quarta-feira, 20 de maio de 2026

Obsolescência por trás das telas: exílio e exclusão digitais dos 60+


Imagine a seguinte situação: dona Maria, brasileira de 74 anos, vai à agência do INSS para realizar a prova de vida, como já fez várias vezes. Ao ser chamada ao guichê, ouve que agora o procedimento deve ser feito digitalmente, caso contrário o benefício será automaticamente bloqueado. O atendente começa a explicar os passos: “senhora, é preciso se cadastrar no gov.br, depois fazer o reconhecimento da biometria por meio de uma selfie, então acessar o app Meu INSS …”. Atônita, aflita, ela tenta acompanhar as instruções, mas não consegue entender o que está sendo dito. Percebe que, de certa forma, está diante de uma tela que se tornou um obstáculo em sua vida atual e se sente tão obsoleta quanto o velho celular que carrega na bolsa.
 

Dona Maria faz parte, segundo a PNAD Contínua de 2023 do IBGE, de um contingente de 11,6 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais que permanecem desconectados, seja pela falta de conhecimento, seja por não verem necessidade em usar a internet. Embora o uso da internet por esse público no Brasil tenha aumentado 21,2 pontos percentuais (em relação aos dados de 2019), ainda há inúmeros desafios. Ao contrário de seus filhos e netos, Dona Maria não cresceu com computadores e telas, tampouco compreende jargões técnicos como “login”, “nuvem”, “QR Code” e tantas outras palavras que agora integram o cotidiano. Assim, além de ter dificuldade prática para usar um app no celular, ela também se sente excluída de conversas, antiga, deslocada diante das notícias que apresentam palavras que ela nem faz ideia do que significam. Esse distanciamento emocional é completado pela ansiedade e medo: a fobia de apertar o botão errado, de “estragar o aparelho” ou cair em um golpe digital.
 

Do ponto de vista geracional, esses dados reúnem as gerações caracterizadas como Fundadores (também denominados de Tradicionalistas, nascidos antes de 1946) e Baby Boomers (nascidos entre 1946-1964, decorrente do crescimento populacional pós-guerra). São pessoas que construíram a sociedade atual e promoveram mudanças socioeconômicas e culturais, tendo à sua disposição tecnologias como rádio, cinema, telefone, televisão e fita cassete. Viveram guerras, viram o homem chegar à Lua e a consolidação dos meios de comunicação de massa, mas a internet, os smartphones e aplicativos só se tornaram relevantes no cotidiano quando muitos deles já tinham saído do mercado de trabalho.
 

Esse cenário é agravado por experiências digitais negativas. Muitas aplicações apresentam problemas de interface (letras pequenas, excesso de etapas para a realização de tarefas, símbolos que não são intuitivos), tornando essa barreira ainda maior para quem muitas vezes já enfrenta limitações visuais, motoras ou cognitivas. Por isso, tornam-se fundamentais as iniciativas de letramento digital para o público acima dos 60 anos; caso contrário, estaremos, dia a dia, instituindo uma invisibilidade digital crescente.
 

Neste sentido, é necessário promover iniciativas para desmistificar conceitos, esclarecer significados e oferecer ferramentas para a aprendizagem deste universo digital. Afinal, mais do que “usar a internet”, trata-se de estabelecer uma ponte para a inclusão digital real, para a autonomia de acesso aos serviços públicos, para o contato com a família, para a participação na sociedade contemporânea. Em um cenário em que a migração para o digital é cada vez maior, é fundamental impedir que milhões de ‘donas Marias’ fiquem num exílio digital, presas atrás de uma tela que as tornam invisíveis à sociedade.

 

*O conteúdo dos artigos assinados não representa necessariamente a opinião do Mackenzie.

 

Profa. Dra. Pollyana Notargiacomo é docente dos cursos de Fundamentos de Ciência da Computação e Metodologia da Pesquisa em Computação e lidera o JAS3 lab. – Laboratório de Jogos, Aprendizagem, Simulação, Sistemas e Sinais – da Faculdade de Computação e Informática (FCI) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM).


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