Campanha Maio Laranja reforça importância da escuta, da informação e da atenção a mudanças de comportamento; maioria dos casos acontece dentro do círculo de confiança da vítima
O abuso sexual infantil ainda é uma das formas de
violência mais silenciosas e difíceis de identificar no Brasil. Em muitos
casos, a criança não consegue verbalizar o que aconteceu, demora anos para
relatar a violência ou sequer entende que está sendo vítima de abuso. Por isso,
a psicóloga especialista em comportamento infantil e infanto juvenil, Dra.
Andrea Beltran, alerta que mudanças de comportamento, retraimento emocional e
alterações repentinas na rotina podem funcionar como importantes sinais de
alerta para familiares e responsáveis.
O tema ganha ainda mais relevância durante o Maio Laranja,
campanha nacional de conscientização e combate ao abuso e à exploração sexual
de crianças e adolescentes, que tem como marco o dia 18 de maio, data criada em
memória de Araceli Crespo, vítima de violência brutal no Espírito Santo, em
1973.
Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania mostram a
dimensão do problema. Apenas entre janeiro e abril de 2026, o Disque 100
registrou mais de 32,7 mil violações sexuais contra crianças e adolescentes, um
aumento de 49,48% em relação ao mesmo período do ano anterior. A maior parte
das ocorrências acontece dentro da casa da vítima, do suspeito ou de
familiares.
Segundo a Dra. Andrea Beltran, um dos principais desafios é
justamente o fato de que o abuso nem sempre deixa marcas físicas visíveis. “Muitas
crianças demonstram o sofrimento por meio do comportamento. Mudanças bruscas de
humor, isolamento, medo excessivo, agressividade, dificuldade escolar, regressão
comportamental ou sexualização precoce podem ser sinais importantes e precisam
ser observados com atenção”, explica.
A especialista destaca que, em grande parte dos casos, o agressor
faz parte do círculo de convivência da criança, o que dificulta ainda mais a
identificação e a denúncia. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública
indicam que mais de 84% dos casos envolvem familiares ou pessoas próximas da
vítima.
“Existe uma ideia equivocada de que o perigo está sempre fora de
casa, quando muitas vezes ele está em relações de confiança já estabelecidas. A
criança pode sentir medo, culpa, confusão emocional e até receio de
desestruturar a família caso fale sobre o assunto”, afirma Dra. Andrea.
Outro ponto de atenção, segundo a psicóloga, é que crianças
menores frequentemente não possuem repertório emocional ou linguagem suficiente
para relatar o que viveram de forma clara. “Nem sempre haverá um relato direto.
Por isso, a escuta acolhedora e a observação constante dos adultos são
fundamentais. Quando a criança percebe segurança e ausência de julgamento, ela
tende a se sentir mais protegida para falar.”
O avanço do ambiente digital também ampliou os riscos. Dados
recentes da SaferNet apontaram a presença de 2,65 milhões de usuários em grupos
e canais do Telegram contendo imagens de abuso e exploração sexual infantil em
2024.
Para a Dra., a prevenção passa necessariamente pela informação e
pelo fortalecimento do diálogo dentro de casa. “Educar crianças sobre limites
do próprio corpo, consentimento e segurança não é sexualização infantil. É
proteção. Crianças bem orientadas conseguem identificar situações inadequadas
com mais facilidade e tendem a procurar ajuda mais rapidamente”, ressalta.
A especialista reforça que qualquer suspeita de abuso deve ser levada a sério. As denúncias podem ser feitas anonimamente pelo Disque 100, canal nacional de proteção aos direitos humanos que funciona 24 horas por dia.

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