Doutorando da
UFABC, Alexandre Pierro comprovou correlação entre a padronização de processos
de gestão, ganhos de produtividade e desenvolvimento econômico
A adoção de
normas internacionais de gestão pode desempenhar um papel determinante no
desenvolvimento econômico e na eficiência das organizações no longo prazo. Essa
é a principal conclusão do estudo “Normas ISO
como Vetor de Desenvolvimento Econômico: Evidências Internacionais e o Caso da
China”, desenvolvido por
Alexandre Pierro, doutorando da Universidade Federal do ABC (UFABC), em São
Paulo.
A pesquisa
analisou a evolução do PIB e a expansão das certificações ISO 9001, de gestão
da qualidade, em quatro economias distintas – Brasil, China, Alemanha e Itália
– no período de 2000 a 2024. A norma foi adotada como indicador da disseminação
de práticas formais de gestão da qualidade, padronização de processos e
melhoria contínua nas organizações, trazendo resultados que apontam uma
associação positiva e consistente de longo prazo entre o crescimento econômico
e o avanço das certificações.
Tal
correlação estatística atingiu marcas expressivas: 0,917 na China, 0,900 no
Brasil, 0,877 no agregado mundial, 0,667 na Itália e 0,544 na Alemanha.
"Esses dados, contudo, alertam que a norma não causa crescimento de forma
isolada, nem traz impactos imediatos de um ano para o outro. Trata-se de um
processo estrutural no qual padronização, eficiência industrial, produtividade
e avanço econômico evoluem de forma associada", pontua Pierro.
Entre os
países analisados, a China apresentou a transformação mais expressiva, com seu
PIB crescendo 15,4 vezes (de US$ 1,21 trilhão para US$ 18,74 trilhões),
enquanto o número de certificados ISO 9001 explodiu 25,4 vezes, saltando de
25,6 mil para mais de 651,8 mil – o que fez o país saltar de 6,3% para 44,2% de
todas as certificações do mundo.
Quando
comparada à produtividade do trabalhador chinês (PIB por trabalhador), a correlação
com a ISO 9001 atingiu um índice ainda mais alto, de 0,929, indicando que a
padronização atua como uma infraestrutura institucional capaz de reduzir
falhas, documentar processos e facilitar a inserção das empresas em cadeias
globais de suprimento. Na prática, fez com que o país deixasse de ser sinônimo
de produto barato e de baixa qualidade, para se tornar uma das maiores
economias do mundo.
O Brasil
também demonstrou forte associação de longo prazo (0,900), com o pico de
certificações e de PIB ocorrendo simultaneamente em 2011, quando alcançamos US$
2,61 trilhões em riqueza e mais de 28,3 mil empresas certificadas. Em 2024, o
cenário nacional registrou cerca de 18,5 mil certificados ativos para um PIB de
US$ 2,19 trilhões.
Já os casos
da Europa evidenciam a maturidade de cada mercado. A Alemanha manteve o
crescimento do PIB com número de certificados relativamente estável, sugerindo
que os processos de qualidade já estão consolidados em seu tecido produtivo.
Por outro lado, a Itália registrou alta intensidade de certificações,
alcançando 42,6 certificados ISO 9001 para cada US$ 1 bilhão de PIB em 2024.
Quando
comparados, Pierro explica que os números demonstram que o efeito econômico dos
padrões depende do contexto produtivo, institucional e tecnológico de cada
país. "Quando efetivamente incorporados à gestão, esses sistemas
padronizados podem contribuir para reduzir retrabalho, falhas e custos de não
qualidade, além de fortalecer a documentação e a disseminação do conhecimento,
aumentar a previsibilidade dos processos e criar condições mais favoráveis à
melhoria contínua", complementa.
Dessa
perspectiva, a ISO 9001 pode funcionar como plataforma de gestão integrada a
iniciativas de inovação, digitalização, gestão de riscos, sustentabilidade,
segurança da informação e outros sistemas corporativos – facilitando a
interoperabilidade entre empresas, reduzindo custos de transação, aumentando a
confiança entre compradores e fornecedores, e diminuindo barreiras de acesso a
mercados internacionais.
Para
governos e formuladores de políticas públicas, a infraestrutura da qualidade –
composta por normalização, metrologia, acreditação, avaliação da conformidade e
certificação – pode ser considerada parte de uma agenda mais ampla de produtividade
e inovação. "Isso não significa, porém, que elevar artificialmente o
número de certificados deva constituir objetivo de política pública. O impacto
depende da qualidade da implementação, da capacidade tecnológica das
organizações, de capital humano, investimento e da utilização efetiva dos
sistemas de gestão", explica.
Quando verdadeiramente incorporadas à gestão corporativa, as normas técnicas e sistemas formais de gestão podem criar condições institucionais que melhoram a eficiência com que conhecimento, capital e trabalho são coordenados – favorecendo produtividade e competitividade em escala nacional. “A padronização não substitui a inovação, investimento ou capital humano. Seu papel é aumentar a capacidade das organizações de transformar esses recursos em processos confiáveis, replicáveis e escaláveis", finaliza Pierro.
Alexandre Pierro - doutorando em energia e mestre em gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.
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