- Levantamento
do Instituto Trata Brasil avalia a presença do compromisso com o
saneamento nos planos de governo dos candidatos com maior probabilidade de
serem eleitos ou de disputar o segundo turno;
- Os 13 planos abrangentes estão distribuídos por 12 estados. Pernambuco é a única UF em que os dois planos incluídos na amostra receberam essa classificação máxima;
- Os
cinco planos classificados como superficiais, que abordam apenas um dos
quatro eixos, aparecem no Amazonas, no Acre, no Maranhão, no Rio de
Janeiro e em Santa Catarina;
- A
pauta entrou no debate eleitoral, mas ainda precisa ganhar maior
profundidade, metas verificáveis e instrumentos de acompanhamento.
O Instituto Trata Brasil, em parceria com a GO Associados, lança a primeira edição do "Estudo sobre as Eleições de 2026: o Comprometimento dos Candidatos a Governador com o Saneamento". A pesquisa analisa o comprometimento dos candidatos com as pautas de saneamento em seus planos de governo, com destaque para os serviços de abastecimento de água, esgotamento sanitário e drenagem.
Com cerca de 33 milhões de brasileiros sem acesso à água tratada e quase 90 milhões sem coleta de esgoto, o levantamento chega em um momento decisivo. Faltam sete anos para 2033, prazo definido para a universalização do saneamento no país, e as eleições de 2026 ocorrem em uma janela importante, já que o mandato 2027–2030 será decisivo para o avanço do setor no país.
Mais
do que analisar documentos, o intuito da pesquisa é identificar em que medida
os candidatos competitivos aos governos estaduais incorporaram, em seus
programas, compromissos com a agenda de saneamento básico. A leitura dos
resultados permitirá observar três dimensões principais:
- Presença do tema: avalia
se o tema saneamento aparece ou não como parte da agenda programática dos
candidatos;
- Profundidade da abordagem: mensura
a aderência dos planos aos eixos e propostas definidos na metodologia; e
- Aderência ao déficit local: analisa
a relação entre o comprometimento manifesto nos planos e a realidade do
déficit de saneamento enfrentado pela população em cada recorte
territorial.
A avaliação do estudo se limita ao conteúdo dos planos de governo e ao
grau de comprometimento com a agenda de saneamento básico, sem intuito de
defender, favorecer ou recomendar qualquer partido ou candidatura.
COMO FORAM
AVALIADOS OS PLANOS DE GOVERNO?
Para análise dos planos de governo, o estudo considera os candidatos que têm a maior probabilidade de serem eleitos ou de disputar o segundo turno, permitindo atribuir maior responsabilidade pública aos candidatos com base naquilo que se comprometeram em seus respectivos planos[1].
Com relação à escolha das pesquisas de intenção de voto, elegeu-se o levantamento realizado pela Quaest por ser o único dos institutos de grande porte com a capilaridade necessária para a geração de dados em quase[2] todos os estados. Para isso, como recorte temporal, foram utilizadas as primeiras rodadas de pesquisas de intenção de voto para os governos estaduais[3], divulgadas entre 22 de agosto e 4 de setembro de 2026.
Quadro 1: Número de Candidatos Competitivos
Selecionados por Estado
|
UF |
Estado |
Número de Candidatos |
|
AC |
Acre |
3 |
|
AL |
Alagoas |
2 |
|
AM |
Amazonas |
3 |
|
AP |
Amapá |
2 |
|
BA |
Bahia |
2 |
|
CE |
Ceará |
2 |
|
DF |
Distrito Federal |
3 |
|
ES |
Espírito Santo |
2 |
|
GO |
Goiás |
2 |
|
MA |
Maranhão |
2 |
|
MG |
Minas Gerais |
3 |
|
MS |
Mato Grosso do Sul |
2 |
|
MT |
Mato Grosso |
3 |
|
PA |
Pará |
2 |
|
PB |
Paraíba |
3 |
|
PE |
Pernambuco |
2 |
|
PI |
Piauí |
2 |
|
PR |
Paraná |
2 |
|
RJ |
Rio de Janeiro |
2 |
|
RN |
Rio Grande do Norte |
3 |
|
RO |
Rondônia |
3 |
|
RR |
Roraima |
2 |
|
RS |
Rio Grande do Sul |
2 |
|
SC |
Santa Catarina |
2 |
|
SE |
Sergipe |
2 |
|
SP |
São Paulo |
2 |
|
TO |
Tocantins |
2 |
|
BR |
Brasil |
62 |
Fonte: Laakso e Taagepera
(1979); Quaest (2026); Datafolha (2026). Elaboração: GO Associados
Ao
todo, foram considerados os 26 estados e o Distrito Federal, resultando numa
amostra total de 62 candidatos. Todos os planos foram obtidos diretamente
através do sítio eletrônico do TSE, adotando como recorte temporal o dia 15 de
setembro de 2026 para viabilizar a análise antes do primeiro
turno das eleições.
Cabe
ressaltar que, na data do levantamento, algumas propostas constavam como
versões preliminares na plataforma oficial. Assim, eventuais alterações ou
atualizações realizadas após essa data não estarão refletidas nos resultados do
estudo.
Para
avaliação de cada um desses planos, foram consideradas as diretrizes definidas
na plataforma Voto no Saneamento[4], desenvolvida pelo Instituto Trata Brasil.
Desta forma, foram escolhidos quatro eixos e nove propostas que um plano de
governo precisa reunir para o avanço dos serviços de saneamento básico.
Quadro 2: Eixos e Propostas
Relevantes em Saneamento Básico
|
Eixo |
Título |
Propostas |
|
Eixo I |
Planejar,
regionalizar e coordenar para a universalização |
Proposta I: Avançar na regionalização do
saneamento para integrar municípios e viabilizar investimentos. Proposta II: Planejar a universalização com metas
regionais, prioridades de investimento e inclusão de áreas rurais e
informais. |
|
Eixo II |
Viabilizar investimentos e
superar gargalos para a universalização |
Proposta I:
Viabilizar o acesso efetivo das famílias de baixa renda às redes de água e
esgoto, com foco em conexão, tarifa social e inclusão de territórios urbanos
vulneráveis. Proposta II:
Apoiar o saneamento rural e o atendimento de comunidades isoladas com
soluções adequadas, sustentáveis e adaptadas à realidade local. Proposta III:
Mobilizar instrumentos estaduais de apoio e financiamento para acelerar a
universalização e destravar investimentos prioritários. |
|
Eixo III |
Governança e
regulação do saneamento básico |
Proposta I: Fortalecer institucionalmente a
agência reguladora estadual. Proposta II: Estruturar e incentivar a regulação
dos serviços de drenagem urbana. Proposta III: Estruturar e integrar a governança
de dados e informações do saneamento. |
|
Eixo IV |
Metas tangíveis |
N/A |
O
estudo verifica se os planos dos candidatos atendem cada uma dessas nove propostas.
Com relação ao eixo de Metas Tangíveis, foi avaliado se os candidatos se
comprometiam com metas objetivas, estruturais e verificáveis ao final do
mandato.
Os
planos foram classificados em quatro categorias distintas, a depender do número
de eixos atendidos. Cabe notar que, para que um eixo seja considerado atendido,
basta que uma única proposta desse eixo seja abordada no plano. Ou seja, o
critério é permissivo na medida em que permite a atribuição de "nota
máxima" a planos que tenham atendido a somente quatro das nove propostas,
desde que cada uma esteja contemplada em cada um dos quatro eixos definidos.
Quadro 3: Categorias de Classificação por Eixos Atendidos
|
Abordagem |
Cor |
Critério de Classificação |
|
1. Ausente |
Vermelho |
Não menciona o tema de saneamento em
nenhum trecho da proposta. |
|
2. Superficial |
Laranja |
Desenvolve apenas um dos quatro eixos
com profundidade suficiente para ser considerado atendido, sem estender essa
abordagem aos demais eixos. |
|
3. Transversal |
Amarelo |
Desenvolve dois ou três dos quatro
eixos (os três temáticos e/ou a meta tangível), sem alcançar a cobertura
simultânea dos quatro. |
|
4. Abrangente |
Verde |
Desenvolve todos os eixos, incluindo
comprometimento com metas tangíveis. |
Uma
vez classificados os planos, essas informações foram cruzadas com os principais
indicadores de saneamento básico dos respectivos estados, extraídos da última
edição do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento Básico (SINISA),
referentes ao ano de 2024.
PANORAMA
NACIONAL
Dos 62 planos de governo avaliados, 5 tiveram a abordagem classificada como superficial, por abordar somente um dos eixos; 44 (mais de 70%) tiveram abordagem classificada como transversal, sendo que 15 abordaram somente dois eixos, enquanto 29 abordaram três eixos, e 13 tiveram abordagem classificada como abrangente, por abordarem todos os quatro eixos.
Entre
as propostas mais abordadas nos planos de governo, a de
universalização foi a que mais apareceu, sendo mencionada em 54 (87%) dos 62
planos. O resultado é o esperado, visto
que as metas têm limite legal previsto para 2033 – prazo que se concretizará no
próximo ciclo eleitoral.
Quadro 4: Eixos e Propostas Mais Abordados
![]() |
| Fonte: TSE (2026). Elaboração: GO Associados |
Por outro lado, as propostas com menos menções foram as de governança de dados e informações de saneamento básico e de metas tangíveis, aparecendo em 15 (24%) e 16 (26%) dos planos de governo, respectivamente. Este último resultado era esperado, visto que um comprometimento com propostas concretas envolve um nível de aprofundamento no tema que poucos candidatos estão dispostos a assumir.
O
retrato nacional do estudo mostra um avanço importante, mas ainda incompleto. O
saneamento básico aparece em todos os planos avaliados. A presença do assunto,
porém, não significa necessariamente compromisso estruturado.
Em conjunto, os resultados permitem destacar três características principais da
abordagem do saneamento nos planos de governo analisados:
- Abordagem transversal: a
maior parte dos planos trata a agenda de forma transversal, abordando dois
ou três dos quatro eixos analisados.
- Classificação abrangente: apenas
13 candidatos, ou 21%, alcançam a classificação atingindo os quatro eixos
analisados.
- Retrato nacional: a
pauta entrou no debate eleitoral, mas ainda precisa ganhar maior
profundidade, metas verificáveis e instrumentos de acompanhamento.
PANORAMA REGIONAL
A
análise regional busca identificar se o padrão nacional se sustenta de forma
homogênea pelo território ou se há variação relevante entre as regiões. O
quadro abaixo contrasta o nível médio de comprometimento dos planos de governo
entre as cinco macrorregiões brasileiras, com os respectivos indicadores do
SINISA (2024): atendimento de água, coleta de esgoto, tratamento de esgoto e
investimento por habitante.
Quadro 5: Comprometimento
Médio e Indicadores SINISA, por Região
|
Região |
Média Simples |
Atendimento Total de Água |
Atendimento Total de Esgoto |
Tratamento Total de Esgoto |
Investimento por Habitante |
|
Nordeste |
2,95 |
73,70 |
35,90 |
34,63 |
R$ 73,57 |
|
Sul |
2,83 |
88,32 |
57,72 |
46,56 |
R$ 122,50 |
|
Sudeste |
2,78 |
92,11 |
81,94 |
62,33 |
R$ 129,38 |
|
Norte |
2,71 |
62,81 |
24,65 |
22,49 |
R$ 56,31 |
|
Centro-Oeste |
2,70 |
89,71 |
68,31 |
54,74 |
R$ 116,56 |
|
Região |
Média Simples |
Atendimento Total de Água |
Atendimento Total de Esgoto |
Tratamento Total de Esgoto |
Investimento por Habitante |
|
Nordeste |
2,95 |
73,70 |
35,90 |
34,63 |
R$ 73,57 |
|
Sul |
2,83 |
88,32 |
57,72 |
46,56 |
R$ 122,50 |
|
Sudeste |
2,78 |
92,11 |
81,94 |
62,33 |
R$ 129,38 |
|
Norte |
2,71 |
62,81 |
24,65 |
22,49 |
R$ 56,31 |
|
Centro-Oeste |
2,70 |
89,71 |
68,31 |
54,74 |
R$ 116,56 |
É possível observar que o comprometimento dos candidatos competitivos com o saneamento não acompanha a situação real do setor em cada região, o que impede a identificação de um padrão regional simples.
Em
primeiro lugar, a região Nordeste apresenta o maior comprometimento médio
nacional (2,95), mesmo que apresente os segundos piores indicadores do SINISA.
A região Sudeste, que apresenta os melhores patamares nos indicadores citados,
ocupa a terceira posição em comprometimento médio dos candidatos (2,78). Por
outro lado, a região Norte, que apresenta os piores indicadores de saneamento
apresentados, aparece como a penúltima média em comprometimento (2,71). Por
fim, o Centro-Oeste acentua esse descolamento, sendo o detentor da segunda
melhor posição para a cobertura de água, coleta e tratamento de esgoto do país,
ao mesmo tempo que registra a menor média entre as cinco regiões (2,70).
A análise regional
permite destacar os seguintes pontos principais:
- Heterogeneidade regional não possui um padrão
simples: o comprometimento com o saneamento não se
distribui de forma homogênea pelo país, mas também não segue um padrão
regional único ou direto.
- Descolamento do déficit regional: não
há evidência clara de que regiões com maiores déficits apresentem planos
mais robustos, nem de que regiões com melhores indicadores deixem o tema
em segundo plano.
- Centralidade do debate: o
resultado sugere que a agenda de saneamento depende menos da localização
geográfica, isoladamente considerada, e mais da forma como cada disputa
eleitoral e cada candidatura incorporam o tema em seus programas.
PANORAMA
ESTADUAL
Para
ilustrar os resultados da avaliação para o nível estadual, o mapa abaixo
apresenta a classificação média para cada uma das 27 UFs, permitindo uma
leitura visual imediata da distribuição espacial do comprometimento dos
candidatos competitivos com o saneamento.
MAPA 1: Comprometimento Médio,
por Estado

Fonte: TSE (2026). Elaboração: GO Associados.
Assim
como observado no panorama regional, não se encontra um padrão claro por região
para a classificação dos planos de governo. Há alguma concentração de
classificações mais elevadas nos estados do Nordeste e do Sudeste, com destaque
para Pernambuco (o único caso que obteve nota máxima, com ambos os planos
classificados como abrangentes), Piauí, São Paulo e Espírito Santo.
Quadro 6: Comprometimento Médio e Indicadores do SINISA (2024)
|
UF |
Comprometimento Médio |
Atendimento Total de Água |
Atendimento Total de Esgoto |
Tratamento Total de Esgoto |
Investimento |
|
PE |
4,00 |
71,56 |
29,35 |
28,35 |
R$ 77,84 |
|
BA |
3,50 |
83,40 |
43,99 |
46,99 |
R$ 77,22 |
|
ES |
3,50 |
78,12 |
57,11 |
46,08 |
R$ 164,42 |
|
PI |
3,50 |
92,33 |
54,23 |
16,83 |
R$ 60,53 |
|
PR |
3,50 |
89,49 |
77,51 |
77,56 |
R$ 142,39 |
|
SP |
3,50 |
97,36 |
93,28 |
72,86 |
R$ 150,66 |
|
AL |
3,50 |
73,27 |
22,32 |
47,32 |
R$ 87,44 |
|
DF |
3,33 |
97,45 |
91,77 |
81,26 |
R$ 89,99 |
|
RO |
3,33 |
53,51 |
13,28 |
17,42 |
R$ 68,62 |
|
PA |
3,00 |
51,56 |
19,11 |
17,45 |
R$ 32,90 |
|
PB |
3,00 |
59,45 |
38,61 |
40,46 |
R$ 74,05 |
|
RS |
3,00 |
86,17 |
47,78 |
25,39 |
R$ 109,03 |
|
SE |
3,00 |
93,74 |
51,63 |
37,67 |
R$ 77,55 |
|
TO |
3,00 |
84,23 |
37,02 |
35,33 |
R$ 157,09 |
|
AM |
2,67 |
81,28 |
32,26 |
13,10 |
R$ 69,31 |
|
MT |
2,67 |
86,67 |
53,09 |
28,52 |
R$ 123,53 |
|
RN |
2,67 |
76,38 |
31,41 |
35,02 |
R$ 70,22 |
|
AP |
2,50 |
71,29 |
9,29 |
15,72 |
R$ 82,50 |
|
GO |
2,50 |
88,83 |
66,32 |
62,31 |
R$ 109,93 |
|
AC |
2,33 |
44,27 |
11,04 |
25,06 |
R$ 14,95 |
|
MG |
2,33 |
83,53 |
78,43 |
47,08 |
R$ 83,96 |
|
CE |
2,00 |
72,17 |
32,60 |
32,75 |
R$ 94,54 |
|
MS |
2,00 |
87,84 |
63,65 |
45,64 |
R$ 151,45 |
|
RR |
2,00 |
76,92 |
64,41 |
90,62 |
R$ 31,45 |
|
RJ |
2,00 |
92,04 |
61,47 |
51,18 |
R$ 120,43 |
|
SC |
2,00 |
89,56 |
35,89 |
31,82 |
R$ 112,11 |
|
MA |
1,50 |
53,68 |
27,39 |
12,24 |
R$ 32,37 |
A leitura conjunta do comprometimento médio dos candidatos e dos indicadores do SINISA reforça a ausência de uma relação sistemática entre a situação da infraestrutura de saneamento e a atenção dedicada ao tema nos planos de governo. Estados com níveis semelhantes de comprometimento apresentam realidades muito distintas. Um exemplo é o contraste entre o Distrito Federal e Rondônia, que compartilham a mesma média (3,33), mas apresentam resultados muito diferentes nos indicadores do SINISA.
A mesma falta de correspondência aparece quando se observam os extremos. Pernambuco é o único estado a alcançar a média máxima de comprometimento, de 4,00, embora menos de 30% do esgoto seja coletado e tratado. Em sentido semelhante, alguns dos déficits mais graves do país não estão associados às menores médias de comprometimento. O Acre, que apresenta o menor atendimento de água (44,27%) e o menor investimento médio por habitante (R$ 14,95), registra média de 2,33.
O Maranhão, por sua vez, constitui um caso em que baixo comprometimento e indicadores desfavoráveis aparecem simultaneamente. O estado registra a menor média de comprometimento entre as 27 unidades da Federação (1,50) e o menor percentual de esgoto tratado do país (12,24%). Além disso, apresenta o 3º menor investimento médio por habitante (R$ 32,37), o 4º menor atendimento de água (53,68%) e o 6º menor atendimento de esgoto (27,39%). Esse caso, contudo, não altera o padrão mais amplo observado no conjunto dos estados.
Em
outras palavras, apesar de casos pontuais em que maior déficit e menor
comprometimento aparecem associados, não há evidência de que os candidatos direcionem
maior comprometimento com o saneamento em função da gravidade do déficit local,
nem no sentido de priorizar os estados com pior infraestrutura, nem no de
negligenciar aqueles já mais avançados.
PANORAMA POR CANDIDATURAS
Para a análise das candidaturas, optou-se por não identificar nominalmente os candidatos, uma vez que o objetivo do estudo é avaliar a presença do saneamento nos programas eleitorais, sem recomendar o voto.
Dos 62 planos de governo analisados, 13 (21%) apresentaram planos classificados como abrangentes, o que significa que o documento teve ao menos uma proposta considerada atendida em cada um dos três eixos temáticos da metodologia e incluiu pelo menos uma meta tangível relacionada ao abastecimento de água, ao esgotamento sanitário ou à drenagem urbana. A categoria indica, portanto, a cobertura dos quatro eixos avaliados, sem significar que o plano tenha contemplado integralmente todas as propostas do Estudo.
Conforme
já destacado, a classificação considera exclusivamente o conteúdo dos planos de
governo disponíveis até 15 de setembro de 2026 e não contempla eventuais
atualizações posteriores.
MAPA 2: Classificação dos Planos por Candidatura e
UF
![]() |
| (*) Cada ponto representa uma candidatura Fonte: TSE (2026). Elaboração: GO Associados |
A
maior parte dos planos avaliados foi classificada como transversal, com 44
casos, enquanto a abordagem superficial foi a menos frequente, presente em
apenas 5 casos. A abordagem transversal é predominante em todas as regiões,
chegando a 90% dos planos no Centro-Oeste, enquanto a superficial aparece com
menor frequência, mais presente no Sul (17%) e ausente no próprio Centro-Oeste.
Os
13 planos classificados como abrangentes estão distribuídos por 12 estados.
Pernambuco é a única UF em que os dois planos incluídos na amostra receberam
essa classificação máxima. O resultado mostra que a cobertura dos quatro eixos,
embora ainda minoritária no conjunto nacional, não está restrita a uma única
disputa estadual ou região do país.
Quadro 7: Distribuição dos
Planos por Classificação e Região
|
Região |
Abrangente (%) |
Transversal (%) |
Superficial (%) |
Total de Candidaturas Competitivas |
|
Nordeste |
30% |
65% |
5% |
20 |
|
Sul |
17% |
67% |
17% |
6 |
|
Sudeste |
22% |
67% |
11% |
9 |
|
Norte |
18% |
71% |
12% |
17 |
|
Centro-Oeste |
10% |
90% |
0% |
10 |
O
Nordeste reúne o maior número de planos abrangentes, com seis casos entre as 20
candidaturas selecionadas na região, equivalentes a 30%. Em seguida aparecem o
Sudeste, com dois casos entre nove candidaturas, ou 22%. A região Norte
apresenta três entre 17, ou 18%, o Sul, com um entre seis, ou 17%; e o
Centro-Oeste, com um entre dez, ou 10%. Essas diferenças são descritivas e
devem ser interpretadas com a devida cautela, por abranger apenas as
candidaturas consideradas competitivas eleitoralmente.
A
análise dos planos permite identificar alguns padrões relacionados ao perfil
das candidaturas e à relação entre o grau de comprometimento com o saneamento e
a situação dos serviços nos estados. Três resultados merecem destaque:
- Efeito reeleição: entre
os 9 governadores em exercício que buscam a recondução, 4 apresentaram
planos classificados como abrangentes (44%). Entre as demais 53
candidaturas, 8 alcançaram essa classificação (15%). Assim, na amostra
analisada, a proporção de planos abrangentes é quase três vezes maior
entre os candidatos à reeleição;
- Relação com indicadores estaduais: a
classificação dos planos não apresenta correlação estatisticamente
significativa com os indicadores de saneamento dos estados analisados. Em
outras palavras, estados com maiores déficits de atendimento não
apresentam, de forma sistemática, candidaturas com planos mais
abrangentes, em linha com os resultados apresentados nas subseções
anteriores; e
- Presença geral e limitações da análise: os
planos classificados como abrangentes estão presentes em todas as regiões
do país e em contextos distintos de saneamento, mas permanecem
minoritários, representando 21% das candidaturas competitivas analisadas.
Os resultados devem ser interpretados considerando o recorte adotado pelo
estudo, que contempla apenas as candidaturas consideradas competitivas
eleitoralmente.
Ou
seja, os planos abrangentes aparecem em diferentes regiões, contextos
eleitorais e realidades de saneamento, mas ainda representam pouco mais de um
quinto das candidaturas competitivas analisadas.
CONCLUSÃO
Estamos a pouco menos de sete anos dos prazos para o cumprimento das metas de universalização definidas até 2033, ou seja, atender 99% da população com acesso à água e 90% com coleta e tratamento de esgoto. Apesar de o saneamento ter entrado na pauta eleitoral, ele ainda é pouco aprofundado, indicando que o saneamento básico segue sendo tratado como uma política de baixa visibilidade.
Somente 13 (21%) dos planos analisados foram classificados como abrangentes, contemplando os quatro eixos avaliados, inclusive o compromisso com ao menos uma meta tangível, enquanto 44 planos (71%) apresentaram abordagem transversal, contemplando dois ou três dos quatro eixos considerados, e cinco (8%) apresentaram abordagem superficial.
Além disso, apesar de a universalização ter sido a proposta mais presente nos documentos, abordada por 54 dos 62 planos (87%), as metas tangíveis apareceram entre as menos citadas, presentes em apenas 16 planos (26%). O Marco Legal do Saneamento já estabelece o caminho, mas assumi-lo como compromisso concreto no plano de governo é o que permite detalhar o que será feito, quantas pessoas passarão a ter acesso aos serviços básicos e qual será o percentual de cobertura alcançado.
O
estudo também reforça que não foi encontrada relação estatisticamente
significativa entre o comprometimento dos planos de governo e a gravidade do
déficit de saneamento nos estados, medida pelos indicadores do SINISA (2024):
estados com pior cobertura de água e esgoto não recebem, em média, planos mais
desenvolvidos sobre o tema, tampouco os mais avançados negligenciam a pauta com
maior frequência.
A
mensagem central que o estudo deixa para o próximo ciclo eleitoral é a de que o
comprometimento com o saneamento básico não é uma função do tamanho do problema,
mas uma escolha de cada candidato, e escolhas podem ser cobradas. Enquanto o
saneamento permanecer com baixa visibilidade nas urnas, ele continuará
invisível também nas torneiras, nas redes de esgoto e nas vidas de milhões de
brasileiros que ainda esperam por ele.
"O
levantamento busca jogar luz sobre como o tema do saneamento vem sendo abordado
nos planos de governo dos candidatos que assumirão o mandato de 2027 a 2030, um
momento decisivo para a universalização do saneamento, já que o país se
aproxima do prazo limite de 2033. Vemos que a agenda do saneamento entrou nos
planos, o que é um passo importante, mas não basta aparecer somente no papel e
continuar como uma promessa abstrata. Por trás de cada plano de governo estão
milhões de vidas que vivem sem acesso aos serviços básicos. O saneamento vai
além da infraestrutura, é saúde, qualidade de vida e dignidade. Quando o plano
de governo não trata o tema com a magnitude necessária, esse efeito recai no
dia a dia da população” – avalia Luana
Pretto, Presidente-executiva do Instituto Trata Brasil.
“Um
dos resultados mais relevantes do estudo é que a gravidade do déficit de
saneamento não se traduz, de forma sistemática, em maior comprometimento nos
planos de governo. Estados com situações muito diferentes apresentam níveis
semelhantes de atenção ao tema, e apenas 13 dos 62 planos analisados cobrem os
quatro eixos avaliados, incluindo ao menos uma meta tangível para o mandato.
Com a proximidade de 2033, o próximo mandato será decisivo para transformar
referências gerais ao saneamento em compromissos verificáveis, investimentos e
capacidade efetiva de execução” – avalia
Gesner Oliveira, Sócio-executivo da GO Associados.
Instituto Trata Brasil - ITB
Para mais informações, acesse Link
[1] Para a identificação do número de candidatos competitivos em cada estado e no Distrito Federal, adotou-se o critério de Laakso e Taagepera (1979), adaptado para o percentual de intenção de voto de cada candidato. Para maior detalhamento, veja o Estudo completo no sítio eletrônico do Instituto Trata Brasil (ITB).
[2] A Quaest não realizou levantamento no estado do Piauí no período analisado. Para esse estado, utilizou-se a pesquisa do Datafolha, com data de 22 de agosto de 2026.
[3] Disponíveis em: https://quaest.com.br/relatorios/. Acesso em: 9 set. 2026.
[4] Acesse o site em: Link.


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