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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Voz clonada em grupos de mensagens segue como a principal ameaça de deepfake após eleições

Precisão das ferramentas automáticas de detecção chega até 99% em laboratório, mas, segundo dados da TIVIT, cai para a faixa de 50% a 75% nas redes sociais

 

Encerradas as eleições, o conteúdo sintético fraudulento (deepfake), frequentemente associado a informações falsas, continua em circulação no país. Declarações e gravações forjadas, geralmente criadas por inteligência artificial, ainda se espalham por aplicativos de conversa durante debates políticos, mesmo após o período de votação, e merecem atenção antes de serem repassadas.

A TIVIT, multinacional de tecnologia do Grupo Almaviva, registrou uma concentração de alertas nos últimos meses, por meio de seu Centro de Operações de Rede e Segurança (SNOC), e destacou equipes de especialistas para analisar mídias sintéticas durante o período eleitoral. O movimento acompanha a escalada global desse tipo de material, que, segundo estimativas de mercado, saltou de 500 mil para cerca de 8 milhões de ocorrências no último ano, e se reflete em um aumento expressivo de tentativas de engenharia social e de falsificação de identidade.

Segundo Thiago Tanaka, diretor de cibersegurança da TIVIT, o SNOC pode combinar detecção automatizada e análise biométrica já na fase inicial de correlação. “Estendemos o monitoramento preventivo a canais externos e a ambientes ocultos da internet. A ideia é conter o ataque e preservar as provas digitais antes que o dano à reputação de um alvo ou à sua conformidade regulatória se torne irreversível”, explica.

Entre os formatos estudados, o laboratório de pesquisas cibernéticas da TIVIT apontou a clonagem de voz e os vídeos adulterados de candidatos como os formatos de maior risco ao longo de 2025 e 2026. O áudio sintético fraudulento pode ser gerado a partir de amostras curtas e ganha poder de persuasão ao circular em conversas fechadas, longe do monitoramento em tempo real.

Os vídeos com troca de rosto ou alteração de fala têm impacto imediato quando simulam uma confissão, assim como afirmações mentirosas de alto impacto sobre temas polêmicos como religião, economia, segurança e programas sociais. Somadas, as duas técnicas exploram a confiança histórica que o público deposita na imagem e no som, segundo o laboratório, e produzem uma incerteza generalizada sobre o que é autêntico. Já as peças falsas atribuídas a órgãos públicos, que minam a credibilidade das instituições, ainda costumam ser amadoras e mais fáceis de identificar.

As montagens mais elaboradas, porém, esbarram no limite dos detectores automáticos. Em testes controlados de laboratórios como o Maryland Test Facility (MdTF), nos Estados Unidos, e o Recod.ai, da Unicamp, essas ferramentas atingem precisão de 90% a 99%. Em cenários reais como o brasileiro, onde atuam quadrilhas especializadas e bem equipadas, o índice recua para a faixa de 50% a 75%, segundo observação da equipe de cibersegurança da TIVIT. Os algoritmos reconhecem marcas deixadas pelos modelos com que foram treinados e perdem eficiência diante de geradores novos e da compressão típica das redes sociais.

O erro pesa nos dois sentidos: o falso positivo pode bloquear um discurso verdadeiro até que o canal oficial confirme a autenticidade, e o falso negativo deixa áudios e vídeos fabricados circularem sem barreira em momentos críticos. Por isso, Tanaka defende que nenhum software deve dar a palavra final. “O resultado do detector entra como um sinal auxiliar. Para cravar que algo é falso, a equipe cruza essa indicação com a validação do contexto, o rastreio da procedência e a revisão de um especialista”, diz o especialista.

Para o cidadão comum, que não conta com esse aparato, a orientação da TIVIT começa pela desconfiança diante de qualquer declaração bombástica atribuída a políticos ou autoridades, sobretudo quando o tom parece calibrado para despertar raiva ou senso de urgência. Antes de reencaminhar, vale procurar o mesmo registro nos perfis oficiais de quem aparece no vídeo ou no áudio, além de verificar se a peça é recente ou se uma gravação antiga voltou a circular como se fosse atual.

Quando a dúvida persiste, a cobertura de veículos jornalísticos de credibilidade serve de contraprova, e a busca reversa de imagens ajuda a encontrar a versão original de uma cena adulterada. Os rótulos que sinalizam o uso de inteligência artificial também merecem atenção. Se nada disso confirmar a origem do material, a conduta mais segura é não compartilhar.

A validação feita fora do canal digital também funciona contra áudios clonados, como mostra um incidente recente atendido pela TIVIT em uma multinacional. Um executivo recebeu mensagens e uma ligação em que a voz e o sotaque do CEO eram reproduzidos com alta fidelidade para pedir uma transferência urgente. Ao notar uma inconsistência sutil no tom, ele fez uma pergunta pessoal que só o presidente verdadeiro saberia responder, e o golpista encerrou a chamada antes de qualquer envio de dinheiro. Assim, a conscientização e a preparação das pessoas para questionar e validar antes de qualquer decisão mostram-se novamente eficientes na prevenção de fraudes.

O mesmo recurso pode atingir empresas, com o rosto ou a fala de um líder corporativo associados a declarações ou apoios que nunca existiram. O episódio pode resultar em boicote de consumidores e perda de valor de mercado. Para esses casos, a TIVIT recomenda um protocolo que une cibersegurança, jurídico e comunicação, no qual a validação técnica e a preservação das provas digitais sustentam os pedidos de remoção às plataformas e à Justiça enquanto a empresa se posiciona em seus canais oficiais.

Embora o volume e a sofisticação das falsificações imponham desafios operacionais, a TIVIT avalia que o risco mais crítico é a perda de confiança até em registros autênticos. Conhecido como dividendo do mentiroso, o fenômeno permite desacreditar fatos legítimos sob a alegação de que foram fabricados por inteligência artificial. “O desafio estratégico é preservar a legitimidade da informação verdadeira. Se o ceticismo se generalizar, eleitores e instituições perdem a capacidade de chegar a um consenso mínimo sobre o que é real”, completa Tanaka.


TIVIT
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