Dados mostram que, embora o Brasil tenha reduzido a razão de mortalidade materna em 2023, o país ainda segue distante da meta dos ODS e ainda apresenta desigualdades importantes no acesso e na qualidade da assistência
O
Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna e o Dia Internacional de Ação
pela Saúde da Mulher chamam atenção para um tema central da saúde pública: a
necessidade de garantir cuidado oportuno, qualificado e contínuo às mulheres
antes, durante e após a gestação. No Brasil, a data convida à reflexão sobre os
avanços e os desafios ainda presentes na prevenção de mortes maternas
evitáveis.
Dados
do Ministério da Saúde mostram que a razão de mortalidade materna no Brasil
chegou a 55,3 óbitos por 100 mil nascidos vivos em 2023, o menor patamar
recente após o período crítico da pandemia, conforme a Nota Técnica Conjunta nº
227/2025. Ainda assim, o índice permanece distante da meta dos Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável, que prevê menos de 30 óbitos maternos por 100 mil
nascidos vivos até 2030.
O
cenário recente também evidencia o impacto da pandemia sobre esse indicador.
Segundo o Ministério da Saúde, a razão de mortalidade materna passou de 57,9 em
2019 para 74,7 em 2020 e atingiu 117,4 em 2021. Em números absolutos, o governo
federal informou que o país registrou 3.030 mortes maternas em 2021, um aumento
de 74% em comparação com 2014, quando houve 1.739 registros.
Além
da magnitude do problema, os dados oficiais reforçam que a mortalidade materna
no Brasil é marcada por desigualdades. A Nota Técnica do Ministério da Saúde
aponta que, entre 2012 e 2023, as maiores razões de mortalidade materna
ocorreram entre mulheres pretas e indígenas. Em 2023, a razão entre mulheres
pretas foi de 77,7 por 100 mil nascidos vivos. O documento também destaca que,
naquele ano, 121 óbitos maternos ocorreram entre adolescentes, sendo 7 em
meninas de 10 a 14 anos e 114 entre 15 e 19 anos.
Outro
ponto de atenção é o momento em que essas mortes acontecem. O Ministério da
Saúde informa que há predominância de óbitos no período puerperal, o que
evidencia a necessidade de ampliar o cuidado para além do parto e garantir
seguimento adequado também no pós-parto. A Biblioteca Virtual em Saúde do
Ministério também ressalta que atrasos no reconhecimento de condições
modificáveis, na chegada ao serviço de saúde e no tratamento adequado seguem
entre os principais fatores associados às altas taxas de mortalidade materna no
país.
“A
maioria das mortes maternas é considerada evitável com assistência adequada, o
que reforça a importância de acesso oportuno e qualidade no cuidado. Reduzir a
mortalidade materna exige uma linha de cuidado realmente integrada, que começa
no pré-natal, passa pelo parto seguro e continua no puerpério. Muitas
complicações graves podem ser identificadas e tratadas com antecedência quando
há acesso, escuta qualificada, protocolos bem definidos e equipes preparadas
para agir com rapidez”, afirma a Dra. Mônica Siaulys, Diretora do Hospital e
Maternidade Santa Joana.
Para
a especialista, a discussão sobre saúde da mulher precisa ser ampliada e
tratada de forma contínua. “Quando falamos em saúde da mulher, não estamos
tratando apenas de assistência no momento do parto. Estamos falando de
prevenção, acompanhamento clínico, orientação, diagnóstico oportuno e
acolhimento. A mortalidade materna é um dos indicadores mais sensíveis da
qualidade da assistência e da capacidade do sistema de responder de forma
efetiva às necessidades femininas”, diz.
A
Dra. Juliana também destaca que a redução dos óbitos maternos passa pela
combinação entre estrutura, vigilância e humanização. “É fundamental que os
serviços de saúde contem com fluxos assistenciais bem estabelecidos,
monitoramento de riscos e resposta rápida diante de sinais de alerta, mas sem
perder de vista o cuidado humanizado. Segurança e acolhimento não são conceitos
opostos; eles precisam caminhar juntos para proteger a mulher em todas as fases
da gestação e do pós-parto”, afirma.
Em
setembro de 2024, o Ministério da Saúde lançou a Rede Alyne, com a meta de
reduzir a mortalidade materna em 25% até 2027 e de diminuir em 50% as mortes
maternas entre mulheres pretas. A iniciativa integra a estratégia federal para
fortalecer a assistência obstétrica e neonatal no SUS e enfrentar desigualdades
históricas no acesso ao cuidado.
“Reduzir a mortalidade materna exige de políticas públicas consistentes, acesso oportuno à assistência, qualificação das equipes e vigilância permanente. Mais do que um indicador, o tema revela a capacidade do sistema de saúde proteger à vida das mulheres e garantir uma maternidade segura, digna e assistida com qualidade”, conclui a especialista.
Hospital e Maternidade Santa Joana
Site: www.santajoana.com.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário