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sábado, 3 de outubro de 2026

Criança precisa voltar a brincar


Dia das Crianças costuma ser uma data marcada por presentes, lançamentos e uma infinidade de opções de entretenimento. Mas talvez seja também uma boa oportunidade para olhar para algo muito mais simples e que vem perdendo espaço na rotina infantil: brincar. 

E brincar não é apenas ter alguma coisa para fazer enquanto o tempo passa. É uma das formas pelas quais a criança conhece o mundo, conhece o outro e conhece a si mesma. Ela toca, sente, experimenta, corre, cai, levanta, se suja, busca, percebe diferentes texturas, mede a própria força, ocupa espaços e descobre os limites do próprio corpo. Há uma quantidade enorme de informação sendo construída nessas experiências. 

Também há o encontro com o outro. Quando duas ou três crianças brincam juntas, nenhuma delas controla completamente o que vai acontecer. Alguém muda a regra, não empresta o brinquedo, não passa a bola, escolhe outra brincadeira ou simplesmente não quer fazer o que a outra quer. A criança se frustra. Precisa esperar, negociar, insistir, ceder, encontrar outra saída. Pode se desentender e, pouco depois, voltar a brincar. 

Isso é aprender princípios básicos de habilidades sociais. É começar a reconhecer a expressão do outro, interpretar um gesto, entender que alguém se chateou, lidar com uma resposta que não era a esperada e descobrir como continuar aquela relação depois de um conflito. São aprendizados que acontecem na convivência e que nenhuma experiência digital consegue reproduzir por completo. 

Não se trata de defender uma infância sem tecnologia ou imaginar que podemos criar nossos filhos como fomos criados décadas atrás. A tecnologia faz parte da vida e continuará fazendo. A questão é o espaço que ela passou a ocupar e, principalmente, quais experiências estão deixando de acontecer enquanto a criança permanece vidrada em uma tela. 

Na tela, boa parte da experiência já chega pronta. A criança recebe uma sequência rápida de estímulos, novidades e recompensas sem precisar fazer muito para que o próximo estímulo apareça. Costumo usar uma expressão simples com as famílias: é a chamada “dopamina barata”. Não porque a dopamina seja ruim, ela é um neurotransmissor fundamental para o funcionamento do cérebro, mas porque estamos falando de recompensas muito rápidas e facilmente disponíveis, que exigem pouco esforço para serem alcançadas. Na brincadeira, o caminho é diferente. A criança precisa participar com o corpo, com os sentidos e com as emoções. Precisa inventar, esperar, insistir e lidar com aquilo que não acontece imediatamente como gostaria. No esporte, há cansaço, esforço, regra, derrota e vitória. No parque, há espaço para explorar. Na convivência, existe o imprevisível. Até o tédio tem seu lugar quando faz a criança procurar o que fazer, inventar uma brincadeira ou chamar alguém para dividir aquele tempo. 

Na prática clínica, uma preocupação crescente é o impacto que a exposição excessiva às telas pode ter sobre o desenvolvimento infantil. Há estudos que investigam associações entre os padrões de uso das telas e diferenças na estrutura e no funcionamento cerebral, além de possíveis repercussões sobre habilidades como atenção, linguagem e controle dos impulsos. Ainda assim, a preocupação vai além da dificuldade de tirar o celular da mão da criança: a infância é um período de intenso desenvolvimento, em que brincar, conversar, movimentar-se e explorar o ambiente oferecem experiências fundamentais. Quando o uso das telas ocupa o espaço dessas vivências, pode reduzir oportunidades importantes de aprendizagem e desenvolvimento. 

Por isso, mais importante do que simplesmente contar quantas horas uma criança passa diante de uma tela é observar o que está ficando de fora da rotina: se ainda há tempo para brincar, correr, conviver com outras crianças, usar as mãos, experimentar cheiros, sabores e texturas, participar das tarefas de casa e tentar fazer algo sozinha antes que um adulto se antecipe e faça por ela. 

Esse olhar não vem apenas da teoria. Trabalho há mais de 20 anos com desenvolvimento e neuroreabilitação infantil, com experiência que passa pela assistência em UTI neonatal e pediátrica e, desde 2009, pela rotina da Clínica Follow Kids. Ao longo desses anos, acompanhei milhares de atendimentos de crianças com diferentes diagnósticos, limitações e necessidades de suporte. Algumas chegam com comprometimentos importantes, outras precisam de ajuda em áreas muito específicas. Essa convivência diária me ensinou que desenvolvimento não pode ser medido apenas pelos grandes marcos ou por aquilo que uma criança consegue fazer durante uma sessão. O que realmente importa é o quanto essas conquistas chegam à vida. 

É por isso que trabalhamos, por exemplo, atividades que podem parecer banais para quem nunca precisou ensiná-las. Pegar uma jarra e colocar água no copo, preparar um sanduíche, guardar a própria roupa, arrumar a cama ou separar o que precisa ir para lavar envolvem organização, coordenação, atenção, tomada de decisão e uma sequência de ações que nem todas as crianças conseguem realizar de forma espontânea. 

Na clínica, temos ambientes que reproduzem justamente situações da vida real. Em uma cozinha equipada, a criança pode aprender a pegar a água, servir o próprio copo ou preparar um lanche. Em um quarto, pode trabalhar desde arrumar a cama até guardar e separar roupas. Não criamos esses espaços para que uma criança aprenda a executar uma tarefa somente dentro da clínica. O objetivo é que, respeitando suas possibilidades, ela consiga levar esse aprendizado para casa, para a escola e para os outros ambientes dos quais faz parte. A terapia precisa chegar à vida. 

E é justamente por acompanhar crianças com necessidades tão diferentes que aprendi também a não diminuir o tamanho de uma conquista. Para uma família, ver o filho se servir sozinho de um copo de água pode parecer algo esperado para a idade. Para outra, pode representar meses de trabalho e um passo enorme em direção à independência. 

Esse olhar para a funcionalidade amplia o que entendemos como desenvolvimento. Estamos muito acostumados a acompanhar quando a criança falou, leu, escreveu ou como está seu desempenho escolar. Tudo isso importa, mas conseguir esperar a vez, pedir ajuda, tolerar uma frustração, experimentar uma textura diferente, resolver um pequeno problema, guardar o que usou ou realizar uma tarefa com menos ajuda também são conquistas importantes. 

Há, ainda, uma questão que não pode ser ignorada nessa conversa: tirar a tela dá trabalho. Para muitas famílias, ela aparece justamente quando o adulto precisa trabalhar, preparar o jantar, cuidar da casa ou simplesmente dar conta de uma rotina cansativa. Dizer apenas “reduza o tempo de tela” é fácil quando não se considera quem estará disponível para ocupar aquele espaço depois. 

Por isso, essa discussão não deve ser baseada em culpa. É muito mais produtivo ajudar as famílias a reconstruir, dentro da realidade possível, oportunidades para que outras experiências voltem a caber no dia. E elas não precisam ser extraordinárias. Cozinhar junto, ajudar em uma tarefa de casa, andar de bicicleta, jogar bola, ir à praça, encontrar outras crianças, mexer com diferentes materiais ou simplesmente ter algum tempo livre sem uma atividade pronta já muda a natureza da experiência. 

Talvez estejamos oferecendo às crianças cada vez mais estímulos e, ao mesmo tempo, menos oportunidades de experimentar o mundo por conta própria. Brincar exige corpo, sentidos, emoção e presença. Exige lidar com o outro, com a espera, com a frustração e com aquilo que não acontece exatamente como se queria. 

Neste Dia das Crianças, vale lembrar que infância não precisa ser preenchida o tempo inteiro. Precisa ser vivida. Criança precisa brincar, tocar, sentir, experimentar, conviver, se frustrar, tentar de novo e descobrir, aos poucos, aquilo que já consegue fazer sozinha. 


Marcela Oliveira - fisioterapeuta, pesquisadora, especialista em Neurologia Infantil, fundadora e diretora da Clínica de Neuroreabilitação Infantil Follow Kids.


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