Especialista em comunicação e performance, Catarina Marcato
explica como a escuta ativa, o autoconhecimento e a linguagem corporal podem
transformar encontros profissionais em relacionamentos que geram oportunidades
reais de negócios.
Participar de eventos empresariais, trocar
cartões, adicionar pessoas no LinkedIn e circular por ambientes de negócios são
práticas comuns para quem deseja ampliar oportunidades profissionais. Mas
existe uma diferença importante entre aumentar a lista de contatos e construir
uma rede de relacionamentos capaz de gerar valor: a qualidade das conexões
estabelecidas.
Em muitos encontros de networking, a dinâmica
acaba se resumindo a apresentações rápidas, discursos sobre a própria
trajetória e tentativas de vender serviços ou conquistar clientes. Ao final, os
participantes saem com dezenas de novos números salvos no celular, mas sem necessariamente
se lembrar de quem conheceram ou encontrar motivos concretos para manter o
contato.
Para Catarina Marcato, especialista em oratória
e linguagem corporal, palestrante, artista e fundadora da Marcato
Oratória, esse comportamento revela um dos principais desafios das relações
profissionais: a dificuldade de estabelecer conexões que ultrapassem a
apresentação de currículos, cargos e interesses comerciais imediatos.
“Por trás de cada empresa, existem pessoas
com histórias, desafios, objetivos e experiências próprias. Quando entramos em
um ambiente de negócios pensando apenas no que podemos vender ou conquistar,
deixamos de perceber as possibilidades que surgem quando realmente conhecemos
quem está à nossa frente”, é a reflexão que orienta o trabalho da especialista.
Menos discurso, mais
escuta
Um dos equívocos mais comuns no networking é
acreditar que se destacar depende de falar bem sobre si mesmo. Saber apresentar
a própria trajetória e explicar o que faz é importante, mas a capacidade de ouvir
pode ser igualmente decisiva para estabelecer uma conexão.
A escuta ativa permite identificar interesses
em comum, compreender os desafios do interlocutor e reconhecer oportunidades de
colaboração. Em vez de esperar a própria vez de falar ou conduzir a conversa
imediatamente para uma oferta comercial, o profissional passa a demonstrar
interesse genuíno pela experiência do outro.
Isso também exige fazer perguntas que abram
espaço para uma conversa real. Em vez de se limitar a perguntar o cargo ou a
empresa de alguém, é possível explorar os desafios do mercado em que atua, os
projetos em desenvolvimento e os objetivos profissionais e
inclusive, a depender, pessoais. A partir dessas respostas, a conversa ganha
profundidade e pode revelar afinidades que não seriam percebidas em uma
apresentação convencional.
O objetivo não é abandonar a intenção
comercial, mas compreender que relações profissionais consistentes raramente se
constroem apenas a partir de uma necessidade imediata. Confiança, reciprocidade
e continuidade são elementos importantes para que um primeiro encontro evolua
para uma parceria, uma indicação ou uma oportunidade de negócio.
Autoconhecimento
também faz parte do networking
Nem todas as pessoas se comunicam da mesma
maneira. Enquanto alguns profissionais têm facilidade para iniciar conversas e
circular entre grupos, outros preferem interações mais reservadas ou precisam
de mais tempo para se sentir confortáveis em ambientes desconhecidos.
Há também quem domine tecnicamente o próprio
negócio, mas encontre dificuldade para explicar seu trabalho de forma clara e
interessante. Outros falam com desenvoltura, porém têm dificuldade para
perceber os sinais do interlocutor, adaptar o discurso ou abrir espaço para a
participação de outras pessoas.
Para Catarina, reconhecer essas
características é um passo importante para desenvolver uma comunicação mais
consciente. Em seu trabalho, a especialista pesquisou e construiu para a
sua metodologia alguns perfis comunicacionais como referências para identificar
tendências, potencialidades e aspectos que podem ser desenvolvidos.
A proposta não é enquadrar as pessoas em
categorias rígidas, mas ajudá-las a compreender seus padrões de comportamento e
ampliar o repertório de comunicação. Um profissional mais reservado, por
exemplo, não precisa se tornar expansivo para construir bons relacionamentos.
Pode desenvolver formas de iniciar conversas que respeitem sua personalidade,
assim como alguém naturalmente comunicativo pode aprender a ouvir mais e evitar
monopolizar as interações.
A comunicação estratégica não significa
representar um personagem, mas saber utilizar a própria voz, o corpo e a
intenção de maneira adequada a cada contexto.
O que a voz e a
linguagem corporal comunicam
Em um evento de negócios, a mensagem não está
apenas nas palavras. Tom de voz, ritmo da fala, expressões faciais, postura e
contato visual também participam da interação e podem influenciar a forma como
uma pessoa é percebida.
Um discurso tecnicamente correto pode perder
força quando é apresentado de maneira excessivamente acelerada, distante ou
pouco adaptada ao interlocutor. Da mesma forma, uma apresentação simples pode
despertar interesse quando existe clareza sobre o que se deseja comunicar e
atenção à reação de quem está ouvindo.
Por isso, desenvolver a oratória não se
resume a falar em público. A competência também envolve saber se apresentar em
conversas informais, explicar o próprio trabalho sem recorrer a jargões,
formular perguntas relevantes e perceber quando é necessário mudar a abordagem.
É nesse ponto que a experiência artística de
Catarina se conecta à atuação no ambiente corporativo. Formada em Teatro
Musical pela New York Film Academy, em Nova York, ela utiliza conhecimentos de
interpretação e performance aliados ao desenvolvimento da comunicação, do
autoconhecimento e da autoconfiança em mentorias, treinamentos e palestras para
profissionais, lideranças e equipes.
A proposta é trabalhar a comunicação como uma
habilidade que pode ser desenvolvida e aplicada em diferentes situações
profissionais, de uma apresentação comercial a uma conversa espontânea durante
um encontro empresarial.
O relacionamento não
termina quando o evento acaba
Outro aspecto importante do networking é a
continuidade. Uma conversa interessante pode abrir caminho para um
relacionamento, mas é o contato posterior que ajuda a consolidar o vínculo.
Retomar um assunto discutido no encontro,
compartilhar uma informação relevante, apresentar pessoas que possam colaborar
entre si ou acompanhar um projeto mencionado durante a conversa são formas de
demonstrar interesse e manter a relação ativa.
A diferença está em não procurar o outro
apenas quando surge uma necessidade comercial. Quando existe troca de
conhecimento, disponibilidade para contribuir e reconhecimento do valor de cada
pessoa, a rede profissional deixa de ser apenas uma lista de contatos e passa a
funcionar como um ambiente de confiança e colaboração.
Para empresários e profissionais que buscam
ampliar oportunidades, essa mudança de perspectiva pode fazer diferença. Em vez
de medir o resultado de um evento apenas pelo número de cartões trocados ou
conexões adicionadas, vale observar quantas conversas realmente relevantes
aconteceram e quais delas merecem ser cultivadas.
No fim, o networking não depende apenas de
quantas pessoas um profissional conhece, mas também da qualidade da relação que
consegue construir com elas. Em um mercado no qual a competência técnica
precisa caminhar ao lado da capacidade de se comunicar, saber ouvir, demonstrar
interesse e transmitir uma mensagem com clareza pode ser tão importante quanto
estar no lugar certo.
Mais do que sair de um evento com uma lista
maior de contatos, o desafio é construir relações que façam sentido para os
dois lados — e que continuem existindo depois que o evento termina.
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