Estudos trazem resultados encorajadores e reforçam a importância de um planejamento individualizado para mulheres que desejam engravidar e amamentar após o tratamento
Depois do tratamento de um câncer de
mama, o desejo de ter um filho pode vir acompanhado de uma dúvida importante: “Será
que vou conseguir amamentar?” A resposta depende da história de cada
mulher, dos tratamentos realizados, de possíveis cirurgias e radioterapia e
também dos medicamentos que ainda fazem parte do tratamento. Existem
possibilidades, mas elas não são iguais para todas.
O Outubro Rosa também é um momento
para ampliar a conversa sobre a vida após o diagnóstico e o tratamento do
câncer de mama. Para muitas mulheres, isso inclui pensar na maternidade. Ter acesso
a informações claras e baseadas em evidências pode ajudar na construção desse
projeto, com expectativas realistas e sem transformar a amamentação em uma nova
obrigação.
Uma análise do estudo POSITIVE,
publicada em 2025 no Journal of Clinical Oncology, avaliou a amamentação
entre mulheres com câncer de mama inicial com receptores hormonais positivos.
Das 313 participantes elegíveis para essa análise, que tiveram filhos durante o
estudo e não haviam sido submetidas à mastectomia bilateral, 196 amamentaram, o
equivalente a 62,6%.
No período de 24 meses após o primeiro
nascimento ocorrido durante o estudo, a incidência acumulada de eventos de
câncer de mama foi de 3,6% entre as mulheres que amamentaram e de 3,1% entre
aquelas que não amamentaram. Os pesquisadores não identificaram, nesse
acompanhamento inicial, um sinal de piora dos resultados oncológicos associado
à amamentação.
Os resultados são encorajadores, mas
precisam ser interpretados com cautela. A decisão de amamentar não foi
determinada de forma aleatória entre as participantes, e o período de
acompanhamento ainda é relativamente curto para avaliar todos os possíveis
riscos em longo prazo. Além disso, os dados dizem respeito a um grupo
específico de mulheres acompanhadas dentro de um protocolo de pesquisa e não
devem ser generalizados para todas as pacientes com histórico de câncer de
mama.
A produção de leite pode ser afetada
A possibilidade de amamentar também
está relacionada ao tipo de tratamento realizado. Cirurgia e radioterapia podem
reduzir ou até impedir a produção de leite na mama tratada, além de interferir
na anatomia da região e na pega do bebê.
Após uma mastectomia, a mama operada
não permite a amamentação, mesmo quando existe reconstrução mamária. Já a mama
que não foi operada pode, em algumas situações, produzir leite suficiente para
alimentar o bebê. Ainda assim, essa possibilidade precisa ser avaliada
individualmente e acompanhada por profissionais de saúde.
Outro ponto importante é que o fim da
quimioterapia não significa necessariamente o encerramento de todo o
tratamento. Algumas mulheres continuam utilizando medicamentos por anos. Por
isso, qualquer planejamento de gravidez, amamentação ou eventual interrupção
temporária da terapia deve ser discutido previamente com a equipe responsável
pelo acompanhamento oncológico.
Nenhum medicamento deve ser suspenso
por conta própria. A interrupção sem orientação pode comprometer o tratamento e
a segurança da paciente.
O bebê também precisa estar no centro
do cuidado
Na pediatria, o foco precisa ser o bebê
real, e não uma expectativa de produção de leite. Avaliar a alimentação, a
pega, o crescimento e o desenvolvimento da criança permite identificar
precocemente se existe necessidade de complementação e adaptar o plano de
cuidados.
Se a amamentação não for possível ou
não for suficiente, a família deve receber orientação sobre uma alternativa
adequada e segura. Isso não diminui a importância do vínculo entre mãe e filho
nem representa uma falha materna.
As experiências dessas mulheres também
precisam fazer parte da discussão. Um estudo de Sella e colaboradores,
publicado em 2025 na revista Cancer, investigou as experiências de
amamentação de mulheres que tiveram filhos após o câncer de mama. Pesquisas
como essa ajudam a ampliar o olhar para além da segurança oncológica,
considerando também as experiências, dificuldades e necessidades de apoio
dessas pacientes.
Planejamento deve começar antes do
nascimento
Sempre que possível, a conversa sobre
amamentação deve começar ainda durante o planejamento da gestação ou antes do
parto. A mulher pode levar suas dúvidas à equipe de saúde, compreender quais
possibilidades se aplicam ao seu caso e estabelecer previamente como será o
acompanhamento depois do nascimento.
Esse planejamento pode fazer diferença
especialmente nos primeiros dias após o parto, período marcado por cansaço,
mudanças hormonais e muitas dúvidas. Ter uma equipe preparada para orientar e
acolher pode evitar que a mulher precise tomar decisões sozinha.
Também é importante evitar a ideia de
que a amamentação representa uma espécie de prova de superação. Algumas
mulheres conseguem amamentar e podem atribuir grande significado a essa
experiência. Outras podem não conseguir, não desejar fazê-lo ou receber
orientação médica para não amamentar. Nenhuma delas precisa provar sua força
por meio da amamentação.
A informação científica deve ampliar as
possibilidades de escolha, e não criar novas cobranças. Depois do câncer de
mama, o projeto de maternidade de cada mulher merece ser ouvido e respeitado.
E, em todas essas decisões, a saúde e a segurança da mãe e do bebê precisam
permanecer no centro do cuidado.
As mães também precisam de colo!
Dra. Marli Rio - pediatra
Outubro Rosa
Referências
[1] Peccatori FA et al. Breastfeeding After Hormone Receptor–Positive Breast Cancer: Results From the POSITIVE Trial. Journal of Clinical Oncology. 2025;43:2712–2719. https://doi.org/10.1200/JCO-24-02697
[2] American Cancer Society. Pregnancy and Breastfeeding After Breast Cancer. Revisão médica com contribuição da ASCO. Atualização de 17 de julho de 2026.
[3] Johnson HM et al. Oncolactation for Patients with Breast Cancer. Annals of Surgical Oncology. 2025;32:8720–8727. https://doi.org/10.1245/s10434-025-17742-7
[4] Sella T et al. Breastfeeding experiences among young breast cancer survivors: A survey study. Cancer. 2025;131:e35585. https://doi.org/10.1002/cncr.35585
Dra. Marli Rio | Outubro Rosa

Nenhum comentário:
Postar um comentário