Estudo internacional identifica mecanismo que pode contribuir para o desenvolvimento de tratamentos para anemia falciforme e beta-talassemia
Uma pesquisa internacional com participação de pesquisadoras da Faculdade de
Medicina da USP (FMUSP) identificou o papel de uma proteína que atua como um
"freio" da produção de hemoglobina fetal, uma forma de hemoglobina
que predomina durante a gestação. Ao reduzir a ação desse freio em células
cultivadas no laboratório, os cientistas conseguiram aumentar a produção de
hemoglobina fetal. Esse aumento pode ajudar a amenizar os efeitos de doenças
hereditárias do sangue, como a doença falciforme e a beta-talassemia.
Publicado
na revista científica Nature, o trabalho tem entre seus autores a Profa. Dra.
Ester Sabino, titular do Departamento de Patologia da FMUSP, e Dra. Carla
Dinardo, pesquisadora e orientadora do Programa de Pós-Graduação em Doenças
Infecciosas e Parasitárias da Faculdade. O estudo foi realizado
em colaboração com cientistas de instituições ligadas à Universidade de Harvard
e de outros centros internacionais.
Por que a hemoglobina fetal é importante?
A hemoglobina é a proteína responsável por transportar oxigênio pelo sangue. Durante a gestação, o organismo produz principalmente a hemoglobina fetal. Após o nascimento, essa produção diminui e dá lugar à hemoglobina adulta.
Na
doença falciforme e na beta-talassemia, alterações genéticas afetam a estrutura
ou a produção da hemoglobina adulta. Nesses casos, aumentar a quantidade de
hemoglobina fetal pode ajudar a compensar essas alterações e, assim, amenizar
as manifestações das doenças. Por isso, compreender como o organismo controla
sua produção é um passo importante para desenvolver novos tratamentos.
Como funciona o "freio"
Ao analisar dados genéticos de mais de 28 mil pessoas de diferentes origens populacionais, os pesquisadores identificaram uma variação no DNA associada à menor produção de uma proteína chamada BACH2 e a níveis mais altos de hemoglobina fetal.
Os experimentos em laboratório ajudaram a explicar essa relação. A BACH2 limita a ativação dos genes que contém as instruções para produzir componentes da hemoglobina fetal, funcionando como o "freio".
Outra proteína, chamada NRF2, exerce o papel oposto: ajuda a ativar esses genes. Quando os pesquisadores reduziram a ação da BACH2, a NRF2 passou a se ligar mais às regiões do DNA que controlam a ativação desses genes, favorecendo a produção de hemoglobina fetal.
A
descoberta mostra, portanto, como a interação entre essas duas proteínas
controla essa produção e como reduzir o "freio" pode estimulá-la.
Perspectivas para novos tratamentos
Algumas estratégias de terapia gênica e edição genética para a doença falciforme e a beta-talassemia já têm como alvo outra proteína que limita a produção de hemoglobina fetal, a BCL11A. O novo estudo mostrou que o mecanismo envolvendo BACH2 e NRF2 atua de forma independente da BCL11A, abrindo a possibilidade de explorar os dois caminhos em conjunto.
Nos testes em laboratório, os pesquisadores observaram que reduzir simultaneamente a ação da BACH2 e da BCL11A aumentou a produção de hemoglobina fetal mais do que interferir em apenas uma delas. Esse resultado sugere que combinar as duas estratégias pode ampliar esse efeito e contribuir para o desenvolvimento de novos tratamentos.
Para avançar nessa direção, porém, ainda são necessárias pesquisas que avaliem a segurança e a eficácia dessa abordagem em pacientes.
O
artigo completo está disponível na revista Nature (DOI: 10.1038/s41586-026-11113-2).
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