Uso excessivo de remédios para dor e exposição a substâncias estimulantes podem dificultar o controle das crises
A dor passa, mas volta cada vez mais rápido. O medicamento que
antes funcionava já não oferece o mesmo alívio e a solução parece ser aumentar
a dose ou experimentar outro remédio. Esse ciclo faz parte da realidade de
muitos pacientes com enxaqueca e pode esconder um problema importante: o uso
excessivo de medicamentos associado ao risco de cronificação da dor. Para
interromper esse processo e reduzir a frequência das crises, a estratégia
precisa ir além do tratamento dos sintomas e incluir prevenção, revisão
medicamentosa e identificação de fatores que podem agravar a doença.
Cerca de 30 milhões de brasileiros sofrem com enxaqueca, de
acordo com a OMS, uma doença neurológica de origem hereditária caracterizada
pela hiperexcitabilidade cerebral. Embora a dor de cabeça seja um dos sintomas
mais conhecidos, a condição pode provocar náuseas, vômitos, tonturas,
alterações visuais, zumbidos, irritabilidade, oscilações de humor, dificuldades
de concentração, distúrbios do sono, sintomas gastrointestinais, entre outros.
Segundo a neurologista Thais Villa, especialista no diagnóstico
e tratamento da enxaqueca, um dos principais desafios é compreender que o
controle da doença exige uma abordagem individualizada e abrangente, que inclui
avaliar tanto o uso frequente de medicamentos para as crises quanto o consumo de
substâncias na alimentação que podem atuar como cronificadores da enxaqueca.
Detox de medicamentos
“O uso frequente de analgésicos, anti-inflamatórios e
medicamentos específicos para as crises, como os triptanos, pode contribuir
para o desenvolvimento da chamada cefaleia por uso excessivo de medicamentos.
Nesses casos, a dor pode se tornar mais frequente, levando o paciente a
recorrer cada vez mais aos remédios e dificultando o controle da enxaqueca”,
explica a especialista.
É nesse cenário que o “detox de medicamentos” entra como parte
da estratégia terapêutica. O processo consiste em interromper o padrão de uso
excessivo, com planejamento e acompanhamento médico, associado à implementação
de medidas preventivas adequadas. A conduta depende dos medicamentos utilizados
e das condições clínicas de cada paciente, e não deve ser realizada por conta
própria.
“Quando o paciente utiliza medicamentos para as crises com muita
frequência, precisamos avaliar se esse padrão está contribuindo para a
manutenção da dor. Em determinados casos, a retirada dos medicamentos em
excesso, associada ao início de um tratamento preventivo, é fundamental para
quebrar esse ciclo para um controle mais efetivo da doença”, completa Thais
Villa.
Alimentos não causam enxaqueca
Outro ponto importante é o papel da alimentação. Por ser uma
doença neurológica com predisposição hereditária, a enxaqueca não é causada por
alimentos, mas determinadas substâncias podem funcionar como fatores de piora
em pessoas com a doença.
Entre elas estão a cafeína, o cacau, alguns ingredientes termogênicos, como pimentas fortes, gengibre, cúrcuma e canela, e o glutamato monossódico, presente em determinados produtos industrializados, molhos e temperos prontos. A recomendação é observar os ingredientes que podem desencadear sintomas em cada pessoa, sem transformar a alimentação em uma lista indiscriminada de proibições.
“O problema não está no alimento em si. A enxaqueca não é uma
doença de causa alimentar. O cérebro de quem tem a condição é mais sensível a
determinados estímulos, e algumas substâncias podem contribuir para desencadear
ou piorar as crises. Identificar esses fatores é importante, mas retirar
alimentos isoladamente não substitui o tratamento”, ressalta a neurologista.
A proposta de um tratamento 360 graus é integrar diferentes
estratégias para controlar a doença. O plano terapêutico inclui mudanças
individualizadas nos hábitos de vida, acompanhamento multidisciplinar e
tratamentos preventivos específicos. Conforme o quadro clínico, podem ser
indicadas terapias direcionadas à via do CGRP, proteína relacionada aos
mecanismos da enxaqueca, e toxina botulínica, especialmente em casos de
enxaqueca crônica.
“Não basta tratar cada crise quando ela aparece. Precisamos atuar na prevenção, avaliar os fatores que mantêm a doença ativa e escolher os tratamentos adequados para cada paciente. O objetivo é reduzir a frequência das crises, controlar os sintomas e devolver qualidade de vida”, afirma Thais Villa.
Dra Thais Villa (CRM 110217) - Neurologista especialista no diagnóstico e tratamento da enxaqueca. Doutorado pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e pós-doutorado pela Universidade da Califórnia (UCLA) nos Estados Unidos. Fundadora do Headache Center Brasil, que em 2026 completou 10 anos de atendimentos. A clínica multiprofissional é pioneira no país no diagnóstico e tratamento integrado das dores de cabeça e da enxaqueca. Professora de Neurologia e Chefe do Setor de Cefaleias na UNIFESP no período de 2015 a 2022. Membro Titular da Academia Brasileira de Neurologia. Membro da Sociedade Brasileira de Cefaleia. Membro do Conselho Consultivo do Comitê de Cefaleias na Infância e Adolescência da International Headache Society. Atua exclusivamente na pesquisa e atendimento de pacientes com dor de cabeça, no diagnóstico e tratamento da enxaqueca, enxaqueca crônica, cefaleia em salvas e outras cefaleias. Palestrante convidada em congressos nacionais e internacionais.
Headache Center Brasil
www.headachecenterbrasil.com.br
Instagram: @headache_center_brasil
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