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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Respiração rápida, costelas marcadas e lábios arroxeados: os sinais de esforço respiratório nas crianças

Quadros respiratórios podem se agravar rapidamente na infância; pediatra com experiência em terapia intensiva explica como reconhecer sinais que exigem atendimento de urgência.

 

Gripes, resfriados e outras infecções respiratórias fazem parte da rotina de toda família com crianças pequenas. Mas há uma linha, muitas vezes sutil, que separa um quadro comum de uma emergência e reconhecê-la a tempo pode ser decisivo. É o que alerta a médica Letícia Salles, que atua há anos em unidades de terapia intensiva pediátrica e hoje também se dedica à perícia médica, área em que analisa criteriosamente a evolução de quadros clínicos graves.

Segundo ela, um dos erros mais comuns dos pais é focar apenas na febre ou na tosse, deixando passar despercebidos os sinais que realmente indicam risco: a forma como a criança respira. "A gente costuma  olhar para a temperatura, para a tosse, para o cansaço geral, mas o que mais importa em uma criança com dificuldade respiratória é observar o tórax dela enquanto respira. Isso conta uma história que a febre sozinha não conta", explica.

Um importante sinal de alerta, segundo a pediatra, é a chamada tiragem, quando a pele entre as costelas, abaixo delas ou na base do pescoço "afunda" a cada respiração, deixando os ossos das costelas visivelmente marcados.

"Quando o pulmão está com dificuldade de encher de ar, o corpo da criança usa outros músculos para ajudar a respirar. Isso faz com que a pele fique puxada para dentro do tórax, e dá para ver claramente o contorno das costelas. Se os pais notarem isso, não é hora de esperar para ver se melhora sozinho", afirma.

Outro ponto de atenção é a frequência respiratória. Uma criança que, aos olhos dos pais, parece estar "respirando rápido demais", muito mais do que o normal para a idade,está, na maioria das vezes, comunicando sofrimento respiratório, mesmo sem chorar ou reclamar.

"Muitos pais acham que só é grave se a criança estiver chorando ou muito abatida. Mas o esforço para respirar por si só já é um sinal grave e deve ser avaliado por um médico prontamente, independente do estado geral da criança", diz a médica.

Entre os sintomas mais graves está a cianose, uma coloração azulada ou arroxeada que pode aparecer nos lábios, na ponta dos dedos ou ao redor da boca. Para a especialista, esse sinal não admite espera.

"Quando os lábios ou as unhas começam a ficar arroxeados, isso indica que o oxigênio não está chegando como deveria ao corpo da criança. Esse é um daqueles sinais em que não existe'vamos aguardar mais um pouco. É pronto-socorro imediatamente", reforça.

Ela também chama atenção para outros indícios que costumam passar despercebidos: batimento das narinas a cada respiração, um gemido leve ao expirar sem que a criança esteja chorando ou com febre, dificuldade para mamar ou se alimentar por causa do cansaço respiratório, e sonolência excessiva ou irritabilidade fora do padrão da criança.

Na avaliação da médica, o sistema respiratório infantil tem particularidades que explicam por que os quadros pioram tão depressa. As vias aéreas são proporcionalmente menores, e qualquer inchaço ou acúmulo de secreção reduz muito mais a passagem de ar do que aconteceria em um adulto.

"O que para um adulto seria um desconforto passageiro, para uma criança pequena pode significar uma obstrução relevante e necessitar de suporte respiratório hospitalar, especialmente em bebês. É por isso que quadros respiratórios na infância pedem mais atenção e menos “vamos esperar mais um dia”, pontua.

Ela reforça que a orientação não é gerar pânico a cada resfriado, mas sim afiar o olhar dos pais para os sinais que realmente indicam gravidade. "A maioria das infecções respiratórias na infância se resolve bem. O importante é saber diferenciar: uma criança cansada de tanto tossir é diferente de uma criança que está literalmente trabalhando para respirar. Esse segundo caso não pode esperar a consulta do dia seguinte. Na dúvida, é sempre melhor consultar com um pediatra.", conclui.

 

Fonte: Dra. Letícia Salles – Pediatra intensivista pós-graduada em perícias médicas


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