Fibrilação atrial e outras doenças cardíacas podem favorecer a formação de coágulos que chegam ao cérebro; inovações no tratamento e controle rigoroso são fundamentais para prevenir complicações
O acidente vascular cerebral (AVC) continua sendo uma das principais causas de morte e incapacidade no mundo. Só no Brasil, é registrada uma a cada seis minutos. Embora o problema, conhecido popularmente como "derrame", seja imediatamente associado ao cérebro, o ponto de partida de muitos episódios está em outro órgão vital: o coração. O Dia Mundial do AVC (29/10) busca conscientizar a população sobre esse risco silencioso, promover o cuidado e ajudar a reconhecer os sinais de alerta.
De acordo com o Dr. Elton Scuro, cardiologista do Hcor, cerca de 87% dos AVCs são do tipo isquêmico, causados pela obstrução de uma artéria que leva sangue ao cérebro. Os 13% restantes são hemorrágicos, oriundos do rompimento de um vaso. “O grande alerta, no entanto, é para o ‘cardioembolismo’, formação de um coágulo dentro do coração que se desprende e viaja até entupir uma artéria cerebral”, revela o especialista.
As causas cardíacas são responsáveis por cerca de 30% de todos os AVCs isquêmicos e por quase metade dos casos ‘criptogênicos’, que são aqueles sem causa aparente. Quando todos os mecanismos são somados, o coração se revela a origem mais comum do problema. "Quando o AVC tem origem cardíaca, costuma ser mais grave, pois o coágulo tende a ser maior e a obstruir artérias mais importantes do cérebro", alerta.
Entre as principais condições que disparam esse processo estão o
infarto do miocárdio recente, que pode enfraquecer a contração do coração;
doenças nas válvulas cardíacas; e infecções como a endocardite. No entanto, o
maior sinal de alerta vai para uma arritmia específica. “A fibrilação atrial é
a condição cardíaca mais associada ao AVC. Trata-se de um batimento cardíaco
irregular e geralmente acelerado, que faz o sangue 'estagnar' dentro do átrio e
formar coágulos”, explica.
Inovações no tratamento e prevenção
O tratamento preventivo do AVC para quem tem doença cardiovascular baseia-se fortemente no uso de anticoagulantes, medicamentos que "afinam" o sangue. “Atualmente, a medicina dispõe dos anticoagulantes orais diretos, que são mais práticos, não exigem exames de sangue frequentes e reduzem o risco de AVC em cerca de 19%, além de diminuírem o risco de sangramento cerebral em cerca de 51% quando comparados à antiga varfarina. No entanto, a varfarina ainda é indispensável para pacientes com próteses valvares mecânicas ou doença reumática da válvula mitral”, pondera.
A tecnologia, no entanto, abriu novas portas. O Dr. Elton Scuro
ressalta que duas novas frentes de tratamento têm ganhado destaque no controle
da fibrilação atrial e na prevenção do derrame. “Hoje, além dos remédios, temos
técnicas minimamente invasivas, como a ablação por cateter, que cauteriza
pequenas áreas do coração responsáveis por disparar a arritmia, e o fechamento
do apêndice atrial esquerdo. Esse último procedimento veda de forma definitiva
uma pequena 'bolsa' do coração onde 90% dos coágulos se formam, sendo uma
excelente opção para pacientes de alto risco de AVC que não podem usar
anticoagulantes a longo prazo”, pontua o cardiologista.
O perigo do colesterol elevado
Além da origem cardíaca, outra causa muito importante do AVC isquêmico é o acúmulo de placas de gordura (colesterol) nas paredes das artérias, processo chamado de aterosclerose. Essas placas costumam se formar principalmente na carótida, artéria do pescoço que leva sangue ao cérebro, e também em vasos intracranianos.
“Com o tempo, a placa pode se romper ou sofrer um pequeno desgaste
em sua superfície, expondo seu conteúdo ao sangue e formando um coágulo no
próprio local, que pode tanto entupir a artéria onde se formou quanto se soltar
e viajar até obstruir um vaso cerebral menor, mecanismo semelhante ao que
ocorre no infarto do coração”, revela o médico.
Cada minuto conta
O cuidado integral com o coração é o melhor escudo contra o derrame cerebral. O controle rigoroso da pressão arterial, do colesterol e do diabetes, atrelado ao abandono do tabagismo, são essenciais. Além disso, sinais como palpitações, batimentos cardíacos irregulares ou falta de ar não devem ser ignorados e merecem avaliação médica imediata.
“O AVC muitas vezes pode ser prevenido. Para quem já tem doença cardíaca,
o uso correto e contínuo da medicação prescrita é a forma mais eficaz de
proteção. Mas, diante de sintomas súbitos como fraqueza em um lado do corpo,
dificuldade para falar, desvio da boca ou perda de equilíbrio, a orientação é
buscar atendimento médico de emergência imediatamente. No AVC, cada minuto
conta”, conclui o Dr. Scuro.
Hcor
Nenhum comentário:
Postar um comentário