Com
o Brasil mantendo o status de área livre da doença desde 1994, médico alerta
que a queda nos índices vacinais e a circulação global do vírus exigem atenção
redobrada dos pais e atualização rigorosa das cadernetas infantis
Embora o Brasil não registre casos de
poliomielite por poliovírus selvagem desde 1989 e tenha recebido a certificação
de erradicação da doença nas Américas em 1994, autoridades e profissionais de
saúde mantêm sinal de alerta ligado. O fantasma da paralisia infantil,
enfermidade viral aguda que pode causar sequelas motoras permanentes e
irreversíveis, volta ao centro dos debates públicos em virtude dos desafios
históricos para alcançar a meta ideal de 95% de cobertura vacinal populacional.
De acordo com dados do Ministério da Saúde, a cobertura vacinal infantil foi de
88,28% em 2026.
A doença é transmitida principalmente
por via orofecal, através do contato direto com pessoas infectadas ou com água
e alimentos contaminados. Cerca de 90% a 95% dos contatos com o vírus ocorrem
de forma assintomática e uma pequena parcela pode apresentar sintomas leves
semelhantes aos de uma gastroenterocolite, mas em cerca de 1% dos casos o vírus
atinge o sistema nervoso central, provocando a temida paralisia flácida aguda.
Para o médico infectologista do Grupo
São Lucas, Cláudio Penido Campos Júnior (CRM:100827/RQE: 50036), a falsa
sensação de segurança gerada pelo longo período sem casos ativos no território
nacional é um dos principais motores da hesitação vacinal.
"Apesar de atingir uma pequena
parcela da população infectada, a paralisia flácida pode ter complicações
severas e permanente de perda de movimento, dificuldade respiratória. É um
quadro neurológico muito grave que conseguimos prevenir através da vacinação.
No entanto, já há alguns anos, o Brasil não vem atingindo a cobertura vacinal
necessária para manter essa condição de bloqueio, de proteção populacional",
sinaliza o médico.
O especialista também enfatiza que a
manobra de imunização coletiva é a única barreira eficaz contra a reintrodução
do patógeno, lembrando que ainda existem países com transmissão endêmica ativa
do vírus selvagem, como o Afeganistão e o Paquistão. Com o intenso fluxo global
de viajantes, a baixa cobertura populacional abre uma brecha perigosa.
"A poliomielite hoje é uma
condição de alerta pela Organização Mundial da Saúde. O Brasil ainda está
dentro do enquadramento de doença erradicada, mas a hesitação vacinal traz
preocupações. Se há essa quebra da vacinação coletiva, o país volta a ficar
suscetível à reintrodução do vírus. Se não corrigirmos essa cobertura vacinal,
ficamos vulnerável à reintrodução da doença", alerta.
Atualização no Esquema
Vacinal e Segurança
O Programa Nacional de Imunizações
(PNI) consolidou importantes atualizações estruturais alinhadas às diretrizes
globais da Organização Mundial da Saúde (OMS). A tradicional
"gotinha" (vacina oral boral de vírus atenuado) deu lugar exclusivo à
Vacina Inativada Poliomielite (VIP), de administração injetável, proporcionando
um perfil ainda maior de segurança.
Além disso, o calendário infantil
brasileiro conta com o esquema composto por três doses iniciais no primeiro ano
de vida (aos 2, 4 e 6 meses) e reforços estratégicos essenciais, incluindo a
dose de reforço aos 4 anos de idade, consolidando a imunidade de longa duração
na infância.
Para monitorar e blindar o país contra
eventuais ameaças, a vigilância epidemiológica brasileira atua em duas frentes
principais, sendo elas a notificação imediata e compulsória de qualquer caso
suspeito de síndrome de paralisia flácida aguda em unidades de saúde, e a
pesquisa ambiental sistemática por meio da monitorização do vírus em amostras
de água e esgoto urbano, técnica capaz de identificar a circulação silenciosa
do patógeno antes mesmo do surgimento de casos clínicos.
“É fundamental que o país mantenha
essas atividades muito regulares e que se desenvolvam formas mais atuais, modernas
e contemporâneas de informação, de sensibilização das pessoas com relação à
importância da vacinação. A recomendação unânime da comunidade médica e científica
é manter a caderneta de vacinação das crianças menores de 5 anos rigorosamente
em dia. A prevenção continua sendo o único escudo capaz de garantir que o
Brasil permaneça livre da poliomielite”, conclui o especialista.
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