Especialistas destacam que prevenção do declínio cognitivo começa antes da velhice e envolve hábitos, saúde física, relações sociais e estímulos ao longo das diferentes fases da vida
O
Brasil já soma 36,6 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, segundo dados do
Ministério da Saúde divulgados em setembro de 2026. O número deve chegar a 61,5
milhões nas próximas duas décadas, trazendo para o centro do debate não apenas
o aumento da longevidade, mas também as condições em que as pessoas estão
envelhecendo. No Dia Internacional da Pessoa Idosa, celebrado em 1º de outubro,
o tema sobre longevidade ganha ainda mais relevância. Especialistas chamam a
atenção para um ponto que muitas vezes fica em segundo plano: os cuidados com a
saúde cognitiva não começam na velhice. Eles são construídos ao longo de toda a
vida e envolvem fatores como atividade física, alimentação, sono, controle de
doenças crônicas, estímulo intelectual, vínculos sociais e acompanhamento
médico.
A
relação entre longevidade e saúde cognitiva foi um dos temas discutidos no 8º
Despertando a Sociedade para a Saúde do Cérebro 2026, realizado
pelo Supera, rede de estimulação cognitiva, em parceria com a ABG (Associação
Brasileira de Gerontologia). Confira os 7 caminhos para envelhecer com mais
saúde e preservar o cérebro.
1 – Níveis de impacto
– O evento trouxe uma diferenciação importante entre Comprometimento Cognitivo
Leve (CCL) e Demência. No primeiro, existe uma queda cognitiva além do esperado
(esquecimentos recorrentes), mas as pessoas conseguem manter suas atividades do
dia a dia. No segundo, o declínio passa a interferir na independência e ações
cotidianas (como organizar os próprios remédios e dirigir), conforme explica o Dr. Marcelo
Houat, Neurologista especializado em Neurologia Cognitiva e
do Comportamento; médico do GNCC e do CEREDIC do HCFMUSP. O médico
ressaltou ainda que o Alzheimer é a principal causa de demência, mas não a
única.
2 – Diagnóstico – Apesar do
declínio cognitivo e o Alzheimer serem mais comuns com o avanço da idade, a
realização de um diagnóstico é fundamental para um melhor tratamento. Segundo o
Dr. Hoaut, esse diagnóstico é multifatorial e abrange
quatro aspectos principais: entender a história do paciente (com o apoio
da família e cuidador), avaliação cognitiva e de funcionalidades (testes
e impactos no dia a dia), procura de causas tratáveis e agravantes (com
exames de sangue e análise clínica) e investigar a estrutura do cérebro
(com ressonância ou tomografia). O médico aponta ainda marcadores específicos
para Alzheimer, mas com análise sempre em conjunto com outros indicadores.
3 – Cuidados e Fases da vida – Um cérebro se protege (ou se desgasta) a vida inteira, conforme
ressaltou a Dra. Sumika Mori Lin, Médica geriatra; coordenadora
do Ambulatório de Fragilidade do HCFMUSP e da equipe de Geriatria do Hospital
Santa Cruz. Na Infância/juventude, o fundamental é uma educação para a
construção de reserva cognitiva (recursos neurais acumulados pelo cérebro).
Já a meia-idade é a fase mais decisiva que demanda atenção a aspectos como
audição, colesterol, pressão alta, diabetes, obesidade, tabagismo, excesso de
álcool, depressão, sedentarismo e traumatismo na cabeça. Na longevidade, os
principais desafios são o isolamento social, poluição do ar e descuido com a
visão. “Nunca é cedo, nem tarde demais. Cada fase da vida tem o seu ganho:
construir reserva quando jovem, proteger os vasos na meia-idade, manter corpo,
sentidos e vínculos na velhice”, resumiu a Dr. Sumika.
4 – Medicina do Estilo de Vida – “Sabe quem é dono de sua saúde? Não é o médico, não é o hospital, não é
o laboratório. É você mesmo. As decisões que você toma perante si são
responsáveis por quase metade dos casos de Alzheimer”, disse a Dra. Sumika
para introduzir o conceito de Medicina do Estilo de Vida que, basicamente,
consiste no uso de hábitos cotidianos para prevenir e tratar doenças. No campo
da prevenção ao declínio cognitivo e Alzheimer, a especialista elencou seis
aspectos fundamentais que podemos atuar (outros como a hereditariedade
não podemos influir): Alimentação, Atividade Física, Qualidade do Sono,
Manejo do Estresse, Vínculos Sociais e Evitar Substâncias de Risco (como álcool
e cigarro).
5 – O que perdemos e o que ganhamos com o envelhecimento – O passar dos anos traz impactos cognitivos, a
exemplo da diminuição da velocidade do raciocínio com mudanças sutis já a
partir da década dos 30 anos (Salthouse, 2019), conforme alerta a Dra. Sharon
Simon, psicóloga e neurocientista, professora assistente de
Psiquiatria na Universidade Rutgers, com pós-doutorado na Universidade Columbia.
Outros reflexos desse declínio são aumento da distração, divisão da atenção
e menor memória operacional (capacidade de manipular informações mentalmente).
Ao contrário da percepção comum, a neurocientista ressalta também que o
envelhecimento traz ganhos, com destaque para o ganho de vocabulário e
linguagem, “sabedoria social” (leitura emocional), tomada de decisão (conectar
perspectivas, junto a análise de ganhos e perdas) e a manutenção de alguns
tipos de memória (semântica, episódica). “Mas queixas de memória não significam
doenças de memória de fato. Elas podem estar associadas a atenção, estresse,
depressão ansiedade, sono etc. Em caso de dúvida, buscar avaliação é
fundamental”, diz a Dra. Sharon.
6 – O desafio da multitarefa
– O evento abordou ainda uma das principais “dores” do mundo digitalizado: a
realização de “várias atividades ao mesmo tempo”, o conhecido multitask. A Dra. Sharon
explica que o cérebro não processa duas atividades cognitivas
complexas simultaneamente (como acompanhar duas reuniões), o que acaba
provocando distração, erros e perda de velocidade, mas que é possível um
processo de alternância rápida entre tarefas. A especialista compartilhou
algumas dicas de como lidar melhor com este processo, a exemplo de evitar ao
máximo estar no modo crônico multitarefa (que gera desgastes e equívocos),
refletir sobre o foco de sua atenção (metacognição), priorizar (com
planejamento e escolha), o uso de calendários e lembretes, aplicar a tecnologia
a seu favor, a tão falada capacidade de se desconectar (e dizer não a
distração), dentre outros.
7 – O exemplo do Centro Dia – O Brasil dispõe de uma política nacional de atenção a demência e Alzheimer e um dos destaques é o Centro Dia Synval Santos, de Volta Redonda (RS). O centro, que já foi premiado e é referência no País, funciona em um prédio de dois andares, com moderna construção inaugurada em 2014. Os usuários frequentam em média três vezes por semana e tem transporte gratuito de ida e volta. O trabalho de atendimento é coletivo, contando com uma equipe multidisciplinar qualificada, formada por técnicos e cuidadores que a todo tempo acompanham os idosos, incluindo o oferecimento de cinco refeições por dia. Para estimular a capacidade, eles participam de diversas atividades coletivas e individuais (arte, dança, artesanato, estudos etc.). A família também recebe orientação. Com isso, os idosos recebem atenção e estímulo, mas mantém os vínculos familiares, com ótimos resultados.
Para Luiz Moraes, diretor institucional do Supera e um dos curadores do evento, “Hoje a ciência já consegue diagnosticar precocemente a demência e a doença de Alzheimer. Logo, é importante ressaltar: enquanto não houver cura, a prevenção não é uma das opções, é a única. Essa é a proposta do Supera, levar informação para que nós possamos trabalhar o aspecto da prevenção”.
Como parte das discussões em torno do Dia Internacional da Pessoa Idosa, o Supera promove, às 19h, a conversa online sobre “Longevidade no Brasil: o envelhecer de cada um”. O encontro reunirá três perspectivas diferentes com a proposta de debater como fatores sociais, profissionais, familiares e individuais influenciam as diferentes formas de envelhecer e quais desafios surgem para uma sociedade que terá uma população cada vez mais longeva. Assista no canal do Supera no YouTube.

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