Escrevo este texto depois de muitos anos de consultório, ouvindo, de formas diferentes, a mesma frase: “Doutor, meu marido acha que eu estou exagerando”.
Ainda me incomoda ouvir isso. E talvez você, que lê estas
linhas, esteja aqui porque alguém que ama enviou este artigo, provavelmente uma
esposa ou companheira, ou porque decidiu, por conta própria, entender melhor o
que ela enfrenta. De qualquer forma, esse gesto já diz muito sobre você.
A endometriose não é uma cólica forte. Não é frescura, nem
falta de força de vontade. É uma doença crônica e ainda sem cura definitiva,
que ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio, a camada que reveste o
útero, passa a crescer fora dele, em ovários, trompas, intestino, bexiga e
outras regiões da pelve. Esse tecido reage aos hormônios do ciclo menstrual,
inflama, sangra internamente e pode gerar aderências e dor. Em muitos casos, a
dor é incapacitante. Em outros, vem acompanhada de infertilidade, fadiga
extrema, alterações intestinais e urinárias e um desgaste emocional silencioso,
que poucas pessoas ao redor conseguem enxergar.
É nesse ponto que o parceiro entra, e a primeira coisa que
peço é também a mais difícil de sustentar no dia a dia: acredite na dor dela. A
endometriose é conhecida como uma doença invisível, porque a intensidade do
sintoma não guarda relação direta com o tamanho das lesões. Uma mulher pode ter
lesões pequenas e uma dor devastadora, e exames que “não mostram nada” não
significam que não há nada a tratar. Duvidar é uma das formas mais profundas de
abandono dentro de casa.
Acreditar, contudo, é apenas a premissa. O apoio real se
consolida na presença ativa. Isso significa assumir o protagonismo da jornada
junto com a sua companheira: ir junto na consulta, compreender a doença e
poupá-la do desgaste extenuante de ter de traduzir a própria dor repetidamente.
Nas crises, presença muitas vezes significa não tentar resolver nada, mas
segurar a mão, trazer uma bolsa de água quente, ficar por perto em silêncio.
Perguntar “o que você precisa agora?” costuma valer mais do que qualquer
conselho.
Há um território que a maioria dos casais evita nomear, e é
justamente onde o silêncio mais machuca. Falo da vida sexual. A dor durante ou
após a relação, chamada de dispareunia, é um dos sintomas mais comuns da
endometriose. Ela não tem relação com o desejo pelo parceiro nem com a
qualidade do relacionamento, é consequência direta da doença. Retirar a culpa
da equação e encarar o sintoma sob a ótica médica é o único caminho para
preservar o vínculo e reinventar a intimidade sem violência.
O tratamento da endometriose costuma ser multidisciplinar e
cansativo, envolvendo consultas, exames, remédios, eventualmente cirurgia, fisioterapia
pélvica e ajustes na rotina. Dividir esse peso, seja assumindo tarefas do dia a
dia nos períodos de crise, seja organizando junto a agenda médica, tira da
mulher a sensação de que ela precisa gerenciar sozinha uma doença que já é
exaustiva por si só. O mesmo cuidado vale para o campo emocional. A dor crônica
costuma andar de mãos dadas com ansiedade e sintomas depressivos, não por
fraqueza, mas como efeito direto de conviver com dor persistente. Incentivar o
acompanhamento psicológico quando fizer sentido, e buscar apoio para si mesmo
quando necessário, também faz parte de cuidar bem de quem se ama.
Fertilidade é outro tema que costuma pesar sobre o casal em
silêncio, carregado de medo, culpa e expectativa. Quando o desejo de ter filhos
existe, o caminho se torna mais leve quando é enfrentado como time. Quando
ainda não é o momento, é importante que isso não vire cobrança, porque o corpo
dela já carrega peso suficiente.
No fim, talvez a frase mais simples e mais poderosa que um
parceiro possa repetir seja apenas esta, dita sem rodeios: “eu sei que isso não
é culpa sua, estou aqui com você”. A endometriose é uma jornada longa, muitas
vezes marcada por diagnóstico tardio, dor não validada e solidão. Um parceiro
presente, informado e paciente não cura a doença, mas transforma completamente
a forma como ela é vivida.
Escrevo com respeito e admiração por todos que caminham
nessa estrada ao lado de quem amam.

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