A necessidade de transformar momentos pessoais em conteúdo pode comprometer a espontaneidade das experiências e reforçar a dependência da aprovação alheia
Vivemos em uma época em que compartilhar a vida se
tornou quase tão importante quanto vivê-la. Fotografamos refeições, registramos
viagens, publicamos conquistas e acompanhamos a rotina de pessoas que, muitas
vezes, sequer conhecemos pessoalmente. Nesse movimento constante de exposição,
uma pergunta me parece fundamental: estamos construindo relações mais
verdadeiras ou aprendendo a representar versões de nós mesmos para sermos
aceitos?
É dessa reflexão que parto ao abordar o cibernarcisismo, fenômeno relacionado à
busca por reconhecimento e validação no ambiente digital. Não se trata de
classificar quem publica fotos ou compartilha momentos como narcisista, mas de
observar o que acontece quando a percepção que temos de nós mesmos passa a
depender excessivamente da reação dos outros.
As redes sociais oferecem oportunidades de expressão, troca e pertencimento. O
problema começa quando curtidas, comentários e seguidores deixam de ser
interações pontuais e se transformam em medidas do nosso valor. Nesse cenário,
a aprovação externa ganha espaço nas decisões, nos comportamentos e até na maneira
como interpretamos nossas experiências.
Percebo um paradoxo nessa dinâmica. Ao mesmo tempo que somos incentivados a
demonstrar autenticidade, aprendemos a selecionar cuidadosamente aquilo que
mostramos. Escolhemos os melhores ângulos, editamos imagens, organizamos
narrativas e, muitas vezes, escondemos as partes da vida que não correspondem à
expectativa de sucesso. Aos poucos, corremos o risco de confundir nossa
identidade com a imagem que construímos para o público.
Essa lógica não se limita à aparência física. Ela alcança o trabalho, os
relacionamentos, o lazer e até a saúde emocional. Precisamos parecer
produtivos, felizes, realizados e disponíveis. O descanso vira conteúdo, o
autocuidado se transforma em desempenho e as conquistas parecem incompletas
quando não são compartilhadas.
Existe uma diferença importante entre sentir satisfação e precisar provar que
estamos satisfeitos. Quando tudo precisa ser exibido, a experiência perde parte
de sua espontaneidade. Em vez de estarmos inteiramente presentes em um
encontro, por exemplo, podemos nos preocupar com a fotografia que faremos dele
ou com a reação que ela provocará. A atenção se desloca do momento vivido para
a imagem que ficará registrada.
Essa busca contínua por reconhecimento também pode alimentar comparações. Nas
redes, geralmente vemos recortes cuidadosamente selecionados da vida alheia,
mas tendemos a compará-los com nossa realidade inteira, incluindo dúvidas,
dificuldades e inseguranças. Essa comparação é desigual e pode produzir a sensação
de que estamos sempre atrasados, aquém das expectativas ou perdendo alguma
coisa.
Em Ser
é a nova revolução – Da performance à presença: um guia para quem quer
trabalhar, viver e se conectar com propósito, publicado pela
Editora Labrador, proponho uma reflexão sobre a relação entre identidade,
atenção e hábitos. Acredito que recuperar a presença exige reconhecer quando
nossas escolhas deixam de refletir nossos desejos e passam a responder
principalmente à expectativa de aprovação.
Não defendo o abandono das redes sociais. A tecnologia faz parte da vida
contemporânea e pode aproximar pessoas, ampliar conhecimentos e abrir caminhos
profissionais. O desafio está em utilizá-la sem permitir que ela determine
nossa percepção de valor.
Podemos começar com atitudes simples: fazer uma refeição sem consultar o
celular, caminhar sem transformar o percurso em publicação, reservar momentos
de intimidade e observar o que sentimos quando uma experiência não recebe
reconhecimento público. Também vale perguntar a nós mesmos: eu faria isso se
ninguém pudesse ver? Essa escolha tem significado para mim ou estou tentando
corresponder a uma expectativa?
Essas pausas não resolvem, isoladamente, todas as pressões da vida digital, mas
podem abrir espaço para escolhas mais conscientes. O silêncio, nesse sentido,
não representa ausência de conexão. Pode ser uma oportunidade de escutar
necessidades que ficam abafadas pelo excesso de estímulos.
Para mim, a questão central não é quantas pessoas acompanham nossa vida, mas
quanto conseguimos habitá-la de verdade. Quando precisamos de uma plateia para
confirmar nossa existência, corremos o risco de nos afastar justamente da
pessoa que deveríamos conhecer melhor: nós mesmos.
Descer da vitrine é compreender que nem tudo precisa ser mostrado para ter
valor. Há experiências que ganham profundidade quando permanecem privadas,
conquistas que não precisam de aplausos e momentos de felicidade que não
dependem de testemunhas. Recuperar essa liberdade é um exercício de presença e
uma forma de construir uma relação mais honesta com quem somos, dentro e fora
das telas.
Lygia Flaiano Nyikos - advogada, pesquisadora, professora, escritora e pós-graduanda em Neurociência, Neuromarketing e Narrativas de Impacto pela PUC-PR. É autora de “Ser é a nova revolução – Da performance à presença: um guia para quem quer trabalhar, viver e se conectar com propósito”.

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