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sábado, 16 de maio de 2026

Nem sempre a criança vai contar: psicóloga alerta para sinais silenciosos de abuso sexual infantil

Campanha Maio Laranja reforça importância da escuta, da informação e da atenção a mudanças de comportamento; maioria dos casos acontece dentro do círculo de confiança da vítima  


O abuso sexual infantil ainda é uma das formas de violência mais silenciosas e difíceis de identificar no Brasil. Em muitos casos, a criança não consegue verbalizar o que aconteceu, demora anos para relatar a violência ou sequer entende que está sendo vítima de abuso. Por isso, a psicóloga especialista em comportamento infantil e infanto juvenil, Dra. Andrea Beltran, alerta que mudanças de comportamento, retraimento emocional e alterações repentinas na rotina podem funcionar como importantes sinais de alerta para familiares e responsáveis. 

O tema ganha ainda mais relevância durante o Maio Laranja, campanha nacional de conscientização e combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes, que tem como marco o dia 18 de maio, data criada em memória de Araceli Crespo, vítima de violência brutal no Espírito Santo, em 1973. 

Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania mostram a dimensão do problema. Apenas entre janeiro e abril de 2026, o Disque 100 registrou mais de 32,7 mil violações sexuais contra crianças e adolescentes, um aumento de 49,48% em relação ao mesmo período do ano anterior. A maior parte das ocorrências acontece dentro da casa da vítima, do suspeito ou de familiares. 

Segundo a Dra. Andrea Beltran, um dos principais desafios é justamente o fato de que o abuso nem sempre deixa marcas físicas visíveis. “Muitas crianças demonstram o sofrimento por meio do comportamento. Mudanças bruscas de humor, isolamento, medo excessivo, agressividade, dificuldade escolar, regressão comportamental ou sexualização precoce podem ser sinais importantes e precisam ser observados com atenção”, explica. 

A especialista destaca que, em grande parte dos casos, o agressor faz parte do círculo de convivência da criança, o que dificulta ainda mais a identificação e a denúncia. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicam que mais de 84% dos casos envolvem familiares ou pessoas próximas da vítima. 

“Existe uma ideia equivocada de que o perigo está sempre fora de casa, quando muitas vezes ele está em relações de confiança já estabelecidas. A criança pode sentir medo, culpa, confusão emocional e até receio de desestruturar a família caso fale sobre o assunto”, afirma Dra. Andrea. 

Outro ponto de atenção, segundo a psicóloga, é que crianças menores frequentemente não possuem repertório emocional ou linguagem suficiente para relatar o que viveram de forma clara. “Nem sempre haverá um relato direto. Por isso, a escuta acolhedora e a observação constante dos adultos são fundamentais. Quando a criança percebe segurança e ausência de julgamento, ela tende a se sentir mais protegida para falar.” 

O avanço do ambiente digital também ampliou os riscos. Dados recentes da SaferNet apontaram a presença de 2,65 milhões de usuários em grupos e canais do Telegram contendo imagens de abuso e exploração sexual infantil em 2024. 

Para a Dra., a prevenção passa necessariamente pela informação e pelo fortalecimento do diálogo dentro de casa. “Educar crianças sobre limites do próprio corpo, consentimento e segurança não é sexualização infantil. É proteção. Crianças bem orientadas conseguem identificar situações inadequadas com mais facilidade e tendem a procurar ajuda mais rapidamente”, ressalta. 

A especialista reforça que qualquer suspeita de abuso deve ser levada a sério. As denúncias podem ser feitas anonimamente pelo Disque 100, canal nacional de proteção aos direitos humanos que funciona 24 horas por dia.

 

Dra. Andrea Beltran - psicóloga analítica junguiana, formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Atua no acompanhamento de processos individuais com foco em autoconhecimento, vínculo e desenvolvimento emocional. Seu trabalho valoriza narrativas pessoais e vínculos profundos, buscando acolhimento genuíno em cada jornada.



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