Entre
entrevistas estratégicas e mudanças de narrativa, o filme aproxima o universo
da moda das discussões atuais sobre liderança
Miranda Priestly
passou vinte anos sendo lembrada como a chefe que jogava o casaco sobre a mesa
sem olhar para quem pegaria, transformava silêncio em pressão e fazia
assistentes correrem atrás de exigências impossíveis. Em 2006, esse
comportamento era quase admirado, o preço de trabalhar com os melhores. Em “O
Diabo Veste Prada 2”, porém, esse modelo começa a perder força. A Runway,
revista de moda comandada por Miranda, perde espaço para Instagram e TikTok, o
mercado editorial impresso encolhe e a executiva mais temida do cinema percebe
que autoridade, sozinha, já não garante relevância.
É Andy Sachs,
agora jornalista, quem reaparece para ajudar a reorganizar a imagem da antiga
chefe. Ao longo do filme, ela assume quase um papel de PR, ao reconstruir a
narrativa pública em torno de Miranda e da própria Runway.
“Hoje, reputação
não está ligada apenas ao resultado que uma liderança entrega, mas à forma como
ela se comunica e é percebida pelas pessoas”, afirma Marina Mosol, especialista
em reputação da Agência NoAr. “Existe uma expectativa maior por coerência,
transparência e conexão humana”.
A
crise de imagem começa quando a narrativa escapa do controle
A primeira
movimentação de Andy não é uma entrevista cuidadosamente controlada nem uma
tentativa imediata de defender Miranda. Ela publica uma reportagem sobre a
crise da Runway mostrando justamente aquilo que a executiva sempre evitou
expor: dúvidas, desgaste e dificuldade para manter a revista relevante em um
mercado que mudou completamente.
Em vez de apostar
apenas em controle de danos, estratégia usada para conter crises de imagem,
Andy escolhe reposicionar a percepção pública sobre Miranda.
“Executivos que
tentam sustentar uma imagem excessivamente distante acabam criando barreiras
com o público”, diz Marina. “Hoje existe uma valorização maior de lideranças
que conseguem demonstrar humanidade sem perder credibilidade.”
Como
uma entrevista estratégica devolve relevância à marca
Depois de
estabilizar a percepção em torno de Miranda, Andy consegue uma entrevista
exclusiva com Sasha Barnes, uma das mulheres mais influentes da indústria da
moda, afastada dos holofotes há anos.
A movimentação
devolve relevância para a Runway e mostra como relacionamento e credibilidade
continuam tendo peso na construção de imagem. No universo de PR, esse movimento
é conhecido como gestão de narrativa, em que cria contextos capazes de mudar a
forma como marcas e lideranças são percebidas.
“O networking
continua tendo um peso enorme na reputação de executivos e marcas, mas hoje ele
está muito mais ligado à confiança construída ao longo do tempo do que a
relações puramente circunstanciais”, afirma a especialista.
A imagem
de um executivo também passa pela equipe ao redor
À medida que a
crise vai sendo contornada, o filme também expõe um padrão antigo dentro da
revista: Miranda sempre concentrou os holofotes nela mesma, enquanto
profissionais importantes da equipe permaneciam nos bastidores, como Nigel,
responsável por boa parte da identidade criativa da Runway.
Em um momento
decisivo, Andy sugere que Miranda dê mais espaço para que ele apareça
publicamente. O gesto muda a forma como aquela liderança passa a ser percebida
dentro e fora da empresa.
Uma
cultura que já não funciona da mesma forma
O filme também
mostra que não basta ajustar discurso e estratégia de comunicação se a cultura
interna continua presa à mesma lógica. A dinâmica de pressão e obediência que
definia a Runway em 2006 já não encontra o mesmo espaço vinte anos depois.
Cultura
organizacional, saúde mental e retenção de talentos hoje fazem parte da forma
como empresas e executivos são percebidos publicamente. Em um ambiente
corporativo mais exposto, a reputação também passa pelos bastidores.
Para Marina, “O
Diabo Veste Prada 2” usa o universo da moda para discutir algo maior do que
tendências ou comportamento. A continuação mostra uma liderança tentando
preservar relevância em um momento em que imagem pública, reputação e relações
internas ganharam outro peso. Em 2026, Miranda precisa pendurar seu próprio
casaco, conclui.
Agência NoAr