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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Detox de medicamentos e alimentos estimulantes: o que pode estar por trás da cronificação da enxaqueca?

Uso excessivo de remédios para dor e exposição a substâncias estimulantes podem dificultar o controle das crises

 

A dor passa, mas volta cada vez mais rápido. O medicamento que antes funcionava já não oferece o mesmo alívio e a solução parece ser aumentar a dose ou experimentar outro remédio. Esse ciclo faz parte da realidade de muitos pacientes com enxaqueca e pode esconder um problema importante: o uso excessivo de medicamentos associado ao risco de cronificação da dor. Para interromper esse processo e reduzir a frequência das crises, a estratégia precisa ir além do tratamento dos sintomas e incluir prevenção, revisão medicamentosa e identificação de fatores que podem agravar a doença. 

Cerca de 30 milhões de brasileiros sofrem com enxaqueca, de acordo com a OMS, uma doença neurológica de origem hereditária caracterizada pela hiperexcitabilidade cerebral. Embora a dor de cabeça seja um dos sintomas mais conhecidos, a condição pode provocar náuseas, vômitos, tonturas, alterações visuais, zumbidos, irritabilidade, oscilações de humor, dificuldades de concentração, distúrbios do sono, sintomas gastrointestinais, entre outros. 

Segundo a neurologista Thais Villa, especialista no diagnóstico e tratamento da enxaqueca, um dos principais desafios é compreender que o controle da doença exige uma abordagem individualizada e abrangente, que inclui avaliar tanto o uso frequente de medicamentos para as crises quanto o consumo de substâncias na alimentação que podem atuar como cronificadores da enxaqueca.
 

Detox de medicamentos 

“O uso frequente de analgésicos, anti-inflamatórios e medicamentos específicos para as crises, como os triptanos, pode contribuir para o desenvolvimento da chamada cefaleia por uso excessivo de medicamentos. Nesses casos, a dor pode se tornar mais frequente, levando o paciente a recorrer cada vez mais aos remédios e dificultando o controle da enxaqueca”, explica a especialista. 

É nesse cenário que o “detox de medicamentos” entra como parte da estratégia terapêutica. O processo consiste em interromper o padrão de uso excessivo, com planejamento e acompanhamento médico, associado à implementação de medidas preventivas adequadas. A conduta depende dos medicamentos utilizados e das condições clínicas de cada paciente, e não deve ser realizada por conta própria. 

“Quando o paciente utiliza medicamentos para as crises com muita frequência, precisamos avaliar se esse padrão está contribuindo para a manutenção da dor. Em determinados casos, a retirada dos medicamentos em excesso, associada ao início de um tratamento preventivo, é fundamental para quebrar esse ciclo para um controle mais efetivo da doença”, completa Thais Villa.
 

Alimentos não causam enxaqueca 

Outro ponto importante é o papel da alimentação. Por ser uma doença neurológica com predisposição hereditária, a enxaqueca não é causada por alimentos, mas determinadas substâncias podem funcionar como fatores de piora em pessoas com a doença. 

Entre elas estão a cafeína, o cacau, alguns ingredientes termogênicos, como pimentas fortes, gengibre, cúrcuma e canela, e o glutamato monossódico, presente em determinados produtos industrializados, molhos e temperos prontos. A recomendação é observar os ingredientes que podem desencadear sintomas em cada pessoa, sem transformar a alimentação em uma lista indiscriminada de proibições. 

“O problema não está no alimento em si. A enxaqueca não é uma doença de causa alimentar. O cérebro de quem tem a condição é mais sensível a determinados estímulos, e algumas substâncias podem contribuir para desencadear ou piorar as crises. Identificar esses fatores é importante, mas retirar alimentos isoladamente não substitui o tratamento”, ressalta a neurologista.
 

A proposta de um tratamento 360 graus é integrar diferentes estratégias para controlar a doença. O plano terapêutico inclui mudanças individualizadas nos hábitos de vida, acompanhamento multidisciplinar e tratamentos preventivos específicos. Conforme o quadro clínico, podem ser indicadas terapias direcionadas à via do CGRP, proteína relacionada aos mecanismos da enxaqueca, e toxina botulínica, especialmente em casos de enxaqueca crônica. 

“Não basta tratar cada crise quando ela aparece. Precisamos atuar na prevenção, avaliar os fatores que mantêm a doença ativa e escolher os tratamentos adequados para cada paciente. O objetivo é reduzir a frequência das crises, controlar os sintomas e devolver qualidade de vida”, afirma Thais Villa. 




Dra Thais Villa (CRM 110217) - Neurologista especialista no diagnóstico e tratamento da enxaqueca. Doutorado pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e pós-doutorado pela Universidade da Califórnia (UCLA) nos Estados Unidos. Fundadora do Headache Center Brasil, que em 2026 completou 10 anos de atendimentos. A clínica multiprofissional é pioneira no país no diagnóstico e tratamento integrado das dores de cabeça e da enxaqueca. Professora de Neurologia e Chefe do Setor de Cefaleias na UNIFESP no período de 2015 a 2022. Membro Titular da Academia Brasileira de Neurologia. Membro da Sociedade Brasileira de Cefaleia. Membro do Conselho Consultivo do Comitê de Cefaleias na Infância e Adolescência da International Headache Society. Atua exclusivamente na pesquisa e atendimento de pacientes com dor de cabeça, no diagnóstico e tratamento da enxaqueca, enxaqueca crônica, cefaleia em salvas e outras cefaleias. Palestrante convidada em congressos nacionais e internacionais.


Headache Center Brasil
www.headachecenterbrasil.com.br
Instagram: @headache_center_brasil


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