Técnicas que ganharam notoriedade durante a pandemia hoje ajudam a identificar agentes infecciosos, alterações genéticas e marcadores associados a diferentes condições de saúde
Durante a pandemia de Covid-19, três letras passaram a fazer parte do vocabulário de milhões de brasileiros: PCR. A técnica de biologia molecular se tornou conhecida principalmente pela capacidade de identificar o material genético do coronavírus, mas sua aplicação na medicina é muito mais ampla e já está presente no diagnóstico e acompanhamento de doenças infecciosas, na saúde da mulher, na reprodução humana e na genética.
Um exemplo recente dessa expansão está no
rastreamento do câncer do colo do útero. Desde 2025, as diretrizes brasileiras
passaram a adotar o teste molecular para detecção do DNA do HPV oncogênico como
exame primário de rastreamento. A tecnologia apresenta maior sensibilidade para
identificar presença de material genético viral dos subtipos oncogênicos e
comparada à citologia convencional, ao identificar resultado negativo, permite
aumentar o intervalo entre os exames.
Na infectologia, a aplicação também vai muito além dos vírus
respiratórios. O próprio Ministério da Saúde inclui o teste rápido molecular
entre os exames utilizados para o diagnóstico laboratorial da tuberculose, ao
lado da baciloscopia, cultura e teste de sensibilidade a medicamentos.
“A pandemia tornou a PCR conhecida fora dos laboratórios, o que
foi importante para aproximar a população da biologia molecular. O desafio
agora é mostrar que essa tecnologia não surgiu com a Covid e não se limita a
ela. Estamos falando de ferramentas capazes de identificar o material genético
específico e responder perguntas relevantes dependendo
da condição investigada”, explica Carlos Aschoff, médico geneticista e assessor
médico do Grupo DB.
PCR é a sigla em inglês para reação em cadeia da polimerase. De
maneira simplificada, a técnica permite amplificar pequenas quantidades de
material genético até que elas possam ser identificadas e analisadas.
Dependendo do exame, esta técnica busca pode estar direcionada ao DNA ou RNA de
vírus, bactérias e outros microrganismos, ou a sequências genéticas
relacionadas a determinada investigação clínica.
Essa característica explica por que a mesma base tecnológica pode
aparecer em áreas tão distintas da medicina. Na infectologia, por exemplo, a
identificação direta do material genético de um agente pode auxiliar na
investigação de infecções. Já na saúde da mulher, os testes moleculares
permitem detectar subtipos de HPV associados ao desenvolvimento de câncer do
colo do útero antes mesmo que determinadas alterações celulares evoluam.
A incorporação do teste de DNA-HPV à política pública brasileira ajuda a dimensionar essa mudança. O Ministério da Saúde prevê que o rastreamento molecular esteja disponível na rede pública de todo o país até dezembro de 2026. O novo modelo é voltado às pessoas com colo do útero dentro da faixa etária indicada pelas diretrizes e, diante de um resultado negativo, pode permitir intervalos de até cinco anos entre os testes.
“A grande diferença da biologia molecular é que conseguimos investigar informações que não são visíveis em um exame convencional. Em determinadas situações, conseguimos procurar diretamente o material genético ou alteração genética um agente infeccioso. Isso não significa que os testes moleculares substituam todos os outros exames, mas que acrescentam novas camadas de informação ao diagnóstico”, afirma o médico.
Na reprodução humana, a biologia molecular também
pode contribuir para diferentes etapas da investigação clínica. Dependendo da
indicação médica, exames podem ser utilizados na avaliação de fatores genéticos
relacionados à fertilidade, em investigações de alterações cromossômicas e em
outras situações nas quais a análise do material genético possa oferecer
informações relevantes para o cuidado do casal ou da gestação.
A genética amplia ainda mais esse campo. A análise
molecular permite investigar variantes genéticas associadas a diferentes
doenças e condições hereditárias, além de auxiliar em questões de vínculo
genético e outras aplicações da medicina de precisão. O avanço das técnicas
laboratoriais aumentou não apenas a capacidade de detectar essas alterações,
mas também o volume de informações que pode ser extraído de uma única amostra.
“O exame molecular precisa começar por uma pergunta clínica. Ter tecnologias capazes de analisar centenas ou milhares de informações não significa que todas devam ser pesquisadas indiscriminadamente. A escolha do teste depende da hipótese que está sendo investigada e da interpretação adequada do resultado”, diz Carlos Aschoff.
A evolução também ajuda a modificar a própria percepção sobre o laboratório. Em muitos casos, o diagnóstico molecular não está apenas confirmando uma alteração que já apareceu por outros métodos, mas procurando diretamente um alvo biológico específico. Por isso, a tecnologia vem ganhando espaço em estratégias de rastreamento, diagnóstico e medicina personalizada.
Para o médico, a popularização da PCR durante a
pandemia deixou um legado importante ao tornar a biologia molecular mais
conhecida, mas agora é necessário ampliar essa compreensão. “A Covid mostrou
para a população o poder de uma técnica molecular. Só que aquilo representava
uma de inúmeras aplicações possíveis. Hoje essas ferramentas estão presentes em
diferentes momentos da jornada do paciente, da investigação de uma infecção à
análise genética

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