Com população idosa em crescimento,
organização e compartilhamento de informações de saúde ganham importância para
pacientes, familiares e cuidadores
Unsplash
Há uma situação comum em muitas famílias brasileiras: um exame
está guardado em uma gaveta, a receita mais recente está no celular de outra pessoa
e ninguém se lembra exatamente quando um medicamento foi alterado. Quando
filhos vivem em outras cidades, profissionais se revezam no cuidado ou
diferentes médicos acompanham o mesmo paciente, reconstruir o histórico de
saúde de uma pessoa idosa pode se tornar ainda mais difícil. O cenário
do envelhecimento no Brasil começa exatamente aí, na dificuldade de organizar o
cuidado. Nesse ponto, novas tecnologias, como a MYME, fundada em 2025, podem
ajudar.
No Dia Internacional da Pessoa Idosa, celebrado em 1º
de outubro, o avanço da longevidade no Brasil reforça a
necessidade de discutir não apenas quem cuidará de uma população cada vez mais
velha, mas também quais ferramentas podem ajudar as próprias pessoas idosas a
manter mais autonomia sobre suas informações e facilitar a comunicação com sua rede
de apoio.
Só entre 2016 e 2019, o número de familiares
dedicados ao cuidado de pessoas com 60 anos ou mais saltou de 3,7 milhões
para 5,1 milhões, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE). O Censo 2022 identificou um crescimento de 57,4% no número
de pessoas idosas ao longo de 12 anos, e as projeções indicam que essa transformação demográfica está apenas
começando. O país tem aproximadamente 214 milhões de habitantes em 2026,
com expectativa média de vida de 77 anos. Já em 2070,
a população deve cair para cerca de 199 milhões de pessoas, mesmo com a
taxa de mortalidade infantil caindo de 11,8% para 5,8%, enquanto a
expectativa média de vida saltará para 83,9 anos. Traduzindo esses
números: haverá menos jovens, menos pessoas economicamente ativas e muito mais
idosos vivendo por mais tempo.
Isso mostra como a lógica social está mudando. As famílias estão menores, há mais pessoas sem filhos e o mercado de trabalho permite (às vezes, exige) mobilidade. Profissionais trocam de cidade, estado e até país com mais frequência do que suas gerações anteriores. Pais envelhecem enquanto filhos vivem a milhares de quilômetros de distância. Ao mesmo tempo, de acordo com o IBGE, as principais atividades requeridas pelos idosos são monitorar ou fazer companhia dentro do domicílio (83,4%), auxiliar nos cuidados pessoais (74,1%) e acompanhar consultas médicas, exames e atividades sociais, culturais e religiosas (61,1%). Ou seja, tudo que demanda presença e tempo.
Essa tendência já chamou a atenção do mercado de saúde e do cuidado. É o caso da MYME, plataforma gratuita que centraliza o histórico médico de usuários e seus dependentes, e qualquer informação do histórico pode ser enviada a terceiros, via link, quando necessário. “O cuidado com o idoso não acontece só na emergência. Acontece todos os dias, na rotina. Quando o histórico médico está organizado e atualizado, o acompanhamento fica mais fácil e mais seguro”, diz Lucas Santiago, cofundador da MYME, que é estruturada como uma Sociedade de Benefício Público (PBC), combinando modelo de negócio com propósito social.
A plataforma da MYME permite registrar sintomas, exames,
consultas, prescrições médicas, medicação, vacinação, além de prontuários de
hospitais, clínicas e outras unidades de saúde, do usuário ou de seu
dependente, seja criança, doente ou idoso. “Às vezes, o filho está em outra
cidade, enquanto o cuidador acompanha a rotina do idoso presencialmente. A
plataforma cria uma ponte para a troca de informações sem que elas fiquem
dispersas e fragmentadas. O mesmo vale para equipes de cuidadores que se
revezam em uma mesma casa. É uma forma de cuidar melhor e dar mais
tranquilidade para todos os envolvidos”, afirma Gabriel Barros,
cofundador da MYME.
Como a MYME funciona
Ao criar uma conta na MYME, o usuário pode inserir informações em
categorias sugeridas – Sintomas, Exames, Visita Médica, Medicação, Vacina e
“Outros” – ou criar suas categorias (por exemplo, controle de glicemia,
controle de pressão arterial e ciclo menstrual). A plataforma aceita arquivos
em PDF, imagem e texto e tudo é inserido em uma linha do tempo do paciente.
Qualquer dado ou categoria pode ser compartilhado via link.
“A plataforma também é pensada para o cuidado com o outro,
lembrando que vivemos em comunidade e dependemos uns dos outros”, destaca Lucas Santiago. Por isso, a
MYME permite que o usuário crie perfis de dependentes e divida sua gestão com
outros responsáveis (familiares e cuidadores de um idoso, por exemplo).
Segurança de dados
A proteção de dados é um dos principais pontos de atenção do setor
de saúde diante dos episódios recentes de vazamento de informações
confidenciais. A segurança é o ponto focal da MYME. O desenvolvedor da plataforma,
Gabriel Barros, é engenheiro de software com experiência de 15 anos no Yahoo
Internacional e liderança em um projeto de isolamento de dados sensíveis com
Google e Microsoft. Ele garante que “a construção da infraestrutura da MYME
parte do princípio de que dados de saúde exigem um nível máximo de proteção e
controle pelo usuário.”
Complementar ao Meu SUS Digital
A MYME não disputa espaço com o Meu SUS Digital, plataforma do Ministério
da Saúde que funciona como prontuário eletrônico do Serviço Único de Saúde
(SUS). “O Meu SUS traz informações da rede pública e agora também permite o
agendamento de consultas [inicialmente para 500 municípios brasileiros]. A MYME
agrega o que o paciente tem em papéis, imagens e outros arquivos guardados
consigo, além de dados do cotidiano que o SUS não registra”, diferencia
Gabriel.
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