti-inflamatórios
previnam miopia, nem que pais devam medicar crianças por conta própria”, afirma
o especialista que é membro do CBO (Conselho Brasileiro de Oftalmologia). A informação mais importante aos pais na
opinião do médico é: inflamações
persistentes na infância precisam ser reconhecidas e tratadas corretamente.
Mais ainda: anti-inflamatórios podem causar catarata precoce, glaucoma e
insuficiência renal. Só devem ser usados com prescrição médica..
Sinais
são discretos
O especialista ressalta que doenças como lúpus, artrite idiopática juvenil e espondilite podem começar com sinais discretos: dor nas articulações, rigidez ao acordar, cansaço excessivo, febre recorrente, manchas na pele, sensibilidade ao sol, olho vermelho, fotofobia ou queda no rendimento escolar.
Estes sintomas em crianças frequentemente são confundidos com “dor do crescimento”, preguiça, alergia ou excesso de tela. O risco é atrasar o diagnóstico de condições que podem afetar não só articulações, pele e rins, mas também os olhos, alerta.
A
artrite idiopática juvenil, por exemplo, pode causar uveíte silenciosa — uma
inflamação intraocular que nem sempre provoca dor ou vermelhidão no início. Já
doenças inflamatórias da coluna podem se manifestar com dor lombar persistente
e episódios de olho vermelho doloroso.
A nova hipótese não muda a recomendação central: miopia deve ser acompanhada por oftalmologista, com controle do grau, avaliação do comprimento axial e, quando indicado, pelo uso de estratégias específicas como lentes de controle de miopia, atropina em baixa dose ou lentes ortoceratológicas que são usadas a noite e liberam do uso de óculos durante o dia.
Para Queiroz Neto o estudo da ARVO amplia a discussão. “O olho míope não é apenas um sinal do nosso tempo. Também reflete um estado biológico mais complexo que envolvendo inflamação, sono, metabolismo, vascularização e estilo de vida.
Para
os pais, a orientação é simples: não usar anti-inflamatórios para tentar
prevenir miopia. Mas também não banalizar sintomas persistentes. Quando uma
criança apresenta dor recorrente, cansaço fora do padrão, rigidez matinal,
manchas na pele, febre sem causa aparente ou sinais oculares, é hora de
procurar avaliação médica.
A
descoberta não transforma remédios anti-inflamatórios em tratamento de miopia.
Mas reforça uma mensagem de saúde pública: inflamação crônica na infância não
deve ser ignorada. Mais que isso, os olhos podem ser uma das primeiras janelas
a perceber que algo no organismo não vai bem, conclui.
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