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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

PCR vai além da Covid: testes moleculares avançam da infectologia à saúde reprodutiva

Técnicas que ganharam notoriedade durante a pandemia hoje ajudam a identificar agentes infecciosos, alterações genéticas e marcadores associados a diferentes condições de saúde

 

Durante a pandemia de Covid-19, três letras passaram a fazer parte do vocabulário de milhões de brasileiros: PCR. A técnica de biologia molecular se tornou conhecida principalmente pela capacidade de identificar o material genético do coronavírus, mas sua aplicação na medicina é muito mais ampla e já está presente no diagnóstico e acompanhamento de doenças infecciosas, na saúde da mulher, na reprodução humana e na genética.

Um exemplo recente dessa expansão está no rastreamento do câncer do colo do útero. Desde 2025, as diretrizes brasileiras passaram a adotar o teste molecular para detecção do DNA do HPV oncogênico como exame primário de rastreamento. A tecnologia apresenta maior sensibilidade para identificar presença de material genético viral dos subtipos oncogênicos e comparada à citologia convencional, ao identificar resultado negativo, permite aumentar o intervalo entre os exames. 

Na infectologia, a aplicação também vai muito além dos vírus respiratórios. O próprio Ministério da Saúde inclui o teste rápido molecular entre os exames utilizados para o diagnóstico laboratorial da tuberculose, ao lado da baciloscopia, cultura e teste de sensibilidade a medicamentos. 

“A pandemia tornou a PCR conhecida fora dos laboratórios, o que foi importante para aproximar a população da biologia molecular. O desafio agora é mostrar que essa tecnologia não surgiu com a Covid e não se limita a ela. Estamos falando de ferramentas capazes de identificar o material genético específico e responder perguntas relevantes dependendo da condição investigada”, explica Carlos Aschoff, médico geneticista e assessor médico do Grupo DB. 

PCR é a sigla em inglês para reação em cadeia da polimerase. De maneira simplificada, a técnica permite amplificar pequenas quantidades de material genético até que elas possam ser identificadas e analisadas. Dependendo do exame, esta técnica busca pode estar direcionada ao DNA ou RNA de vírus, bactérias e outros microrganismos, ou a sequências genéticas relacionadas a determinada investigação clínica. 

Essa característica explica por que a mesma base tecnológica pode aparecer em áreas tão distintas da medicina. Na infectologia, por exemplo, a identificação direta do material genético de um agente pode auxiliar na investigação de infecções. Já na saúde da mulher, os testes moleculares permitem detectar subtipos de HPV associados ao desenvolvimento de câncer do colo do útero antes mesmo que determinadas alterações celulares evoluam. 

A incorporação do teste de DNA-HPV à política pública brasileira ajuda a dimensionar essa mudança. O Ministério da Saúde prevê que o rastreamento molecular esteja disponível na rede pública de todo o país até dezembro de 2026. O novo modelo é voltado às pessoas com colo do útero dentro da faixa etária indicada pelas diretrizes e, diante de um resultado negativo, pode permitir intervalos de até cinco anos entre os testes.

“A grande diferença da biologia molecular é que conseguimos investigar informações que não são visíveis em um exame convencional. Em determinadas situações, conseguimos procurar diretamente o material genético ou alteração genética um agente infeccioso. Isso não significa que os testes moleculares substituam todos os outros exames, mas que acrescentam novas camadas de informação ao diagnóstico”, afirma o médico.

Na reprodução humana, a biologia molecular também pode contribuir para diferentes etapas da investigação clínica. Dependendo da indicação médica, exames podem ser utilizados na avaliação de fatores genéticos relacionados à fertilidade, em investigações de alterações cromossômicas e em outras situações nas quais a análise do material genético possa oferecer informações relevantes para o cuidado do casal ou da gestação.


A genética amplia ainda mais esse campo. A análise molecular permite investigar variantes genéticas associadas a diferentes doenças e condições hereditárias, além de auxiliar em questões de vínculo genético e outras aplicações da medicina de precisão. O avanço das técnicas laboratoriais aumentou não apenas a capacidade de detectar essas alterações, mas também o volume de informações que pode ser extraído de uma única amostra.

“O exame molecular precisa começar por uma pergunta clínica. Ter tecnologias capazes de analisar centenas ou milhares de informações não significa que todas devam ser pesquisadas indiscriminadamente. A escolha do teste depende da hipótese que está sendo investigada e da interpretação adequada do resultado”, diz Carlos Aschoff.

A evolução também ajuda a modificar a própria percepção sobre o laboratório. Em muitos casos, o diagnóstico molecular não está apenas confirmando uma alteração que já apareceu por outros métodos, mas procurando diretamente um alvo biológico específico. Por isso, a tecnologia vem ganhando espaço em estratégias de rastreamento, diagnóstico e medicina personalizada.

Para o médico, a popularização da PCR durante a pandemia deixou um legado importante ao tornar a biologia molecular mais conhecida, mas agora é necessário ampliar essa compreensão. “A Covid mostrou para a população o poder de uma técnica molecular. Só que aquilo representava uma de inúmeras aplicações possíveis. Hoje essas ferramentas estão presentes em diferentes momentos da jornada do paciente, da investigação de uma infecção à análise genética

 

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