Brasil, pentacampeão mundial! Pensar a seleção
como um grupo de 22 jogadores e uma comissão técnica é reduzir demais o que ela
representa. Ela sempre foi muito maior do que o próprio esporte,
pois a cada partida, o país parece reencontrar algo raro: um sentimento
coletivo de pertencimento. Fato é que, por algumas semanas,
22 atletas se tornam 214 milhões de torcedores. A nação lembra que
ainda sabe torcer junto, sonhar junto, vibrar junto. Enfim, o futebol vira
espelho de uma autoestima tantas vezes ferida no cotidiano.
Quando a bola rola, sem sombra de dúvidas, não são
somente onze em campo, mas o imaginário de milhões projetado em cada
passe, em cada defesa, em cada gol. É como se
cada pessoa estivesse ali driblando as dificuldades da vida,
transformando as frustrações em persistência, buscando,
simbolicamente, o gol da esperança.
Mas o país mudou, e o futebol
sentiu. O que sempre foi território neutro agora parece atravessado por
disputas que antes ficavam do lado de fora do estádio. As cores da camisa,
antes símbolo de união, passaram a ser vistas por alguns como algo a ser
rejeitado, a ponto de quererem modificar as suas cores. Jogadores são julgados
por ideias, não por jogadas. Até um italiano como técnico da
seleção brasileira desperta estranhamento, ironia maior ainda com a Itália
fora da Copa.
É natural que a política, tão presente no dia
a dia, acabe também representada no futebol. O problema é quando
chega de forma ruidosa, desgastante, tirando a leveza, abafando a
alegria, diminuindo o brilho da esperança.
Resultado: muitos já não sabem os nomes dos convocados,
nem a data da estreia, nem o adversário inicial. Quem imaginaria isso
algum dia? Assim, aquilo que deveria ser um momento
de descontração, se torna espelho das tensões que transbordam para todas
as outras áreas da vida nacional. A euforia é contida. A paixão vira
disputa. O que antes unia, agora divide.
O campo reflete a mesma fratura presente na
vida da população, que reconhece a condição política do país, mas
ainda encontra dificuldade para superar essa divisão que insiste em permanecer.
Inclusive, tentando tirar o brilho e o encanto de
ser brasileiro.
Mas, o Brasil é Brasil. O futebol
continua sendo uma das poucas linguagens que todos nós, de algum modo, entendemos
quando faz desconhecidos se abraçarem na rua, desperta orgulho,
emoção e pertencimento. E ao mostrar para o mundo um
país que, mesmo ferido, continua vibrante.
Talvez o desafio seja resgatar o futebol como
exemplo de um espaço de encontro, celebração e compartilhamento,
não de separação. Somos torcedores de, em média, 1000 times, que
apesar das diferenças, com a seleção brasileira, se unem por um único
ideal: o de uma nação vitoriosa, com um povo feliz.
Sim, apesar de tudo, o Brasil de chuteira segue
vivo. E basta o apito inicial para lembrar que, no fundo,
ainda vamos conseguir vibrar juntos e, como na canção de
Miguel Gustavo, cantar “De repente é aquela
corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão. Todos unidos
na mesma emoção, tudo é um só coração. Todos juntos vamos, pra frente
Brasil…”.
Beatriz Breves - psicóloga,
psicanalista e escritora, autora do livro Eu Fractal – conheça-te a ti mesmo

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