Dia das Crianças costuma ser uma data marcada por presentes, lançamentos e uma
infinidade de opções de entretenimento. Mas talvez seja também uma boa
oportunidade para olhar para algo muito mais simples e que vem perdendo espaço
na rotina infantil: brincar.
E
brincar não é apenas ter alguma coisa para fazer enquanto o tempo passa. É uma
das formas pelas quais a criança conhece o mundo, conhece o outro e conhece a
si mesma. Ela toca, sente, experimenta, corre, cai, levanta, se suja, busca,
percebe diferentes texturas, mede a própria força, ocupa espaços e descobre os
limites do próprio corpo. Há uma quantidade enorme de informação sendo
construída nessas experiências.
Também
há o encontro com o outro. Quando duas ou três crianças brincam juntas, nenhuma
delas controla completamente o que vai acontecer. Alguém muda a regra, não
empresta o brinquedo, não passa a bola, escolhe outra brincadeira ou
simplesmente não quer fazer o que a outra quer. A criança se frustra. Precisa
esperar, negociar, insistir, ceder, encontrar outra saída. Pode se desentender
e, pouco depois, voltar a brincar.
Isso
é aprender princípios básicos de habilidades sociais. É começar a reconhecer a
expressão do outro, interpretar um gesto, entender que alguém se chateou, lidar
com uma resposta que não era a esperada e descobrir como continuar aquela
relação depois de um conflito. São aprendizados que acontecem na convivência e
que nenhuma experiência digital consegue reproduzir por completo.
Não
se trata de defender uma infância sem tecnologia ou imaginar que podemos criar
nossos filhos como fomos criados décadas atrás. A tecnologia faz parte da vida
e continuará fazendo. A questão é o espaço que ela passou a ocupar e,
principalmente, quais experiências estão deixando de acontecer enquanto a
criança permanece vidrada em uma tela.
Na
tela, boa parte da experiência já chega pronta. A criança recebe uma sequência
rápida de estímulos, novidades e recompensas sem precisar fazer muito para que
o próximo estímulo apareça. Costumo usar uma expressão simples com as famílias:
é a chamada “dopamina barata”. Não porque a dopamina seja ruim, ela é um
neurotransmissor fundamental para o funcionamento do cérebro, mas porque
estamos falando de recompensas muito rápidas e facilmente disponíveis, que
exigem pouco esforço para serem alcançadas. Na brincadeira, o caminho é
diferente. A criança precisa participar com o corpo, com os sentidos e com as
emoções. Precisa inventar, esperar, insistir e lidar com aquilo que não
acontece imediatamente como gostaria. No esporte, há cansaço, esforço, regra,
derrota e vitória. No parque, há espaço para explorar. Na convivência, existe o
imprevisível. Até o tédio tem seu lugar quando faz a criança procurar o que
fazer, inventar uma brincadeira ou chamar alguém para dividir aquele tempo.
Na
prática clínica, uma preocupação crescente é o impacto que a exposição
excessiva às telas pode ter sobre o desenvolvimento infantil. Há estudos que
investigam associações entre os padrões de uso das telas e diferenças na estrutura
e no funcionamento cerebral, além de possíveis repercussões sobre habilidades
como atenção, linguagem e controle dos impulsos. Ainda assim, a preocupação vai
além da dificuldade de tirar o celular da mão da criança: a infância é um
período de intenso desenvolvimento, em que brincar, conversar, movimentar-se e
explorar o ambiente oferecem experiências fundamentais. Quando o uso das telas
ocupa o espaço dessas vivências, pode reduzir oportunidades importantes de
aprendizagem e desenvolvimento.
Por
isso, mais importante do que simplesmente contar quantas horas uma criança
passa diante de uma tela é observar o que está ficando de fora da rotina: se
ainda há tempo para brincar, correr, conviver com outras crianças, usar as
mãos, experimentar cheiros, sabores e texturas, participar das tarefas de casa
e tentar fazer algo sozinha antes que um adulto se antecipe e faça por ela.
Esse
olhar não vem apenas da teoria. Trabalho há mais de 20 anos com desenvolvimento
e neuroreabilitação infantil, com experiência que passa pela assistência em UTI
neonatal e pediátrica e, desde 2009, pela rotina da Clínica Follow Kids. Ao
longo desses anos, acompanhei milhares de atendimentos de crianças com
diferentes diagnósticos, limitações e necessidades de suporte. Algumas chegam
com comprometimentos importantes, outras precisam de ajuda em áreas muito
específicas. Essa convivência diária me ensinou que desenvolvimento não pode
ser medido apenas pelos grandes marcos ou por aquilo que uma criança consegue
fazer durante uma sessão. O que realmente importa é o quanto essas conquistas
chegam à vida.
É
por isso que trabalhamos, por exemplo, atividades que podem parecer banais para
quem nunca precisou ensiná-las. Pegar uma jarra e colocar água no copo,
preparar um sanduíche, guardar a própria roupa, arrumar a cama ou separar o que
precisa ir para lavar envolvem organização, coordenação, atenção, tomada de
decisão e uma sequência de ações que nem todas as crianças conseguem realizar
de forma espontânea.
Na
clínica, temos ambientes que reproduzem justamente situações da vida real. Em
uma cozinha equipada, a criança pode aprender a pegar a água, servir o próprio
copo ou preparar um lanche. Em um quarto, pode trabalhar desde arrumar a cama
até guardar e separar roupas. Não criamos esses espaços para que uma criança aprenda
a executar uma tarefa somente dentro da clínica. O objetivo é que, respeitando
suas possibilidades, ela consiga levar esse aprendizado para casa, para a
escola e para os outros ambientes dos quais faz parte. A terapia precisa chegar
à vida.
E
é justamente por acompanhar crianças com necessidades tão diferentes que
aprendi também a não diminuir o tamanho de uma conquista. Para uma família, ver
o filho se servir sozinho de um copo de água pode parecer algo esperado para a
idade. Para outra, pode representar meses de trabalho e um passo enorme em
direção à independência.
Esse
olhar para a funcionalidade amplia o que entendemos como desenvolvimento.
Estamos muito acostumados a acompanhar quando a criança falou, leu, escreveu ou
como está seu desempenho escolar. Tudo isso importa, mas conseguir esperar a
vez, pedir ajuda, tolerar uma frustração, experimentar uma textura diferente,
resolver um pequeno problema, guardar o que usou ou realizar uma tarefa com
menos ajuda também são conquistas importantes.
Há,
ainda, uma questão que não pode ser ignorada nessa conversa: tirar a tela dá
trabalho. Para muitas famílias, ela aparece justamente quando o adulto precisa
trabalhar, preparar o jantar, cuidar da casa ou simplesmente dar conta de uma
rotina cansativa. Dizer apenas “reduza o tempo de tela” é fácil quando não se
considera quem estará disponível para ocupar aquele espaço depois.
Por
isso, essa discussão não deve ser baseada em culpa. É muito mais produtivo
ajudar as famílias a reconstruir, dentro da realidade possível, oportunidades
para que outras experiências voltem a caber no dia. E elas não precisam ser
extraordinárias. Cozinhar junto, ajudar em uma tarefa de casa, andar de
bicicleta, jogar bola, ir à praça, encontrar outras crianças, mexer com diferentes
materiais ou simplesmente ter algum tempo livre sem uma atividade pronta já
muda a natureza da experiência.
Talvez
estejamos oferecendo às crianças cada vez mais estímulos e, ao mesmo tempo,
menos oportunidades de experimentar o mundo por conta própria. Brincar exige
corpo, sentidos, emoção e presença. Exige lidar com o outro, com a espera, com
a frustração e com aquilo que não acontece exatamente como se queria.
Neste Dia das Crianças, vale lembrar que infância não precisa ser preenchida o tempo inteiro. Precisa ser vivida. Criança precisa brincar, tocar, sentir, experimentar, conviver, se frustrar, tentar de novo e descobrir, aos poucos, aquilo que já consegue fazer sozinha.
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