Existe um paradoxo fascinante no coração da transformação digital: no exato momento em que criamos um modelo de Inteligência Artificial (IA), ele já se torna legado. Os Grandes Modelos de Linguagem (LLMs) são, por definição, estimativas congeladas até um determinado ponto no tempo. Isso não é uma falha de design – é assim que deve ser. Por isso, eles são constantemente atualizados. A conclusão inevitável? Nunca nos livraremos completamente do legado. A questão não é se teremos sistemas legados, mas como gerenciamos a inevitabilidade da obsolescência contínua.
Durante décadas,
modernizar sistemas legados foi tratado como um projeto com começo, meio e fim
– caro, longo e, muitas vezes, ingrato. Para muitos CIOs, significava assumir
riscos que só se materializariam plenamente no mandato do sucessor. Esse
raciocínio já não se sustenta. Em um ambiente competitivo moldado por dados,
nuvem e IA, o legado deixou de ser apenas um problema técnico: tornou-se um
fator estratégico que define a velocidade com que uma empresa consegue se
adaptar, inovar e competir.
Diante disso, as
organizações aprenderam, muitas vezes da forma mais custosa, que precisam se
modernizar continuamente. Em uma arquitetura monolítica, isso se torna um
exercício extremo de engenharia: exige mais esforço, investimento exponencial
e, principalmente, tempo – o recurso mais escasso em mercados hipercompetitivos.
O ponto de virada está em migrar para uma arquitetura que facilite a evolução
constante. Não se trata mais de um grande monolito impossível de abrir, para o
qual não existem mais pessoas que saibam como funciona por dentro. Trata-se de
sistemas modulares, adaptáveis, que respiram junto com as mudanças do mercado.
Arquiteturas
críticas, inclusive mainframes, seguem oferecendo níveis de segurança,
resiliência e previsibilidade difíceis de replicar. O desafio real está na
aplicação, na arquitetura e na capacidade de evolução contínua. Modernizar,
hoje, significa criar condições para mudar sempre – e não executar uma grande
migração traumática a cada década. É aqui que a IA deixa de ser apenas mais uma
ferramenta e se torna um agente de transformação estrutural. Ela pode analisar
e traduzir código em escala industrial. Muitas empresas já utilizam motores de
IA para escrever 80% do código em determinadas aplicações – isso gera uma
eficiência sem precedentes para tarefas extremamente trabalhosas. Mas há uma
diferença fundamental entre usar IA para acelerar o desenvolvimento e usar
agentes de IA para reimaginar completamente como construímos e mantemos
sistemas.
Estamos entrando
na era da modernização assistida por agentes autônomos, capazes de entender as
restrições de um cliente, mapear sistemas legados complexos e reconstruir tudo
em ambientes tecnológicos modernos – não uma vez, mas continuamente. Imagine a
capacidade de pegar um conjunto de sistemas legados, compreender suas
dependências e limitações, e reconstruir a arquitetura inteira em tecnologia de
ponta, e então repetir esse processo de forma sistemática, mantendo a
organização sempre no estado da arte necessário para competir. Não estamos
falando de um projeto de transformação com começo, meio e fim. Estamos falando
de um ciclo contínuo de evolução tecnológica. É a diferença entre reformar uma
casa a cada década e ter um sistema que se auto moderniza constantemente. Essa
é a promessa da modernização baseada em IA: perpetuidade ao invés de projetos
pontuais.
É importante
desmistificar (e reforçar): modernizar não significa necessariamente abandonar
o mainframe. Mainframes continuam sendo extremamente seguros e oferecem
capacidades difíceis de replicar em ambientes distribuídos. O que precisa ser
modernizado é a aplicação que roda sobre essa infraestrutura. Muitos projetos
bem-sucedidos envolvem containerizar aplicações críticas e adotar arquiteturas
modernas com microsserviços, mantendo o core banking seguro enquanto se ganha a
agilidade necessária para inovar nas camadas superiores. A IA Generativa está
ampliando significativamente o potencial para superar os desafios mais
complexos nessa jornada – com ferramentas capazes de automatizar a
transformação com aderência de até 66% no processo, além de permitir interações
avançadas entre equipes de desenvolvimento e o código através de interfaces
conversacionais.
Os números do
mercado revelam o tamanho da oportunidade. Os gastos globais com TI estimados em
2025 alcançaram os US$ 5,43 trilhões, com crescimento de 42,4% nos
investimentos em data centers para saciar a demanda por processamento de IA
Generativa. O segmento de software teve um salto para US$ 1,23 trilhão. Mas há
uma nuance importante: CIOs estão mais inclinados a investir em funcionalidades
prontas oferecidas por fornecedores estabelecidos, em vez de desenvolver
capacidades complexas internamente. A mensagem é clara: o mercado quer soluções
que incorporem IA de forma prática e acessível. Serviços financeiros,
manufatura e saúde lideram a modernização de infraestrutura, buscando redução
de custos operacionais, integração de IA a processos produtivos e análise de dados
em tempo real.
A transformação
mais significativa que começou em 2024 é a ascensão da IA Agêntica – sistemas
autônomos capazes de executar tarefas complexas sem intervenção humana
constante. Isso está revolucionando modelos de atendimento, marketing,
precificação e desenvolvimento de software. Imagine um futuro em que a IA não
apenas alimenta aplicações, mas potencialmente as substitui. A lógica de
negócios, em vez de fluir por várias camadas de interface, middleware
e APIs, é orquestrada diretamente. É o fim do software inchado e em camadas,
dando lugar a arquiteturas enxutas e nativas de IA. Processos ineficientes não
devem ser automatizados: devem ser eliminados. A capacidade de reimaginar
operações fundamentalmente, em todos os departamentos, é o que separará
empresas líderes de organizações estagnadas.
As empresas líderes
não serão aquelas que conseguiram 5% de economia de custos em projetos
isolados. Serão aquelas capazes de se reconfigurar constantemente para explorar
um suprimento quase infinito de capacidade cognitiva artificial, testando novas
ofertas e processos em escala e velocidade sem precedentes. A pergunta
estratégica muda de “Onde podemos cortar custos?” para “Onde a IA pode ter
maior efeito multiplicador?”. Para organizações do setor financeiro, no qual
sistemas legados são simultaneamente o maior ativo e o maior passivo, a
modernização contínua assistida por IA não é mais uma opção de futuro, mas sim
uma necessidade competitiva do presente.
O Brasil, com
reguladores inovadores e um mercado de
US$ 58,6 bilhões em TI, está especialmente bem-posicionado para liderar essa
transformação na América Latina, capitaneando um futuro que não pertence às
empresas que buscam pequenos ganhos marginais, mas àquelas capazes de se
reconfigurar continuamente para explorar uma oferta quase ilimitada de
capacidade cognitiva.
Modernizar
sistemas legados com o apoio da IA não é, portanto, um destino: é um caminho e,
quanto antes ele se tornar parte da estratégia central do negócio, maiores
serão as chances de competir em um mundo onde velocidade, inteligência e escala
caminham juntas.
Jonatas Leandro - VP de Inovação da GFT Technologies no Brasil
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