Quadros respiratórios podem se agravar rapidamente na infância; pediatra com experiência em terapia intensiva explica como reconhecer sinais que exigem atendimento de urgência.
Gripes,
resfriados e outras infecções respiratórias fazem parte da rotina de toda
família com crianças pequenas. Mas há uma linha, muitas vezes sutil, que separa
um quadro comum de uma emergência e reconhecê-la a tempo pode ser decisivo. É o
que alerta a médica Letícia Salles, que atua há anos em unidades de terapia
intensiva pediátrica e hoje também se dedica à perícia médica, área em que
analisa criteriosamente a evolução de quadros clínicos graves.
Segundo
ela, um dos erros mais comuns dos pais é focar apenas na febre ou na tosse,
deixando passar despercebidos os sinais que realmente indicam risco: a forma
como a criança respira. "A gente costuma olhar para a temperatura,
para a tosse, para o cansaço geral, mas o que mais importa em uma criança com
dificuldade respiratória é observar o tórax dela enquanto respira. Isso conta
uma história que a febre sozinha não conta", explica.
Um
importante sinal de alerta, segundo a pediatra, é a chamada tiragem, quando a
pele entre as costelas, abaixo delas ou na base do pescoço "afunda" a
cada respiração, deixando os ossos das costelas visivelmente marcados.
"Quando
o pulmão está com dificuldade de encher de ar, o corpo da criança usa outros
músculos para ajudar a respirar. Isso faz com que a pele fique puxada para
dentro do tórax, e dá para ver claramente o contorno das costelas. Se os pais
notarem isso, não é hora de esperar para ver se melhora sozinho", afirma.
Outro
ponto de atenção é a frequência respiratória. Uma criança que, aos olhos dos
pais, parece estar "respirando rápido demais", muito mais do que o
normal para a idade,está, na maioria das vezes, comunicando sofrimento
respiratório, mesmo sem chorar ou reclamar.
"Muitos
pais acham que só é grave se a criança estiver chorando ou muito abatida. Mas o
esforço para respirar por si só já é um sinal grave e deve ser avaliado por um
médico prontamente, independente do estado geral da criança", diz a
médica.
Entre
os sintomas mais graves está a cianose, uma coloração azulada ou arroxeada que
pode aparecer nos lábios, na ponta dos dedos ou ao redor da boca. Para a
especialista, esse sinal não admite espera.
"Quando
os lábios ou as unhas começam a ficar arroxeados, isso indica que o oxigênio
não está chegando como deveria ao corpo da criança. Esse é um daqueles sinais
em que não existe'vamos aguardar mais um pouco. É pronto-socorro
imediatamente", reforça.
Ela
também chama atenção para outros indícios que costumam passar despercebidos:
batimento das narinas a cada respiração, um gemido leve ao expirar sem que a
criança esteja chorando ou com febre, dificuldade para mamar ou se alimentar
por causa do cansaço respiratório, e sonolência excessiva ou irritabilidade
fora do padrão da criança.
Na
avaliação da médica, o sistema respiratório infantil tem particularidades que
explicam por que os quadros pioram tão depressa. As vias aéreas são
proporcionalmente menores, e qualquer inchaço ou acúmulo de secreção reduz
muito mais a passagem de ar do que aconteceria em um adulto.
"O
que para um adulto seria um desconforto passageiro, para uma criança pequena
pode significar uma obstrução relevante e necessitar de suporte respiratório hospitalar,
especialmente em bebês. É por isso que quadros respiratórios na infância pedem
mais atenção e menos “vamos esperar mais um dia”, pontua.
Ela
reforça que a orientação não é gerar pânico a cada resfriado, mas sim afiar o
olhar dos pais para os sinais que realmente indicam gravidade. "A maioria
das infecções respiratórias na infância se resolve bem. O importante é saber
diferenciar: uma criança cansada de tanto tossir é diferente de uma criança que
está literalmente trabalhando para respirar. Esse segundo caso não pode esperar
a consulta do dia seguinte. Na dúvida, é sempre melhor consultar com um
pediatra.", conclui.
Fonte: Dra. Letícia Salles – Pediatra intensivista
pós-graduada em perícias médicas
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