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Em 29 de outubro, Dia Mundial do AVC (acidente
vascular cerebral) e Dia Nacional de Prevenção do AVC, o cenário brasileiro
reforça a importância do reconhecimento precoce da doença. Segundo estimativas
divulgadas pela Sociedade Brasileira de AVC (SBAVC), o país registra entre 232
mil e 344 mil novos casos por ano, o equivalente a aproximadamente 978 casos
por dia, ou um AVC a cada 1,5 a 2 minutos. Entre as manifestações que merecem
atenção estão as alterações visuais, como perda súbita da visão, visão dupla e
perda de parte do campo visual, que podem surgir mesmo sem outros sinais
clássicos do acidente vascular cerebral.
“O AVC acontece quando há uma alteração súbita da circulação
sanguínea no cérebro, que pode ocorrer pelo bloqueio de um vaso, caracterizando
o tipo isquêmico, ou pelo rompimento de um vaso, provocando uma hemorragia, no
tipo hemorrágico”, explica Dra. Ana Laura de Araújo Moura, neuroftalmologista
do H.Olhos. Segundo a especialista, os dois tipos podem comprometer a visão, e
os sintomas dependem principalmente da região cerebral afetada e das estruturas
envolvidas no processamento das imagens.
A visão não depende apenas dos olhos. Embora sejam responsáveis
por captar a luz e formar as imagens, é no cérebro que as informações visuais
são processadas e interpretadas. Os sinais seguem pelos nervos ópticos e
percorrem vias visuais que passam por diferentes regiões cerebrais, incluindo
os lobos parietal, temporal e occipital. Quando um AVC atinge essas estruturas,
pode prejudicar a capacidade de enxergar determinadas áreas do ambiente,
distinguir cores ou interpretar imagens. Já as lesões no tronco cerebral podem
afetar o controle dos movimentos oculares, provocando desalinhamento dos olhos,
estrabismo e nistagmo, caracterizado por movimentos involuntários dos olhos.
Entre os sinais que merecem atenção estão a perda súbita da visão
em um ou nos dois olhos, a visão dupla e a perda de parte do campo visual, isto
é, quando a pessoa deixa de enxergar determinadas áreas à sua frente, mesmo sem
apresentar uma perda completa da visão. “Essas alterações podem indicar um
quadro de AVC em instalação e precisam ser valorizadas, especialmente quando
surgem de forma repentina”, alerta a médica.
Um dos pontos de atenção é que os sintomas visuais podem aparecer
isoladamente, sem os sinais mais conhecidos do AVC. Por isso, a ausência de
fraqueza em um dos lados do corpo, assimetria facial ou dificuldade para falar
não deve ser interpretada como garantia de que não há uma emergência
neurológica. “Diferentemente de muitos problemas oftalmológicos comuns, que
podem apresentar evolução gradual, as alterações visuais relacionadas ao AVC
costumam surgir de forma súbita. Essa característica é um sinal de alerta
importante”, ressalta Dra. Ana Laura.
A prevenção também é fundamental e passa pelo controle dos
principais fatores de risco. Hipertensão arterial, diabetes, colesterol
elevado, tabagismo, sedentarismo e obesidade estão entre as condições que
aumentam a probabilidade de um AVC. A pressão alta pode danificar os vasos
sanguíneos e favorecer tanto obstruções quanto rupturas. O diabetes prejudica o
funcionamento dos vasos e acelera a formação de placas de gordura, enquanto o
colesterol elevado contribui para o estreitamento das artérias que levam sangue
ao cérebro. Já o tabagismo favorece a inflamação vascular e a formação de
coágulos. “A atividade física regular, a alimentação equilibrada e o
acompanhamento médico são medidas importantes para controlar esses fatores e
reduzir o risco. Também é necessário considerar condições como a fibrilação
atrial, um tipo de arritmia que pode favorecer a formação de coágulos, além da
idade, do histórico familiar e de doenças vasculares prévias”, orienta a
médica.
Diante de uma alteração visual súbita, a recomendação é procurar
atendimento de emergência imediatamente, sem esperar que o sintoma desapareça
ou aguardar uma consulta oftalmológica de rotina. A perda de visão ou a visão
dupla podem ter diferentes causas, e a avaliação médica ajuda a identificar a
origem do problema e direcionar a investigação. “É fundamental agir
rapidamente. O exame oftalmológico pode contribuir para diferenciar alterações
na retina, nos nervos ópticos ou nas estruturas cerebrais, orientando os
próximos passos. No entanto, diante da suspeita de AVC, a pessoa deve ser
encaminhada imediatamente a um serviço de emergência, pois o tempo é decisivo
para o tratamento”, enfatiza a especialista.
Mesmo após o tratamento do AVC, algumas alterações visuais podem
persistir, como perda de parte do campo visual, visão dupla e dificuldades que
interferem na leitura, na locomoção e nas atividades cotidianas. A recuperação
depende da localização e da extensão da lesão, podendo ser total, parcial ou
haver sequelas permanentes. Os primeiros seis meses costumam ser importantes
para a evolução, mas os ganhos funcionais podem continuar depois desse período,
graças à neuroplasticidade, capacidade de o cérebro reorganizar suas conexões.
Após a estabilização clínica, a avaliação oftalmológica permite
identificar as alterações e orientar estratégias de reabilitação
individualizadas. Para pacientes com visão dupla, por exemplo, podem ser
indicados óculos com prismas ou, em situações específicas, cirurgia. Já pessoas
com perda de campo visual ou visão subnormal podem se beneficiar de programas
de reabilitação que favoreçam a adaptação às limitações, a autonomia e a
qualidade de vida. “O acompanhamento é importante para compreender as
necessidades de cada paciente e buscar a melhor funcionalidade possível. Mesmo
quando a recuperação não é completa, existem estratégias que ajudam a pessoa a
retomar atividades e conquistar mais independência”, conclui a
neuroftalmologista.

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