Estudos recentes mostram como características genéticas podem influenciar fome, saciedade e resposta ao tratamento, mas o DNA não determina sozinho o peso corporal
A obesidade é uma condição multifatorial, influenciada por fatores genéticos,
metabólicos, ambientais e comportamentais. A genética pode participar da
regulação da fome, da saciedade, do armazenamento de gordura e da resposta aos
tratamentos, mas não determina sozinha o peso corporal.
Uma revisão publicada em 2026 na revista científica Nature Metabolism
reuniu evidências de mais de mil regiões do genoma associadas a variações de
peso e mostrou que a obesidade pode envolver diferentes mecanismos genéticos:
alterações em um único gene (monogênicos), em alguns genes (oligogênicos) ou na
combinação de muitas variantes genéticas, cada uma com um pequeno efeito
(poligênicos).¹ Com novas pesquisas sobre metabolismo, apetite e resposta aos
tratamentos, algumas crenças começam a ganhar novas explicações.
A seguir, especialistas da Dasa, líder em medicina diagnóstica no Brasil, explicam
seis mitos e verdades sobre genética, metabolismo e emagrecimento.
1. “Existe um gene da obesidade.”
MITO.
Não existe um único gene responsável pela
obesidade, que resulta da combinação de muitas variantes genéticas com fatores
ambientais. Já em formas raras e monogênicas, alterações em genes específicos
podem ter papel importante, como MC4R, LEP, LEPR, POMC e PCSK1.¹
“É um erro pensar que existe um único gene capaz de determinar se uma pessoa
terá ou não obesidade. A genética pode aumentar uma predisposição, mas ela está
sempre interagindo com outros fatores”, explica Ricardo Di Lazzaro, médico
doutor em genética, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Dasa Genômica e
fundador de Genera, marca da Dasa.
2. “Duas pessoas podem fazer o mesmo tratamento e emagrecer de forma
diferente.”
VERDADE.
A resposta ao tratamento varia entre
indivíduos. Alimentação, atividade física, sono e condições metabólicas são
alguns dos fatores envolvidos, mas características biológicas também podem
influenciar os resultados. Um estudo publicado em 2026 na revista científica Nature,
com 27.885 pessoas que utilizaram agonistas do receptor de GLP-1, identificou
uma variante no gene GLP1R associada à resposta ao tratamento.
Os pesquisadores estimaram uma diferença de aproximadamente 0,76 kg de perda de
peso por cópia da variante. O resultado representa uma associação observada na
população estudada e não permite prever quanto uma pessoa específica irá
emagrecer. ²
3. “O DNA consegue mostrar qual medicamento para obesidade vai funcionar
melhor.”
MITO.
Ainda não. Estudos recentes já identificaram
variantes associadas à resposta aos agonistas de GLP-1, mas isso não significa
que exista hoje um teste genético capaz, sozinho, de indicar qual medicamento
produzirá maior perda de peso em uma pessoa. Uma pesquisa publicada em 2025 na Nature
Medicine, com 10.960 participantes, avaliou fatores genéticos associados à
resposta a agonistas de GLP-1 e encontrou impacto limitado desses fatores sobre
a variação da perda de peso observada entre os participantes. ¹
“Os estudos estão avançando, mas ainda não temos um teste genético que,
sozinho, consiga dizer qual medicamento fará uma determinada pessoa perder mais
peso. A genética é uma informação que precisa ser interpretada junto com o
quadro clínico”, explica Henrique Galvão, geneticista e gerente Médico da Dasa
Genômica.
4. “O corpo pode manter uma espécie de memória da obesidade depois do
emagrecimento.”
VERDADE.
O estudo da Nature encontrou alterações
persistentes na atividade de células do tecido adiposo humano após a perda de
peso. Em camundongos, os pesquisadores também identificaram alterações
epigenéticas persistentes nos adipócitos que são as células que armazenam
gordura e observaram recuperação de peso mais rápida após nova exposição a uma
dieta rica em gordura. ⁴
A ressalva é importante: os achados em humanos mostram alterações celulares que
permanecem após a perda de peso, enquanto a demonstração mais direta de uma
“memória epigenética” associada à recuperação do peso foi observada em modelos
animais. Epigenética não significa mudança na sequência do DNA, mas alterações
na forma como os genes são ativados ou desativados.
5. “Peso normal é sinônimo de metabolismo saudável.”
MITO.
O peso e o índice de massa corporal (IMC) são medidas importantes, mas não
resumem o risco cardiometabólico de uma pessoa. Um estudo publicado em 2025 na
revista científica Nature Medicine, com 452.768 participantes do UK
Biobank, identificou 205 regiões genômicas nas quais variantes associadas à
maior adiposidade também estavam relacionadas a menor risco de alguns problemas
cardiometabólicos. O trabalho mostra que diferentes subtipos de obesidade podem
apresentar perfis de risco distintos. ¹
Na prática, isso reforça a importância de olhar além da balança. Pressão
arterial, glicemia, colesterol, triglicérides, circunferência abdominal,
distribuição de gordura e histórico clínico ajudam a compor a avaliação
metabólica. No Brasil, a proporção de adultos com obesidade nas capitais e no
Distrito Federal passou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024, segundo o Vigitel,
sistema do Ministério da Saúde que monitora fatores de risco e proteção para
doenças crônicas por meio de inquéritos telefônicos. ⁵
6. “A genética pode ajudar a entender diferentes perfis de obesidade.”
VERDADE.
A genética não determina sozinha o peso corporal, mas pode contribuir para
compreender diferenças relacionadas ao metabolismo, à distribuição de gordura,
ao apetite, à saciedade e à resposta a determinadas intervenções. No Alta
Diagnósticos, marca premium da Dasa, essa abordagem também se conecta à
medicina de precisão.
O Genera Metabolic, painel genético em parceria com a Genera, analisa variantes
relacionadas ao metabolismo, controle do peso, absorção de gordura, gasto energético,
resistência à insulina, gordura visceral e risco genético para obesidade. O
exame é realizado por coleta de sangue, sem necessidade de jejum ou preparo
prévio, e seus resultados devem ser interpretados em conjunto com a avaliação
clínica.
“A obesidade precisa ser entendida como uma condição de saúde multifatorial. A
avaliação deve considerar aspectos clínicos, metabólicos, comportamentais e,
quando indicado, também genéticos”, conclui Adriano Cury, médico
endocrinologista do Alta Diagnósticos e o laboratório Exame Medicina
Diagnóstica (DF)
Referências:
1 BONNEFOND, A. et al. The genetics of obesity:
aetiology, prevention and therapy. Nature Metabolism, 2026. PubMed
– estudo
2 SU, Q. J. et al. Genetic predictors of GLP1
receptor agonist weight loss and side effects. Nature,
2026. Nature – estudo
3 Association between plausible genetic factors and
weight loss from GLP1-RA and bariatric surgery. Nature
Medicine, 2025. Nature Medicine – estudo
4 RODOSTHENOUS, S. et al. Dietary intervention and
BMI reduction in individuals at the extremes of genetic predisposition to higher
BMI. Nature Communications, 2026. PubMed
– estudo
5 Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2006–2024. Ministério da Saúde – Vigitel
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