Neurologista Dr. Saulo Nader, o Doutor Tontura, explica como o rimegepanto atua na via do CGRP e por que a chegada dos gepantes amplia as possibilidades de tratamento para quem convive com crises incapacitantes
Dor que
começa de um lado da cabeça, sensibilidade intensa à luz, náusea, necessidade
de interromper o trabalho e se trancar em um quarto escuro. Para quem sofre com
enxaqueca, uma crise pode significar horas - e algumas vezes dias - longe da
rotina, da família e das atividades profissionais.
Uma nova
opção acaba de ampliar o arsenal disponível no Brasil.
A Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o Nurtec ODT, cujo princípio
ativo é o rimegepanto, medicamento indicado para adultos tanto no tratamento
agudo da enxaqueca, com ou sem aura, quanto na prevenção da enxaqueca episódica
em pacientes com pelo menos quatro crises mensais.
Para o Dr.
Saulo Nader, médico neurologista conhecido como Doutor Tontura, a aprovação
representa mais uma etapa importante na evolução do tratamento de uma doença
que pode comprometer profundamente a qualidade de vida.
“A enxaqueca
é, sem dúvida, uma das doenças que mais incapacitam os pacientes. Eu vejo
pessoas brilhantes vivendo com medo constante e paralisante da próxima crise,
perdendo produtividade e momentos preciosos com a família”, afirma o
neurologista.
POR QUE FOI PRECISO BUSCAR NOVOS TRATAMENTOS?
Durante
décadas, explica Dr. Saulo Nader, o tratamento das crises ficou concentrado
principalmente no uso de analgésicos e, posteriormente, em medicamentos
específicos como os triptanos.
O problema
do uso frequente de analgésicos é que ele próprio pode contribuir para outro
quadro: a chamada cefaleia por uso excessivo de medicamentos.
“Quando a
pessoa usa analgésicos com muita frequência, pode entrar em um ciclo em que o
próprio uso repetido da medicação passa a contribuir para novas dores de
cabeça. É um ciclo muito difícil para o paciente”, explica o médico.
Os triptanos
representaram um avanço importante no tratamento da enxaqueca, mas possuem
limitações e contraindicações para determinados pacientes, especialmente em
algumas condições cardiovasculares.
“Era
necessário desenvolver medicamentos cada vez mais direcionados à própria
biologia da enxaqueca, atuando de maneira específica nas vias relacionadas à
crise”, ressalta Dr. Saulo Nader.
CGRP: UMA DAS CHAVES PARA ENTENDER A ENXAQUECA
É justamente
nesse ponto que entra o CGRP - peptídeo relacionado ao gene da calcitonina.
Essa molécula
participa de mecanismos envolvidos na transmissão da dor e na fisiopatologia da
enxaqueca.
Segundo o
neurologista, compreender o papel do CGRP permitiu desenvolver medicamentos
voltados especificamente para essa via.
“O que a
ciência passou a entender melhor é que, durante a crise, existe participação
importante do CGRP na cascata relacionada à dor da enxaqueca. A partir daí, foi
possível criar tratamentos capazes de bloquear essa via de maneira muito mais
específica”, explica o médico.
O rimegepanto
pertence ao grupo dos gepantes, medicamentos que atuam como antagonistas do
receptor de CGRP.
“O medicamento
funciona como uma espécie de escudo nesses receptores. Ele impede que o CGRP
exerça sua ação naquela via e, dessa maneira, interfere em uma etapa importante
do mecanismo da crise”, compara Dr. Saulo Nader.
Para o
neurologista, essa especificidade representa uma das principais diferenças em
relação a tratamentos mais antigos.
“Em vez de
utilizar apenas um analgésico genérico para tentar controlar a dor, passamos a
ter uma medicação desenhada para atuar em um mecanismo relacionado diretamente
à enxaqueca.”
UM MESMO MEDICAMENTO PARA A CRISE E PARA A
PREVENÇÃO
Uma das
características destacadas pelo médico é justamente a dupla indicação.
O
rimegepanto pode ser utilizado para o tratamento agudo de uma crise já iniciada
e também, quando indicado pelo neurologista, para a prevenção da enxaqueca
episódica.
A própria
Anvisa aprovou as duas indicações para adultos; no uso preventivo, a indicação
registrada contempla pacientes com pelo menos quatro crises mensais.
“Isso traz
uma versatilidade importante. Estamos falando de uma mesma molécula que pode
participar tanto do manejo da crise quanto de uma estratégia preventiva,
dependendo do perfil e da indicação de cada paciente”, ressalta Dr. Saulo
Nader.
COMPRIMIDO QUE SE DISSOLVE NA BOCA
Outro
diferencial é a apresentação orodispersível.
O comprimido
é colocado sobre a língua e se dissolve na boca, sem necessidade de água.
Para quem
sofre com enxaqueca, essa característica pode fazer diferença porque náuseas e
vômitos são sintomas frequentes durante as crises.
“Imagine o
paciente que está em uma crise intensa, com muita náusea ou até vomitando. Ter
uma formulação que se dissolve na boca, sem precisar tomar o comprimido
acompanhado de água, pode facilitar muito a administração naquele momento”,
explica o médico.
UMA ALTERNATIVA QUE NÃO AGE POR VASOCONSTRIÇÃO
Dr. Saulo
Nader também chama atenção para outra característica dos gepantes: eles não
tratam a enxaqueca por meio do mesmo mecanismo vasoconstritor associado aos
triptanos.
“Esse é um
ponto muito relevante dessa nova classe. O mecanismo está ligado ao bloqueio da
via do CGRP, e não à vasoconstrição generalizada”, ressalta o neurologista.
Isso não
significa, entretanto, que o medicamento possa ser utilizado
indiscriminadamente.
“É uma
medicação que precisa de indicação médica. Cada paciente tem histórico clínico,
outras doenças, outros medicamentos em uso e uma frequência diferente de
crises. A escolha precisa ser individualizada”, reforça Dr. Saulo Nader.
O TRATAMENTO DA ENXAQUECA NÃO SE RESUME A UM
ÚNICO REMÉDIO
Apesar do
entusiasmo com novas opções terapêuticas, o neurologista ressalta que não
existe um tratamento único que sirva para todas as pessoas.
Hoje, diferentes
estratégias podem fazer parte do manejo da enxaqueca, incluindo medicamentos
para as crises, tratamentos preventivos, toxina botulínica em situações
específicas, anticorpos monoclonais direcionados à via do CGRP e outras
abordagens indicadas conforme o perfil do paciente.
“Não existe
uma receita única. Nós temos um grupo cada vez maior de tratamentos e o papel
do neurologista é entender a frequência das crises, o impacto na vida do
paciente, as doenças associadas e aquilo que já foi tentado para definir a
melhor estratégia”, explica o médico.
NÃO É PRECISO SE CONFORMAR COM CRISES
INCAPACITANTES
Para Dr.
Saulo Nader, um dos principais recados da aprovação é lembrar ao paciente que o
tratamento da enxaqueca evoluiu.
“A pessoa
não precisa simplesmente aceitar que vai perder vários dias do mês por causa da
dor ou continuar insistindo em um tratamento que deixou de funcionar. Vale
conversar abertamente com o neurologista sobre a frequência das crises e sobre
o impacto real que elas causam no trabalho, na família e na qualidade de vida”,
reforça.
A
atualização do tratamento, entretanto, deve sempre acontecer em consulta
médica.
“A medicina está ganhando novas ferramentas. O mais importante é utilizá-las com indicação correta, entendendo quem realmente pode se beneficiar de cada uma delas”, conclui Dr. Saulo Nader.
Fonte: Dr. Saulo Nader - médico neurologista conhecido como Doutor Tontura @doutortontura, com atuação em tontura, vertigem, desequilíbrios e neurologia. Site: https://www.neurologiaepsiquiatria.com.br/
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