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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

A IA responde. Mas quem está ensinando as empresas a fazer perguntas melhores?

Existe uma pergunta que talvez precisemos fazer antes de perguntar qualquer coisa para uma inteligência artificial: qual decisão queremos tomar com essa resposta?

 

A provocação parece simples, mas muda a forma como estamos discutindo IA dentro das empresas. Até aqui, boa parte da conversa esteve concentrada em produtividade, automação, redução de custos e adoção de ferramentas. Queremos saber qual modelo utilizar, qual processo automatizar e quantas horas podemos economizar. Só que, à medida que essas tecnologias se tornam mais acessíveis, surge uma questão: se todas as empresas passam a ter acesso às mesmas ferramentas, onde estará o diferencial?

 

A resposta estará cada vez menos na ferramenta e mais em quem a utiliza. Duas empresas podem ter acesso ao mesmo modelo de IA e chegar a conclusões diferentes porque fazem perguntas, oferecem contextos e avaliam criticamente aquilo que recebem de formas distintas. O Work Trend Index 2026, da Microsoft, mostra que 86% dos usuários de IA consideram suas respostas um ponto de partida, e não uma resposta final. O levantamento também aponta o controle de qualidade e o pensamento crítico entre as habilidades humanas que ganham importância nesse cenário.

 

Durante muito tempo, o mercado valorizou profissionais pela capacidade de executar tarefas com domínio técnico. A IA começa a inverter parte dessa lógica. Se uma máquina consegue produzir uma análise, um texto, um código ou uma apresentação em segundos, o valor relativo de simplesmente saber executar diminui. Não porque a execução deixe de importar, mas porque ela tende a ser menos diferenciadora. O que ganha peso é saber qual problema vale a pena resolver, quais informações precisam entrar nessa análise, quais hipóteses devem ser testadas e o que fazer com a resposta.


 

A qualidade da resposta começa antes da pergunta


Existe uma diferença enorme entre perguntar para obter uma resposta e perguntar para tomar uma decisão. “Como podemos melhorar nossas vendas?” pode gerar dezenas de sugestões. Mas imagine perguntar: “Nosso ticket médio caiu 18% nos últimos seis meses. Considerando nosso perfil de clientes, ciclo de vendas, margem e capacidade comercial, quais hipóteses podem explicar essa queda, quais dados precisamos analisar para validá-las e quais decisões deveríamos considerar?”.

 

A segunda pergunta traz contexto, restrições, hipóteses e consequências. Não estamos simplesmente pedindo informação. Estamos estruturando um problema. É por isso que talvez o próximo estágio da discussão sobre IA não seja aprender a escrever promessas melhores, mas aprender a pensar melhor antes de perguntar.

 

A tecnologia pode processar uma quantidade enorme de informações, mas não conhece automaticamente as particularidades de uma empresa, sua cultura, seus clientes ou aquilo que foi aprendido ao longo de anos de operação. O repertório humano funciona como filtro: ajuda a perceber uma resposta superficial, uma premissa equivocada ou uma oportunidade que não estava explícita na pergunta.

 

Um estudo global do IBM Institute for Business Value reforça essa tensão. Enquanto 71% dos CHROs consideram essencial que profissionais saibam supervisionar, validar e substituir resultados produzidos por IA, apenas 29% dos funcionários atribuem essa mesma importância ao julgamento. Existe, portanto, uma distância entre aquilo que as organizações começam a exigir e aquilo que os profissionais entendem como prioridade.

 

Isso também explica por que disponibilizar ferramentas de IA não garante melhores decisões. Uma empresa pode ganhar velocidade e continuar tomando decisões ruins. Pode automatizar um processo ineficiente e produzir análises em segundos sem melhorar a qualidade das escolhas. Talvez um dos maiores erros da adoção corporativa seja tratar a IA como uma camada de produtividade sobre processos que continuam iguais. Antes de perguntar “onde podemos colocar IA?”, deveríamos perguntar: quais decisões são importantes para o nosso negócio? Onde estamos sendo lentos? Onde faltam informação ou capacidade analítica?


 

Quando a execução se torna abundante, decidir se torna mais valioso


Se a execução de determinadas tarefas se torna cada vez mais rápida, barata e acessível, competências como formular problemas, interpretar informações, questionar respostas, identificar padrões, estabelecer prioridades e assumir responsabilidade pelas decisões ganham importância. O profissional mais relevante não será necessariamente aquele que sabe mais sobre uma ferramenta específica, mas aquele que consegue usá-la para ampliar o próprio raciocínio sem terceirizá-lo.

 

O mesmo vale para as empresas. Incorporar IA aos processos de decisão é diferente de simplesmente adicionar ferramentas ao fluxo de trabalho. A primeira situação permite testar hipóteses, confrontar informações e experimentar caminhos. A segunda apenas faz mais rápido aquilo que já era feito.

 

Existe ainda um risco: quanto mais convincente a resposta da IA se torna, mais fácil é esquecer que ela pode estar errada. Uma recomendação pode ser tecnicamente coerente e inadequada para determinado negócio. Uma análise pode identificar um padrão e ignorar justamente a variável que alguém com experiência na operação saberia considerar. O desafio, portanto, não é apenas evitar que a IA erre. É não perder a capacidade humana de perceber quando ela está errando.

 

A execução tende a se tornar cada vez mais abundante, permitindo produzir mais análises, testar hipóteses e automatizar etapas com menos tempo e recursos. Mas produtividade, sozinha, não é estratégia. A vantagem estará nas empresas capazes de transformar essa abundância em escolhas melhores, com profissionais que saibam perguntar, questionar e decidir.

 

No fim, a pergunta mais estratégica talvez não seja “o que a IA consegue fazer?”, mas “o que nós sabemos perguntar, questionar e decidir melhor porque agora temos essa tecnologia?”. Quando todos tiverem acesso às mesmas respostas, o diferencial estará em quem souber fazer as perguntas certas.


 

 

Igor Baliberdin - designer estratégico e fundador da LOOOP, com mais de 20 anos de experiência na interseção entre design, negócios e tecnologia. Atua na criação de experiências digitais que geram impacto direto em performance e receita, liderando projetos de ponta a ponta com foco em resultado e escalabilidade. Atendeu marcas como Electrolux, Vale, Traive, Cargill e Fecomercio/SP.

 

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