O vício em apostas, hoje reconhecido como transtorno do jogo,
deixou de ser visto apenas como um problema de comportamento para se tornar uma
condição de saúde com impactos profundos na vida financeira, familiar e
psicológica. A classificação, adotada pela Organização Mundial da Saúde (OMS)
na CID-11, define a ludopatia como um transtorno relacionado a comportamentos
aditivos, no qual a pessoa perde o controle sobre o ato de apostar e continua
jogando mesmo diante de consequências negativas.
A psicóloga Carol França explica que a ludopatia é considerada uma
condição de saúde porque pode produzir prejuízos significativos no
funcionamento financeiro, familiar, profissional, social e psicológico. Ela
destaca também que nem toda pessoa que aposta desenvolve um transtorno e que o
problema está relacionado ao padrão de comportamento, à perda de controle e aos
prejuízos associados.
O alerta ganha ainda mais relevância com a expansão das apostas
online, que facilitam o acesso contínuo ao jogo e intensificam o risco de
dependência. Segundo a OMS, os danos relacionados às apostas podem incluir
problemas de saúde mental e até suicídio.
"O transtorno do jogo pode estar associado a sofrimento
psicológico importante, incluindo ansiedade, depressão, estresse, vergonha e
conflitos familiares e financeiros. A facilidade de acesso às apostas online
também permite que a pessoa aposte de maneira praticamente contínua, o que pode
favorecer a manutenção do comportamento problemático. A associação com
comportamento suicida merece atenção especial. Percebe-se maior frequência de
ideação e tentativas de suicídio entre pessoas com problemas relacionados ao
jogo, embora, os estudos disponíveis não permitam afirmar que o jogo,
isoladamente, seja a causa do comportamento suicida. Por isso, quando existe
desesperança, pensamentos de morte ou fala sobre suicídio, a situação deve ser
tratada como uma urgência em saúde mental", alertou a psicóloga.
Sinais de alerta
Entre os sinais de que uma pessoa pode estar desenvolvendo
dependência, a especialista Carol França destacou: apostar valores maiores ou
por mais tempo do que o planejado, dificuldade de parar, pensamento constante
em apostas, tentar recuperar perdas apostando novamente, esconder o quanto
aposta, comprometer recursos essenciais e deixar de lado trabalho, estudos e
relacionamentos. A irritabilidade e a ansiedade quando não se pode apostar
também são indicativos importantes.
O peso do endividamento
O endividamento provocado pelas "bets" costuma gerar um
ciclo de estresse, culpa, vergonha e desesperança, de acordo com a psicóloga.
Ela afirmou que muitas pessoas escondem as perdas da família, fazem novos
empréstimos para tentar recuperar o dinheiro e agravam ainda mais o problema.
"Para a família, isso pode significar perda de confiança,
conflitos conjugais, dificuldades para pagar despesas básicas e mudanças
importantes na dinâmica familiar. A OMS reconhece entre os danos associados ao
jogo problemas financeiros, conflitos e rupturas familiares, violência familiar
e sofrimento psicológico. É importante evitar uma abordagem baseada apenas na
culpa. O endividamento precisa ser enfrentado, mas também é necessário
compreender e tratar o comportamento de aposta que está contribuindo para a
manutenção desse ciclo".
Jovens em risco
Adolescentes e jovens formam um grupo especialmente vulnerável.
Carol França, que coordena o curso de psicologia da Estácio, afirma que nessa
fase de desenvolvimento, marcada pela busca por novidades e pela influência dos
pares, as apostas apresentadas como entretenimento ou associadas ao esporte
tendem a ser normalizadas. Segundo ela, no ambiente online, a facilidade de
acesso e a exposição constante à publicidade reforçam esse cenário, o que torna
essenciais a prevenção, a educação financeira e a supervisão dos adultos
responsáveis.
Como a família deve agir
A orientação da profissional é conversar de forma direta, mas sem
julgamento ou humilhação. "A família pode estimular a busca por avaliação
profissional; ajudar a pessoa a interromper o acesso às apostas; estabelecer
limites claros para o uso de recursos financeiros, quando necessário; não
assumir ou encobrir repetidamente as dívidas para que o problema continue
invisível; acompanhar o tratamento, quando a pessoa desejar e quando isso fizer
parte da proposta terapêutica; cuidar também da própria saúde mental. É
importante lembrar que a família não consegue tratar sozinha um transtorno do
jogo. Ela pode ser uma importante fonte de apoio, mas o cuidado profissional é
fundamental", salientou.
Existe tratamento
De acordo com a psicóloga Carol França, o acompanhamento pode
envolver psicoterapia, avaliação médica e psiquiátrica quando necessária,
intervenções voltadas ao controle do comportamento de apostar, manejo de
ansiedade e outros sintomas, prevenção de recaídas e tratamento de possíveis
transtornos associados. O Ministério da Saúde informa que o cuidado pode ser
realizado por equipe multiprofissional e incluir atendimentos individuais e em
grupo e, em alguns casos, medicação.
"No Brasil, a pessoa pode procurar inicialmente uma Unidade
Básica de Saúde (UBS) ou um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Os CAPS são
serviços públicos de saúde mental com equipes multiprofissionais e podem
acolher pessoas em sofrimento psíquico e organizar o cuidado de acordo com a
necessidade. Atualmente, o Ministério da Saúde também disponibiliza orientação
específica sobre problemas relacionados a jogos e apostas, inclusive
teleatendimento em saúde mental pelo Meu SUS Digital.
Além do cuidado em saúde, medidas práticas para reduzir o acesso às apostas podem fazer parte do plano de proteção. O Ministério da Saúde informa, por exemplo, a existência de uma plataforma de autoexclusão, que permite solicitar o bloqueio das contas em plataformas de apostas autorizadas".
E a especialista fez um alerta: "Se houver pensamentos de morte ou intenção suicida, não se deve esperar pelo tratamento ambulatorial: é necessário procurar atendimento de urgência, como uma UPA ou serviço de emergência, ou acionar o SAMU pelo 192".
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