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| Ettore Majorana, fotografado em 1930 por fotógrafo desconhecido imagem: Wikimedia Commons |
Modelo teórico indica como excitações quânticas protegidas topologicamente podem sustentar qubits menos sensíveis a ruídos e imperfeições do ambiente
No dia 27
de março de 1938, aos 31 anos, o físico italiano Ettore Majorana ocultou-se do
mundo sem deixar vestígios. Intelectualmente brilhante e emocionalmente em
conflito, esse gênio, que seu professor Enrico Fermi (Prêmio Nobel de Física de
1938) colocava no mesmo patamar de grandeza do inglês Isaac Newton (1642-1727),
havia publicado no ano anterior, 1937, o artigo “Teoria simmetrica
dell’elettrone e del positrone”. Foi um dos poucos textos de Majorana que
sobreviveram à sua tendência de rasgar e jogar fora tudo o que escrevia. Nele,
como solução para a Equação de Dirac, que une mecânica quântica e relatividade
especial e prevê a existência da antimatéria, o jovem italiano apresentou a
ideia de uma partícula que seria idêntica à sua antipartícula. Esse par,
partícula-antipartícula, recebe, atualmente, o nome de férmions de Majorana.
O artigo de 1937 foi lido em
pequenos círculos de especialistas e considerado matematicamente elegante, mas
sem conexão com o mundo real. Sua importância só se tornou clara nos anos
1950-60, no contexto da física de neutrinos, e, principalmente, a partir dos
anos 2000, na física da matéria condensada. Neste caso, verificou-se que,
embora a existência dos férmions de Majorana não tenha sido confirmada
experimentalmente, um análogo poderia surgir em materiais sólidos, especialmente
em certos tipos de supercondutores. Ele não é composto por partículas reais,
mas por quase-partículas, isto é, por excitações coletivas do sistema, que
passa a se comportar como se o férmion de Majorana estivesse presente.
Os estados de Majorana aparecem
tipicamente nas extremidades de fios ou cadeias supercondutoras (materiais que,
abaixo de uma temperatura crítica, conduzem corrente elétrica sem resistência).
Tudo se passa como se as excitações eletrônicas se decompusessem
matematicamente em dois “meios férmions”, cada qual situado em uma ponta. O
conjugado quântico não local que eles formam corresponde a um estado de energia
zero, no sentido de que não altera a energia total do sistema.
Os estados ligados de Majorana
constituem hoje um dos eixos centrais da pesquisa em computação quântica
topológica. A busca por computadores quânticos capazes de operar de forma
confiável – mesmo na presença inevitável de ruídos, defeitos e flutuações do
ambiente – tem levado físicos de diferentes áreas a investigar essas excitações
quânticas não convencionais, cujo interesse decorre de seu potencial para
servir de base a qubits topológicos – uma arquitetura alternativa de computação
quântica que promete maior robustez frente a perturbações externas.
“Em plataformas quânticas
convencionais, a informação é codificada em graus de liberdade locais e, por
isso, torna-se extremamente sensível a imperfeições microscópicas, o que leva à
rápida perda de coerência. Já em sistemas que hospedam estados de Majorana, a
informação quântica é armazenada de forma não local, distribuída entre regiões
espacialmente separadas do dispositivo e protegida por propriedades topológicas
globais do sistema, reduzindo a dependência de detalhes locais e tornando esses
estados candidatos particularmente promissores para a implementação de qubits
mais estáveis”, diz a pesquisadora Poliana Heiffig Penteado, do
Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP).
Em conjunto com José Carlos Egues de Menezes,
professor titular do IFSC-USP, e o ex-estudante de doutorado Rodrigo Abreu Dourado, ela
coordenou estudo publicado como “Editors’ Suggestion" no periódico Physical
Review B.
O trabalho investigou como
criar e tornar mais estáveis estados de Majorana, com vista à aplicação futura
em computação quântica. “Estudamos um modelo teórico conhecido como cadeia de
Kitaev, que pode ser implementado na prática usando arranjos de pontos
quânticos acoplados a supercondutores. Em cadeias muito curtas, especialmente
com apenas dois pontos quânticos, é possível obter estados semelhantes aos de
Majorana, mas apenas em condições muito específicas de ajuste fino dos
parâmetros do sistema. O principal objetivo do estudo foi entender o que
acontece quando aumentamos o número de pontos quânticos da cadeia. O estudo
demonstrou que aquilo que antes aparecia como um ponto isolado de estabilidade
evolui, gradualmente, para uma ‘ilha topológica’, uma região extensa de
parâmetros onde os estados de Majorana permanecem protegidos”, relata Egues.
Existe hoje um debate
internacional intenso sobre como distinguir, de forma inequívoca, os majoranas
genuínos de excitações quânticas triviais que produzem sinais semelhantes nos
experimentos. O estudo insere-se nesse debate. Seu ponto de partida é um modelo
teórico conhecido como cadeia de Kitaev. Tal modelo foi proposto em 2001 pelo
físico russo Alexei Kitaev, nascido em Moscou em 1962 e atualmente sediado no
California Institute of Technology (Caltech). Ele mostrou que um sistema
unidimensional de elétrons, acoplados por emparelhamento supercondutor, pode
entrar em uma fase topológica na qual um férmion eletrônico do conjunto se
decompõe matematicamente em dois modos de Majorana espacialmente separados e
hospedados nas extremidades. O estado quântico não local formado por esse par
tem energia zero em relação ao estado fundamental. A cadeia de Kitaev fornece o
alicerce conceitual para a produção de qubits topológicos protegidos contra
perturbações locais.
“O problema é que, em cadeias
muito curtas, como aquelas formadas por apenas dois pontos quânticos, esses
estados só aparecem em condições extremamente específicas, conhecidas
como sweet spots. Qualquer pequena flutuação nos parâmetros do sistema
faz com que a energia desses estados deixe de ser exatamente zero, destruindo a
proteção desejada e inviabilizando a observação experimental”, afirma Egues.
A ideia dos pesquisadores foi,
então, aumentar o número de pontos quânticos da cadeia e ver o que acontece.
“Mostramos que, quando a cadeia fica maior, os sweet spots deixam
de ser pontos isolados e passam a se agrupar, formando uma região contínua no
espaço. Para cadeias suficientemente longas, com cerca de 20 pontos quânticos
ou mais, essa região se transforma em uma verdadeira ilha topológica. Dentro
dela, os estados de Majorana permanecem rigorosamente com energia zero, bem
localizados nas extremidades da cadeia e resistentes até mesmo à presença de
flutuações aleatórias nos parâmetros do sistema. Esse comportamento marca a
transição de um regime frágil para um regime genuinamente topológico, no qual a
proteção não depende mais de ajuste fino”, informa Penteado.
Além de caracterizar teoricamente essa transição, o estudo propôs uma forma concreta de detectar as ilhas topológicas em experimentos. Motivados por um trabalho anterior do grupo do IFSC-USP, realizado com apoio da FAPESP e que se tornou uma referência clássica na área, os pesquisadores acoplaram lateralmente à cadeia um ponto quântico conectado a contatos metálicos (ver figura 1) e mediram a condutância elétrica do sistema (a medida de quão facilmente a corrente elétrica atravessa um material, sendo o inverso da resistência elétrica). Quando um estado de Majorana está presente e protegido, a condutância assume um valor característico e quantizado, formando um platô em torno da voltagem zero. Esse platô funciona como uma assinatura elétrica robusta do estado topológico.
Além disso, o estudo mostrou
também que a condutância está diretamente relacionada à estatística de troca
dos majoranas (“braiding”), mostrando que o seu operador ao quadrado, γ2 é
½ e não zero, como no caso dos férmions usuais, os quais obedecem ao princípio
de Pauli (ver figura 2a). Os estados de borda de Majorana em sistemas de
matéria condensada não possuem uma distribuição de Fermi-Dirac (ver figura
2b).
“A beleza do resultado foi
relacionar uma medida elétrica simples, a condutância, com uma propriedade
fundamental da partícula [sua estatística]. Se a condutância assume esse valor
quantizado, isso indica que a corrente está sendo transportada por um modo de
Majorana, e não por uma excitação trivial”, argumenta Egues. Penteado
acrescenta que esse ponto é crucial em um campo de investigação marcado por
controvérsias: “Desde os primeiros experimentos, ficou claro que outros
fenômenos, como o efeito Kondo, podem gerar sinais parecidos. O desafio sempre
foi mostrar que aquele pico na condutância vinha mesmo de um majorana. Nosso
trabalho contribui justamente para essa distinção”.
Embora o estudo seja teórico,
ele utilizou parâmetros realistas, extraídos de experimentos recentes, e
dialoga diretamente com esforços internacionais para a construção de qubits
topológicos. Empresas como a Microsoft têm investido pesadamente nessa linha de
pesquisa, na expectativa de que majoranas possam viabilizar computadores
quânticos mais estáveis. O trabalho dos pesquisadores brasileiros mostra que
não é necessário um controle absolutamente perfeito dos parâmetros para
observar estados de Majorana robustos. Basta aumentar o tamanho do sistema –
algo que já está ao alcance das plataformas experimentais atuais.
O estudo foi apoiado pela
FAPESP por meio de auxílio regular ao projeto “Oscilações de Shubnikov-de-Haas em sistemas eletrônicos de isolantes
topológicos e não topológicos”,
conduzido por Egues.
O artigo Two-site
Kitaev sweet spots evolving into topological islands pode ser lido
em: link.aps.org/doi/10.1103/wptk-lvc5.
José Tadeu Arantes
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/trabalho-sugere-caminho-para-viabilizar-o-uso-de-estados-de-majorana-em-computacao-quantica/57038



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