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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Descoberta com participação da FMUSP abre novo caminho para tratar doenças hereditárias do sangue

Estudo internacional identifica mecanismo que pode contribuir para o desenvolvimento de tratamentos para anemia falciforme e beta-talassemia


Uma pesquisa internacional com participação de pesquisadoras da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) identificou o papel de uma proteína que atua como um "freio" da produção de hemoglobina fetal, uma forma de hemoglobina que predomina durante a gestação. Ao reduzir a ação desse freio em células cultivadas no laboratório, os cientistas conseguiram aumentar a produção de hemoglobina fetal. Esse aumento pode ajudar a amenizar os efeitos de doenças hereditárias do sangue, como a doença falciforme e a beta-talassemia.
 

Publicado na revista científica Nature, o trabalho tem entre seus autores a Profa. Dra. Ester Sabino, titular do Departamento de Patologia da FMUSP, e Dra. Carla Dinardo, pesquisadora e orientadora do Programa de Pós-Graduação em Doenças Infecciosas e Parasitárias da Faculdade. O estudo foi realizado em colaboração com cientistas de instituições ligadas à Universidade de Harvard e de outros centros internacionais.

 

Por que a hemoglobina fetal é importante? 

A hemoglobina é a proteína responsável por transportar oxigênio pelo sangue. Durante a gestação, o organismo produz principalmente a hemoglobina fetal. Após o nascimento, essa produção diminui e dá lugar à hemoglobina adulta. 

Na doença falciforme e na beta-talassemia, alterações genéticas afetam a estrutura ou a produção da hemoglobina adulta. Nesses casos, aumentar a quantidade de hemoglobina fetal pode ajudar a compensar essas alterações e, assim, amenizar as manifestações das doenças. Por isso, compreender como o organismo controla sua produção é um passo importante para desenvolver novos tratamentos.

 

Como funciona o "freio" 

Ao analisar dados genéticos de mais de 28 mil pessoas de diferentes origens populacionais, os pesquisadores identificaram uma variação no DNA associada à menor produção de uma proteína chamada BACH2 e a níveis mais altos de hemoglobina fetal. 

Os experimentos em laboratório ajudaram a explicar essa relação. A BACH2 limita a ativação dos genes que contém as instruções para produzir componentes da hemoglobina fetal, funcionando como o "freio". 

Outra proteína, chamada NRF2, exerce o papel oposto: ajuda a ativar esses genes. Quando os pesquisadores reduziram a ação da BACH2, a NRF2 passou a se ligar mais às regiões do DNA que controlam a ativação desses genes, favorecendo a produção de hemoglobina fetal. 

A descoberta mostra, portanto, como a interação entre essas duas proteínas controla essa produção e como reduzir o "freio" pode estimulá-la.

 

Perspectivas para novos tratamentos 

Algumas estratégias de terapia gênica e edição genética para a doença falciforme e a beta-talassemia já têm como alvo outra proteína que limita a produção de hemoglobina fetal, a BCL11A. O novo estudo mostrou que o mecanismo envolvendo BACH2 e NRF2 atua de forma independente da BCL11A, abrindo a possibilidade de explorar os dois caminhos em conjunto. 

Nos testes em laboratório, os pesquisadores observaram que reduzir simultaneamente a ação da BACH2 e da BCL11A aumentou a produção de hemoglobina fetal mais do que interferir em apenas uma delas. Esse resultado sugere que combinar as duas estratégias pode ampliar esse efeito e contribuir para o desenvolvimento de novos tratamentos. 

Para avançar nessa direção, porém, ainda são necessárias pesquisas que avaliem a segurança e a eficácia dessa abordagem em pacientes. 

O artigo completo está disponível na revista Nature (DOI: 10.1038/s41586-026-11113-2).

 

Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - FMUSP


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