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terça-feira, 2 de junho de 2026

Confira 5 benefícios das olimpíadas científicas para o desenvolvimento dos estudantes

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Competições de conhecimento representam mais do que medalhas, mas estimulam o interesse pelos estudos, desenvolvem habilidades interpessoais e podem abrir portas para universidades  

 

 

Muito além das medalhas e certificados, as olimpíadas científicas têm se consolidado como ferramentas importantes para o desenvolvimento acadêmico, emocional e social dos estudantes. Ao aproximar os alunos de temas atuais e estimular habilidades como disciplina, trabalho em equipe e autoconfiança, essas competições também podem abrir portas para universidades renomadas.  


De acordo com a professora de História e autora da Rede Pitágoras, Bárbara Tostes, os alunos que se envolvem nestes desafios passam a estudar com mais profundidade, aprendem a organizar seus horários e a se comprometer com uma rotina de preparação que vai além das aulas regulares.  


Já segundo o diretor do Colégio Fibonacci e autor do Fibonacci Sistema de Ensino, André Ricardo de Castro, a experiência vivenciada por estudantes nessas competições vai muito além do desempenho em provas. “O principal benefício que as olimpíadas trazem para os alunos participantes é eles aprenderem a relação da ciência básica não só com uma pesquisa em desenvolvimento de coisas, mas com uma aplicação prática no dia a dia. Gera engajamento, mais interesse e desperta no aluno a vontade de conhecer mais sobre esses temas”, afirma. 

 

Papel da escola é fundamental 

 

Para o especialista do Fibonacci, o incentivo das escolas é essencial para ampliar a participação dos estudantes nessas competições. “A escola deve divulgar, organizar, incentivar os alunos a participarem e facilitar essa participação”, afirma.  

 

Ele também destaca que o ambiente escolar tem papel importante para equilibrar a rotina dos estudantes. “A escola e o aluno ganham com isso e a família também fica satisfeita. Não há lado ruim em participar de olimpíadas, é sempre positivo”, indica. 

 

Principais benefícios 

 

Confira cinco benefícios da participação em olimpíadas científicas, segundo os especialistas: 

 

1. Geram interesse e engajamento pelos estudos 

 

As olimpíadas costumam trabalhar conteúdos de química, física, matemática e biologia a partir de temas presentes no cotidiano, como meio ambiente, saúde e vacinas. Isso ajuda os estudantes a perceberem como a ciência está presente na vida prática. 

 

De acordo com André Ricardo de Castro, esse contato desperta mais curiosidade e aproxima os alunos do conhecimento científico. “As olimpíadas científicas costumam trabalhar conceitos das ciências básicas em situações aplicadas. Então é bom para o aluno ver a presença da ciência básica nos acontecimentos do cotidiano, e isso aumenta o engajamento e o interesse dele por aprender ciência”, explica. 

 

Segundo Bárbara, da Rede Pitágoras, o estudante aprende a estudar por objetivos, a enfrentar conteúdos complexos com coragem e a persistir mesmo diante das dificuldades. Ou seja, a preparação para olimpíadas científicas ensina o estudante a estudar de verdade — com propósito, método e profundidade.    

 

2. Auxiliam a melhorar o desempenho em sala de aula 

 

O interesse despertado pelas olimpíadas científicas também impacta diretamente o rendimento escolar. Isso porque os estudantes passam a compreender melhor a importância dos conteúdos trabalhados em aula. “Quando o aluno desenvolve esse interesse e engajamento, acaba precisando mais das ferramentas trabalhadas em aula para entender melhor aqueles processos”, destaca o diretor do Fibonacci. 

 

A especialista da Rede Pitágoras, por sua vez, também afirma que os reflexos da participação em olimpíadas científicas no desempenho escolar são muito positivos. Para ela, alunos que se envolvem nessas competições costumam apresentar maior segurança em avaliações. “Isso acontece porque a preparação para uma olimpíada exige habilidades transferidas diretamente para a rotina escolar, como raciocínio lógico, leitura interpretativa, resolução de problemas e escrita argumentativa”, destaca.   

 

3. Estimulam o desenvolvimento de habilidades interpessoais 

 

Além do conhecimento acadêmico, muitas olimpíadas estimulam competências socioemocionais importantes, especialmente aquelas realizadas em grupo, como a Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB). “Os trabalhos são em grupo e não são simplesmente questionários ou testes. Muitas vezes a olimpíada pede produção de texto, vídeo e outras tarefas. Como são atividades avaliadas em grupo, existe a necessidade de relacionamento interpessoal e de gerenciamento dessa produção de conteúdo”, afirma André Ricardo de Castro. Com isso, os estudantes desenvolvem habilidades como comunicação, colaboração, organização e trabalho em equipe. 

 

Além disso, para Bárbara, os alunos engajados passam a enxergar que o estudo deixa de ser uma obrigação e se transforma em uma jornada estimulante, na qual cada conceito compreendido representa um passo a mais rumo a uma superação pessoal. 

 

4. Criam mais confiança e motivação para os vestibulares 

 

Participar de competições em nível nacional também fortalece a autoconfiança dos estudantes, já que eles conseguem comparar seu desempenho com alunos de todo o país.  “Quando ele consegue um desempenho muito bom, recebe reconhecimento por parte da olimpíada, é premiado e entende que está entre os melhores do Brasil naquela área”, comenta o especialista. 

 

Segundo ele, essa percepção contribui para que o estudante se sinta mais preparado para processos seletivos importantes. “Esse aluno se sente muito mais confiante para concorrer a qualquer vaga de vestibular, porque sabe que tem um desempenho superior ao de boa parte dos estudantes do país inteiro”, ressalta. 

 

Mesmo para aqueles que não conquistam medalhas, a experiência continua sendo positiva. “A olimpíada dá um feedback de quais são os pontos de melhoria que ele precisa desenvolver ao longo da educação básica”, explica. 

 

Além disso, o estudante que participa de olimpíadas ganha confiança em sua própria capacidade de aprender, o que amplia seu envolvimento com os estudos de forma geral.  

 

5. Dão oportunidade de ingresso em universidades renomadas 

 

Atualmente, universidades públicas como USP, Unicamp e Unesp possuem editais específicos para estudantes medalhistas em olimpíadas científicas. “As universidades estaduais de São Paulo têm os maiores programas de ingresso por desempenho em olimpíadas científicas. Elas destinam parte das vagas para alunos que desempenharam bem nessas competições”, explica André Ricardo de Castro. 


Segundo ele, as vagas costumam ser destinadas a cursos relacionados às áreas das olimpíadas. “Qualquer aluno que seja medalhista em fase nacional de olimpíadas do conhecimento ao longo do Ensino Médio tem uma boa oportunidade de ingressar nessas universidades”, afirma.

 

IA multiagente na saúde amplia eficiência e desafia governança médica

A evolução da inteligência artificial na medicina, impulsionada pela transição dos tradicionais modelos de linguagem única (LLMs) para sistemas multiagentes, vem ampliando o potencial de eficiência e precisão nas análises clínicas. Contudo, o avanço tecnológico traz novos desafios relacionados à governança, responsabilidade e segurança no uso dessas ferramentas no setor de saúde.

Os chamados sistemas multiagentes funcionam como um ecossistema de inteligências artificiais especializadas que interagem entre si para executar tarefas complexas. Em um ambiente hospitalar, por exemplo, uma IA pode analisar o prontuário do paciente, enquanto outra interpreta exames de imagem e uma terceira cruza possíveis interações medicamentosas para auxiliar na definição de um tratamento.

Segundo Ernani Teixeira Ribeiro Jr., sócio do Atra Advogados e especialista em negócios digitais e gestão legal de riscos em IA, o modelo representa uma espécie de “junta médica digital”. “Não estamos mais diante de uma única IA operando de forma isolada, mas de vários agentes autônomos especializados colaborando entre si para apoiar a tomada de decisão médica”, afirma.

O especialista ressalta que os ganhos em escala, redução de custos e aumento da precisão diagnóstica são evidentes, mas alerta que o uso dessas tecnologias sem uma estrutura robusta de conformidade pode gerar riscos operacionais e jurídicos relevantes. “Objetivos como eficiência e produtividade, sem acompanhamento adequado sobre governança, ética e segurança, podem levar tanto à perda de investimentos quanto ao uso inadequado da tecnologia”, diz.

A discussão ganha ainda mais relevância com a entrada em vigor da Resolução CFM nº 2.454/2026, que estabelece prazo de 180 dias para que instituições de saúde implementem mecanismos de governança no uso de soluções de inteligência artificial. A norma prevê temas como transparência, rastreabilidade, contestabilidade e mapeamento do uso de IA em hospitais e clínicas.

Embora a resolução determine que a inteligência artificial deve atuar apenas como ferramenta de apoio, mantendo a decisão final sob responsabilidade do médico, Ernani avalia que os sistemas multiagentes tornam o cenário mais complexo. “Como um profissional poderá supervisionar integralmente uma decisão construída por diferentes IAs conversando entre si em linguagem de máquina? Esse é um dos grandes desafios regulatórios e operacionais que surgem nesse novo contexto”, explica.

Para o advogado, práticas como mapeamento de dados pessoais, implementação de modelos de Privacy by Default, gestão estruturada de riscos em IA e controle da entrada e saída de dados deixam de ser conceitos teóricos e passam a integrar requisitos essenciais para o funcionamento seguro dessas soluções.

Ele defende ainda que projetos de IA na saúde sejam desenvolvidos de forma multidisciplinar, integrando áreas jurídicas, segurança da informação, tecnologia e gestão de riscos desde a fase inicial. “Não se trata de frear a inovação, mas de estruturá-la. Instituições de saúde precisam adotar metodologias de avaliação prévia que considerem impacto em direitos fundamentais, viabilidade técnica e aspectos éticos antes da implementação dessas ferramentas”, afirma.

A criação de Comissões de IA e Telemedicina, prevista nas novas exigências regulatórias, além da revisão de contratos com fornecedores de tecnologia e do treinamento contínuo do corpo clínico, também passa a ser vista como parte da estratégia de governança das instituições. 

“Na era dos sistemas multiagentes, a governança estruturada será o elemento capaz de garantir que toda essa conexão entre inteligências artificiais seja auditável, segura e, acima de tudo, centrada no paciente e no respeito à relação médico-paciente”, conclui Ernani Teixeira Ribeiro Jr.

 

Atenção resgatada


A promulgação da lei que proibiu o uso de telefones celulares nas escolas brasileiras, no início de 2025, marcou uma mudança expressiva na rotina e na dinâmica de convivência dentro das salas de aula do país. A medida, afinal, interveio diretamente no microcosmo do cotidiano escolar e nos hábitos das famílias, disposta a enfrentar o desafio da dispersão digital. 

Em um debate tensionado por paixões ideológicas e relatos anedóticos, oscilando não raro entre o alarmismo tecnofóbico e o deslumbramento digital, o recurso a dados e estudos robustos surge como um esteio indispensável para qualificar a gestão pública nesse campo. 

É sob essa ótica que ganham relevância as pesquisas coordenadas pela Universidade Stanford, por meio do Centro Lemann e da iniciativa Equidade.info. Ao cruzar a percepção direta da comunidade escolar com uma avaliação do impacto causal nos resultados acadêmicos, os estudos revelam que o veto aos aparelhos não se apoia em mero moralismo, mas em uma política com efeitos mensuráveis na qualidade do ensino. 

O primeiro estudo consistiu em um amplo diagnóstico nacional realizado entre fevereiro e julho de 2025. Baseado em entrevistas presenciais com mais de 3 mil estudantes, professores e diretores das redes pública e privada, o levantamento mostrou que 83% dos alunos notaram uma melhora direta na própria capacidade de atenção durante as aulas. O dado demonstra que, na visão dos próprios jovens, o smartphone funcionava como um elemento de distração constante, cuja remoção liberou um espaço cognitivo vital para o aprendizado. 

A estratificação dos dados revela que os desafios crescem à medida que os alunos avançam nos ciclos escolares. Enquanto nos primeiros anos do Ensino Fundamental o ganho de concentração atingiu impressionantes 88%, no Ensino Médio o índice recua para 70%. Essa clivagem se acentua quando se observa o cumprimento da norma: apenas 2% das crianças menores admitiram burlar o veto, em contraste com 55% dos adolescentes que confessaram manter o uso velado do aparelho. 

O diagnóstico é claro: quanto mais consolidado o hábito digital e maior a autonomia do estudante, mais porosa se torna a eficácia da norma jurídica, o que exige das direções estratégias pedagógicas de convencimento que ultrapassem a mera punição burocrática. 

A retirada abrupta dos smartphones expôs a vulnerabilidade psicológica da juventude diante do ecossistema digital. Durante os intervalos, 44% dos estudantes manifestaram um tédio acentuado, enquanto metade dos professores (49%) notou uma alta visível na ansiedade dos alunos. Ao confiscar a distração, o veto deixou exposto um vazio comportamental. Como observa o pesquisador brasileiro Guilherme Lichand, coordenador da pesquisa de Stanford, o cenário exige que a escola reinvente o recreio com propostas culturais e esportivas que devolvam sentido à convivência presencial. 

Fora do campo das percepções subjetivas, a segunda e mais recente pesquisa do grupo traz o veredito das evidências causais. 

Analisando o caso pioneiro do Rio de Janeiro –que restringiu o uso dos aparelhos gradualmente a partir de 2023–, os pesquisadores cruzaram o histórico de testes padronizados de alunos do Ensino Fundamental II. Eles contrastaram o desempenho dos colégios que já barravam os celulares por iniciativa própria com o daquelas instituições que mantinham diretrizes tolerantes. O objetivo era isolar o impacto real da lei, medindo se o salto de rendimento seria mais expressivo nas unidades submetidas ao choque mais drástico de mudança. 

O resultado foi inequívoco: o grupo que se adaptou sob a força da nova regra deu um verdadeiro salto de rendimento. As notas avançaram 13,4% em língua portuguesa e impressionantes 25,7% em matemática em relação ao grupo de controle. Ao isolar as variáveis externas, o estudo provou que o distanciamento das telas impulsiona diretamente o aprendizado. 

Em última análise, a grande lição desses indicadores é que o veto ao celular no ambiente escolar não encerra uma crise, mas inaugura uma profunda reestruturação pedagógica. Trata-se de um desafio comunitário que exige estreitar os laços no convívio analógico e apoiar o bem-estar psíquico dos estudantes. Respaldado por evidências empíricas sólidas, o debate sobre educação e tecnologia ganha a maturidade necessária para entender que blindar a sala de aula é, fundamentalmente, salvaguardar o futuro. 

 

Dimas Ramalho - vice-presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo.


Novo modelo físico explica rotação retrógrada de Vênus como resultado natural da evolução planetária

Visão hemisférica de Vênus, produzida a partir de observações de radar, incluindo  imagens da
 espaçonave Magellan, da Nasa, que imageou mais de 98%  da superfície do planeta
 (imagem:
Nasa/JPL-Caltech/USGS)

Estudo mostra que uma interação de fatores gravitacionais e atmosféricos é capaz de inverter o sentido de rotação do planeta, sem necessidade de colisões com corpos externos. Fenômeno pode ser comum em exoplanetas na zona habitável

 

Cientistas brasileiros podem ter desvendado, enfim, a razão pela qual Vênus gira no sentido contrário ao da Terra – fenômeno chamado de rotação retrógrada. O motivo pode ser uma combinação de fatores gravitacionais e atmosféricos inerentes ao próprio planeta, sem a necessidade de colisões entre corpos celestes ou outros eventos catastróficos externos, segundo um estudo realizado por pesquisadores do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP).

A maioria dos planetas do sistema solar – incluindo a Terra – gira em torno do próprio eixo de oeste para leste, à exceção de Vênus e Urano, que giram de leste para oeste; mas a origem dessa rotação retrógrada nunca foi satisfatoriamente explicada. No caso de Vênus, que é um planeta rochoso, o estudo do IAG-USP mostra que a inversão do sentido de rotação pode emergir naturalmente da interação entre marés gravitacionais e efeitos térmicos na atmosfera.

“Foi uma descoberta fortuita. Eu não estava trabalhando nesse assunto. Meu foco é o efeito de maré em exoplanetas. Mas, ao estudar o problema, motivado por questões em minha área de interesse, percebi que havia um ponto essencial que tinha passado despercebido em relação à dinâmica de Vênus”, afirma Sylvio Ferraz Mello, professor do IAG-USP e autor principal do trabalho, publicado no periódico The Astronomical Journal e apoiado pela FAPESP.

A rotação de Vênus foi determinada no início dos anos 1960, quando observações de radar conseguiram atravessar sua espessa cobertura de nuvens. Medições mais recentes indicam um período de aproximadamente 243 dias, em sentido retrógrado. Desde então, sabe-se que esse estado resulta do equilíbrio entre dois mecanismos físicos antagônicos. De um lado, atuam as marés gravitacionais, geradas principalmente pela atração do Sol, que tendem a desacelerar a rotação do planeta e levá-lo a um estado de sincronização com o movimento orbital. De outro, a atmosfera extremamente densa de Vênus – cerca de 90 vezes mais massiva que a da Terra – sofre aquecimento desigual pela radiação solar, produzindo deformações térmicas que geram um torque atmosférico capaz de acelerar a rotação em sentido oposto ao das marés. “A atração do Sol sobre a parte sólida do planeta e sobre a atmosfera atua em sentidos opostos. Uma tende a frear a rotação, a outra a acelerá-la no sentido contrário – e a atmosfera acaba vencendo”, conta o Ferraz Mello.

Essa competição entre os dois mecanismos explica por que Vênus gira para trás hoje. Mas não responde a uma questão fundamental: como o planeta chegou a esse estado?

O estudo mostra que a atmosfera não apenas mantém a rotação retrógrada, mas é essencial para sua própria existência. Simulações indicam que, se Vênus fosse privado de sua atmosfera, a ação isolada das marés gravitacionais faria o planeta retornar a uma rotação direta em menos de 1 milhão de anos. Nesse cenário, ela tenderia a se sincronizar com o período orbital (o tempo que um corpo celeste leva para completar uma volta inteira ao redor de outro objeto no espaço), como ocorre com a Lua em relação à Terra. “Se a inversão tivesse sido causada por um evento súbito, como uma colisão, o planeta voltaria depois a girar no sentido correto. Portanto, não pode ser um efeito instantâneo, tem de ser um processo contínuo”, argumenta Ferraz Mello. Isso significa que a rotação retrógrada não é um estado robusto por si só: ela depende continuamente da presença e das propriedades da atmosfera.

Para entender a origem desse comportamento, o estudo analisa as equações que descrevem a evolução da rotação sob a ação conjunta dos dois torques. O resultado revela uma estrutura típica de sistemas dinâmicos: uma bifurcação em forquilha (pitchfork bifurcation). Sem atmosfera significativa, o sistema possui um único estado estável – a rotação síncrona (quando o tempo que um corpo celeste leva para dar uma volta em torno de si mesmo é exatamente igual ao tempo que leva para completar uma órbita ao redor de outro corpo). Com o aumento da influência atmosférica, ele perde estabilidade e se desdobra em dois novos estados estáveis, ambos assíncronos: um com rotação mais lenta que a órbita (subsíncrona) e outro com rotação mais rápida (supersíncrona). Um desses estados pode evoluir para rotação retrógrada. “Existe um ponto em que o sistema bifurca: ou o planeta passa a girar mais rápido ou mais devagar. As duas possibilidades se apresentam. No caso de Vênus, ele seguiu o caminho mais lento até inverter o sentido”, resume o pesquisador.

O modelo permite reconstruir um possível cenário evolutivo para Vênus. Inicialmente, o planeta, ainda com atmosfera pouco desenvolvida, estaria sujeito principalmente às marés gravitacionais, evoluindo em direção à sincronização. “No início, Vênus deve ter girado como a Terra, com o Sol nascendo a leste e se pondo a oeste. As marés foram freando essa rotação até atingir o estado síncrono”, explica Ferraz Mello. Com o tempo, o degaseamento do interior do planeta – o processo pelo qual gases são liberados para a superfície – levou à formação de uma atmosfera densa. Isso aumentou progressivamente o torque atmosférico, até que o sistema atingiu o ponto de bifurcação. A partir desse ponto, a rotação poderia evoluir para um dos dois estados possíveis, com probabilidades comparáveis. Em função das condições no momento da transição, o planeta seguiu para um regime que se tornou retrógrado. “É um processo simples do ponto de vista físico. A teoria não exige condições excepcionais – é uma consequência natural da evolução planetária”, comenta o pesquisador.

O estudo também mostra que o estado atual de Vênus pode estar próximo de um limite de estabilidade. Pequenas variações em parâmetros como temperatura superficial ou propriedades atmosféricas tenderiam a alterar o equilíbrio entre os torques. E, em certas condições, o sistema perderia estados estacionários estáveis, com uma evolução contínua da rotação. As observações disponíveis ainda não são suficientemente precisas para descartar mudanças lentas no período de rotação, que, eventualmente, estariam ocorrendo.

Do cenário catastrófico ao previsível

Um dos resultados mais relevantes do trabalho é sua possível generalização para outros sistemas planetários. O modelo indica que a inversão do sentido de rotação não é um fenômeno raro ou excepcional. Planetas rochosos situados na zona habitável de estrelas semelhantes ao Sol – região onde a temperatura permite a existência de água líquida – podem desenvolver atmosferas suficientemente densas para produzir torques comparáveis aos de Vênus. Nesses casos, a mesma dinâmica pode levar à rotação retrógrada. “Não é um fenômeno raro. Esse tipo de evolução pode ter ocorrido muitas vezes nos exoplanetas que conhecemos”, pondera Ferraz Mello. Exoplanetas são planetas que orbitam outras estrelas, fora do sistema solar.

Ao substituir cenários catastróficos por um mecanismo contínuo e previsível, o estudo oferece uma nova perspectiva sobre a evolução da rotação planetária. Mais do que explicar um caso particular, ele aponta para um comportamento possivelmente comum no Universo e amplia o quadro teórico necessário para interpretar a diversidade de planetas já observados.

O estudo recebeu apoio da FAPESP por meio do projeto “O Brasil no espaço: Astrofísica e Engenharia”, coordenado por Eduardo Janot Pacheco, que tem Ferraz Mello como um dos pesquisadores principais.

O artigo Exoplanet synchronization in the habitable zone: learning from Venus’ retrograde rotation pode ser lido em: iopscience.iop.org/article/10.3847/1538-3881/ae43e4.

 

José Tadeu Arantes

Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/novo-modelo-fisico-explica-rotacao-retrograda-de-venus-como-resultado-natural-da-evolucao-planetaria/58105

 

Bancos não terão atendimento presencial ao público no Corpus Christi

As compensações bancárias não serão efetivadas, incluindo a TED.

O PIX, que funciona 24 horas todos os dias, inclusive feriados, pode ser feito normalmente

 


As agências bancárias não estarão abertas para atendimento presencial ao público no dia 04/06, quinta-feira, dedicado ao Corpus Christi. As compensações bancárias não serão efetivadas neste dia, incluindo a TED. 

O PIX, que funciona 24 horas todos os dias e feriados, poderá ser feito normalmente. 

Em algumas localidades, as salas de autoatendimento estarão disponíveis aos clientes, a critério da instituição.

Na sexta-feira, 05/06, o atendimento ao público segue normalmente nas localidades onde não há feriado estadual ou municipal ou há ponto facultativo. 

Boletos de cobrança e contas de consumo (água, energia, telefone, entre outros) com vencimento em 04/06 poderão ser pagos, sem acréscimo, no dia útil seguinte (05/06), nas localidades onde não há feriado ou ponto facultativo. O sábado não é considerado dia útil e, por essa razão, não há liquidação financeira. 

Já no caso dos tributos e impostos, caso vençam nos dias em que não há compensação bancária, é necessário que o pagamento seja antecipado, para evitar a incidência de juros e multa. 

“A suspensão do atendimento presencial não impede o acesso dos clientes aos serviços bancários, que seguem disponíveis com segurança por meio dos canais digitais e das áreas de autoatendimento oferecidas pelas instituições”, afirma o diretor adjunto de Serviços e Segurança da Febraban, Raphael Mielle. 

Boletos bancários de clientes cadastrados como sacados eletrônicos podem ser pagos via DDA (Débito Direto Autorizado).


Falta de dinheiro no RPPS pode cortar minha aposentadoria?

Notícias sobre dificuldades financeiras em Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) costumam gerar preocupação entre servidores públicos, aposentados e pensionistas. A dúvida é comum: se o fundo previdenciário entrar em crise, aposentadorias e pensões podem deixar de ser pagas? 

A resposta é não. 

A legislação brasileira protege os beneficiários e impede que o servidor seja prejudicado por problemas financeiros ou administrativos do regime previdenciário. 

O RPPS é o sistema destinado aos servidores públicos titulares de cargos efetivos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Seu custeio ocorre por meio das contribuições dos servidores ativos, aposentados, pensionistas e também do ente público responsável. 

Por determinação constitucional, esses regimes devem manter equilíbrio financeiro e atuarial, ou seja, precisam ser administrados de forma capaz de garantir o pagamento dos benefícios presentes e futuros. 

Na prática, porém, alguns regimes enfrentam dificuldades causadas por fatores como aumento das despesas previdenciárias, ausência de repasses adequados, déficits acumulados, falhas administrativas ou investimentos malsucedidos. 

Mesmo diante desse cenário, aposentados e pensionistas não podem ficar sem receber. 

Embora o RPPS tenha autonomia administrativa e financeira, a responsabilidade final pelo pagamento dos benefícios é do ente federativo que instituiu o regime. Assim, se o fundo previdenciário não tiver recursos suficientes, caberá ao Município, Estado, Distrito Federal ou União complementar os valores necessários com recursos do Tesouro. 

Isso significa que o servidor não pode ser penalizado por erros de gestão, falhas atuariais, ausência de repasses patronais ou problemas financeiros do sistema. 

A aposentadoria e a pensão possuem natureza alimentar e proteção constitucional. Por isso, eventuais crises financeiras do RPPS devem ser solucionadas pela Administração Pública sem comprometer o sustento de quem depende do benefício. 

Irregularidades eventualmente existentes podem ser investigadas pelos órgãos de controle, como Tribunais de Contas e Ministério Público. Contudo, essas apurações não afastam a obrigação do poder público de manter os pagamentos em dia. 

Portanto, a insuficiência financeira do RPPS é um problema de gestão pública, e não um motivo para suspensão de aposentadorias e pensões. O servidor aposentado, o pensionista e aquele que já cumpriu os requisitos para aposentadoria possuem proteção jurídica e garantia de recebimento dos benefícios.

 



Rafael Teixeira Bezerra - advogado pós-graduado em Direto Previdenciário pela PUC/PR e sócio de Wagner Advogados Associados.

Fonte: Wagner Advogados Associados

 

Por que imigração não deve ser tratada como um processo intuitivo

 Muitos ainda cometem erros graves em processos de imigração acreditando que esse é um campo restrito ao simples preenchimento de formulários. Nada mais equivocado. Imigração exige visão estratégica, leitura de risco, timing preciso, interpretação de cenários e antecipação de consequências jurídicas de cada passo antes que o problema se materialize.

Os números revelam um cenário que exige técnica e preparo: dados oficiais do governo dos Estados Unidos mostram que aproximadamente 10% dos pedidos de ajuste de status, incluindo green cards familiares e por emprego, são negados anualmente, mesmo antes de eventuais apelos ou correções no processo. Ou seja, milhares de imigrantes enfrentam decisões desfavoráveis que poderiam ser evitadas com uma análise técnica mais aprofundada. Isso vale também para vistos temporários: no ano fiscal de 2025, a taxa de recusa dos vistos B1/B2 (turismo e negócios) para brasileiros ficou em cerca de 14,8%, ficando abaixo de 15% em um ambiente ainda marcado por políticas migratórias rígidas.

Esses números não são detalhes técnicos, eles representam vidas, planos e investimentos que podem ser afetados por um único conselho equivocado. Um dos erros mais comuns que observamos nos últimos anos foi justamente o conselho inadequado, e muitas vezes ilegal, dado por consultorias ou pessoas sem licença para advogar, orientando o imigrante a permanecer nos Estados Unidos sem status, com a crença de que um ajuste de status pendente seria suficiente para “proteger” a situação. Para muitos, essa aposta levou à perda de status, exposição a processos de remoção e a consequências muito mais severas do que haviam imaginado.

Esse exemplo ilustra bem o ponto central. Um escritório de advocacia de imigração sério não pode, e não deve, se limitar a olhar um formulário. Um advogado experiente precisa ter uma visão holística do caso, avaliando histórico migratório, entradas e saídas do país, períodos sem status, riscos de presença ilegal, possíveis alegações de fraude ou má representação, antecedentes, impacto futuro para ajustes ou pedidos consulares, perdões, remoção, possibilidade de detenção e até efeitos colaterais de decisões que parecem pequenas no presente.

Faço uma analogia simples: na medicina, enfermeiros, técnicos e toda a equipe têm papéis fundamentais, mas ninguém quer descobrir, no meio de uma cirurgia complexa, que quem conduzia o procedimento não era o médico responsável. Em imigração, é parecido. Existem pessoas que ajudam, organizam documentos e acompanham etapas do processo, mas conduzir a estratégia jurídica, identificar risco, tomar decisões complexas e assumir responsabilidade técnica é papel exclusivo do advogado.

E eu deixo claro, a questão da licença não é uma discussão sobre reserva de mercado, e sim proteção ao imigrante e ao sistema jurídico. Essas regras existem justamente para evitar processos mal feitos, orientações erradas, falsas promessas, documentos inconsistentes, teses mal construídas e um verdadeiro tumulto no sistema migratório, que, quando sobrecarregado, tende a ser mais rígido e menos acolhedor para todos.

Além disso, outros erros comuns que frequentemente levam à negativa de processos incluem: omissão de informações relevantes do histórico migratório ou tentativas de “maquiar” fatos, acreditando que nada será verificado; apresentação de provas ou documentos desorganizados, fracos ou sem coerência estratégica; entrar com um processo sem que os requisitos legais essenciais sejam preenchidos, resultado de uma análise incompleta; confundir autorização de trabalho com status migratório válido; perda de prazos, respostas inadequadas a RFEs (Requests for Evidence) ou NOIDs (Notices of Intent to Deny); e conselhos imprecisos baseados em fóruns, redes sociais ou experiências genéricas, sem análise individualizada.

Imigração não é lugar para amadorismo, improviso ou conselhos genéricos. Cada caso é único, e o que parece simples no início pode se tornar um problema complexo no futuro. Por isso, o papel do advogado de imigração vai muito além de protocolar papéis. Ele é responsável por prevenir problemas, proteger o cliente, tomar decisões conscientes e construir um caso olhando não apenas para o presente, mas também para o impacto futuro de cada escolha jurídica. Em imigração, muitas vezes o erro não aparece no dia do protocolo, ele aparece meses ou anos depois. E quando isso acontece, o custo pode ser altíssimo.

 

Otavio Haverroth - CEO da YOUSA Law Firm

 

Buscas por álbum da Copa 2026 disparam mais de 10.000%; confira os estados que mais buscam

Foto: Zanone Fraissat 
 Reprodução
Levantamento do iFood analisa o engajamento digital dos brasileiros com o campeonato mundial e aponta os estados com maior volume de buscas proporcional à população 


 

Faltam poucas semanas para a abertura da Copa do Mundo de 2026, mas o maior evento de futebol já mobiliza fãs e impacta a economia. Colecionadores de figurinhas se anteciparam ao apito inicial da primeira partida e começaram a jornada em busca dos cromos. 


Embora o lançamento oficial tenha ocorrido somente no final de abril, os torcedores que mantêm a tradição de completar o álbum da Copa se mobilizaram meses antes no universo virtual. A antecipação desse engajamento esportivo foi observada em um estudo de nível nacional relacionado às consultas feitas sobre o torneio no Google. Que revela que na internet, pesquisas pelo álbum da Copa 2026 cresceram 10.900%.

 

O levantamento foi realizado pelo iFood, empresa brasileira líder em delivery, com o objetivo de analisar as buscas dos brasileiros pelo tema "álbum da Copa 2026". A pesquisa considerou o volume médio mensal de buscas e a variação de interesse, com base em dados coletados pelo Google Brasil no período de abril de 2025 a março de 2026. Também foram levantados resultados por estado, que foram calculados em uma proporção de buscas online pelo termo a cada 100 mil habitantes.

 

Febre antecipada pelas figurinhas

 

Mesmo antes da oficialização dos clubes participantes e do lançamento do álbum, torcedores movimentavam o colecionismo digital. A soma de 868 mil pesquisas em todo o Brasil, no intervalo de onze meses, pode ser considerada inesperada, sobretudo diante da sazonalidade do mundial e da distância de tempo até o campeonato.


 

A nova dinâmica que supõe a digitalização de uma tradição entre os entusiastas pelo futebol se reforça com a taxa de crescimento explosiva de 10.900%. A liderança de perfil cosmopolita no ranking, com o Distrito Federal e os estados de São Paulo e Santa Catarina, ajuda a explicar o processo de transição desse hobby físico para a mediação online.

 

De delivery a marketplaces: conheça os meios para adquirir o novo álbum da copa e colecionar figurinhas

 

O álbum da Copa de 2026 é comercializado pela Panini, editora que detém a parceria oficial com a FIFA (Federação Internacional de Futebol Associado) até 2031. Torcedores podem comprar o álbum e os pacotes com as figurinhas pela internet através do site oficial, marketplaces ou serviços de delivery autorizados. O livro também está disponível em lojas físicas como bancas de revistas e supermercados. 

 

A coleção deste ano tem sido considerada emblemática ao trazer, em 112 páginas, 980 cromos e 68 especiais. A explicação dada pela editora na apresentação de lançamento é que o álbum deve contemplar o ineditismo do torneio. Pois, pela primeira vez, a Copa terá 48 seleções participantes e três países-sede: Canadá, Estados Unidos e México.

 

Disponível em três versões, sendo brochura, capa dura e capa dura em prata ou ouro, a aquisição pode custar de R$ 24,90 a R$ 79,90. As figurinhas são vendidas à parte em envelopes por R$ 7,00. Cada pacote vem com sete cromos. Considerando o tamanho da edição, é preciso ter ao menos 150 envelopes para completar o álbum. É nesse sentido que o colecionismo digital tem ganhado força. 

 

A nova experiência de compra de figurinhas da Copa

 

Na prática, a digitalização da aquisição dos cromos tem ocorrido em duas frentes. A primeira se aproxima do comportamento tradicional porque envolve o engajamento entre colecionadores pelas redes sociais e na organização de grupos online para trocas de figurinhas. A segunda, por sua vez, representa uma adaptação de estilo, com a compra via marketplaces ou de compra rápida.

 

A oportunidade de ter o produto entregue no mesmo dia, acessar ofertas exclusivas e utilizar cupons de desconto torna as compras de figurinhas online mais atraentes. Essa modalidade de consumo, na lógica do mercado de entretenimento futebolístico, ainda permite aos torcedores receberem o álbum e os cromos em casa. Inclusive, durante os jogos do mundial. 

 

O uso das plataformas online para adquirir as figurinhas da Copa é uma das tendências de consumo. E acompanha a consolidação do setor de e-commerce, que além de faturar R$ 200 bilhões no ano passado, mostrou que oito a cada dez brasileiros usam o celular como principal ferramenta de compra.

 

Tradição e economia

 

Mais que reduzir gastos, a troca de figurinhas se tornou uma tradição entre os torcedores brasileiros em época de Copa do Mundo. Com a possibilidade de organização na internet, seja em grupos segmentados ou de abrangência nacional, o impacto financeiro pode ser menor diante da oportunidade de obter, por compra direta, a figurinha que falta, por exemplo.

 

Ao mesmo tempo, na ocorrência de escassez, alguns cromos podem ganhar peso de exclusividade. Historicamente, os álbuns da Copa possuem figurinhas raras que engajam os colecionadores em uma busca mais profunda. Nesse sentido, as buscas online tendem a continuar altas nos próximos meses.

 

Cromos especiais

 

O que se tem como oficialmente exclusivo para a edição do álbum da Copa 2026 são os cromos especiais que ilustram símbolos importantes do mundial. As 68 figurinhas especiais se dividem em três categorias: 48 escudos das seleções classificadas para o torneio, 16 estádios-sede que representam as arenas onde serão disputadas as partidas e quatro cromos institucionais simbolizando o logotipo oficial do evento, a bola, o mascote e o troféu.

 

Copa do Mundo 2026

 

O mundial realizará, pela primeira vez, três aberturas, uma em cada país-sede. A primeira será no México, no dia 11 de junho, às 16h, e, na sexta-feira, 12 de junho, ocorrerão as aberturas no Canadá e nos Estados Unidos. O time do Brasil faz a sua estreia em campo contra o Marrocos no dia 13, às 19h, horário de Brasília.

 

IFRS 18: como ela redefine as demonstrações financeiras?

 A forma como as empresas comunicam seu desempenho financeiro passa pela maior reformulação em décadas, com a emissão da IFRS 18 — Apresentação e Divulgação nas Demonstrações Financeiras (internalizada como o CPC 51, revogando o CPC 26). Obrigatória para os exercícios iniciados a partir de 1º de janeiro de 2027, trará mudanças estruturais que precisam ser adaptadas com máxima atenção, para que o empresariado não corra o risco de desconformidades legais capazes de gerar multas e danos à perpetuidade das operações. 

O modelo consolidado sob a IAS 1 (CPC 26) concedia ampla liberdade na estruturação da demonstração do resultado, flexibilidade que, com o tempo, cobrou um preço alto em comparabilidade e transparência. O CPC 51 trata exclusivamente da apresentação e da divulgação: nenhum ativo, passivo ou resultado passa a ser contabilizado de forma diferente, o que muda é como a informação é organizada e comunicada nas demonstrações primárias e nas notas explicativas. 

A mudança mais estrutural está na demonstração do resultado. O item 47 do CPC 51 passa a exigir que todas as receitas e despesas sejam classificadas em cinco categorias: operacional, de investimento, financiamento, tributos sobre o lucro e operações descontinuadas, sendo a primeira, por definição, residual. Entidades cuja atividade principal é investir em ativos ou conceder financiamento a clientes, como bancos e seguradoras, seguem regras específicas. Sobre essa categorização, o item 69 torna obrigatórios os subtotais de lucro operacional, de lucro antes de financiamento e tributos, e de lucro líquido, permitindo comparar empresas distintas a partir de uma mesma régua. 

A norma também disciplina as despesas operacionais, que passam a ser organizadas por natureza, por função ou por uma combinação das duas, conforme o critério que ofereça o resumo mais útil ao usuário. 

A frente de maior impacto prático, contudo, são as medidas de desempenho definidas pela administração. O item 117 as define como subtotais de receitas e despesas que a empresa divulga publicamente, fora das demonstrações, para comunicar a visão da administração sobre seu desempenho. Indicadores como EBITDA ajustado e lucro recorrente deixam de circular livremente e passam a exigir tratamento formal. 

O item 122 determina sua divulgação em nota explicativa única, enquanto o item 123 exige descrição, forma de cálculo, conciliação com o subtotal mais comparável e demonstração do efeito tributário. Mais relevante, essas medidas passam a integrar o conjunto auditado das demonstrações — encerrando a era em que cada companhia divulgava seus próprios indicadores ajustados sem um padrão verificável. 

Completam o redesenho o reforço dos princípios de agregação e desagregação, agrupar itens semelhantes, separar os distintos e descrevê-los de forma fidedigna e, no balanço patrimonial, a apresentação do ágio por expectativa de rentabilidade futura (goodwill) separadamente dos demais intangíveis. 

Para gestores e profissionais da área, os desdobramentos ultrapassam a contabilidade. A redefinição de subtotais e categorias pode alterar indicadores usados em covenants bancários e em planos de remuneração variável, e a formalização das MPMs muda a relação com o mercado e os investidores. O CPC 51 ainda preserva adaptações brasileiras importantes, como a demonstração do resultado em peça separada e a manutenção da demonstração do valor adicionado. 

Há, ainda, uma interface fiscal que merece cautela: a maior fragmentação das informações pode tangenciar critérios como os de preços de transferência da Lei nº 14.596/2023, recomendando atenção para que decisões de divulgação não produzam efeitos tributários indesejados. 

É nesse ponto que a urgência se impõe. A norma exige aplicação retrospectiva: no primeiro ano, a empresa deverá conciliar cada rubrica da demonstração do resultado entre o novo formato e o anterior. Como a vigência alcança 2027, o exercício de 2026 já é o período comparativo a ser reapresentado na nova estrutura, inclusive nas demonstrações intermediárias. 

Diante desse cenário, o papel do profissional contábil torna-se mais consultivo, e três frentes merecem prioridade. A primeira é o prazo: a preparação precisa começar agora, pois o diagnóstico de aderência e o cronograma de implementação não podem esperar a vigência. A segunda é a reestruturação da demonstração do resultado, revisando o plano de contas e os sistemas para enquadrar receitas e despesas nas novas categorias e subtotais. A terceira são as MPMs: mapear os indicadores já divulgados ao mercado e prepará-los para a nota única exigida, com conciliação e efeito tributário, agora sob auditoria. 

Mais do que uma mudança de layout das demonstrações, o CPC 51 redefine a forma como a empresa comunica seu desempenho ao mercado. Para as organizações que tratarem a norma como projeto estratégico e não como tarefa contábil de última hora, a transição se converte em oportunidade: demonstrações mais comparáveis, comunicação mais transparente e maior confiança de investidores e credores. O calendário, contudo, é implacável. Em um ambiente em que 2026 já é o ano comparativo, preparar-se agora deixou de ser recomendação prudente para tornar-se condição de conformidade e de competitividade. 



Lucas Madruga Leme - Sócio na PKF BSP, Supervisor de Contabilidade e BPO Financeiro.



PKF BSP
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