Psiquiatra Dr. Guido Boabaid May
explica como a exposição contínua a notícias, conflitos e debates políticos
pode aumentar o estado de alerta e impactar sono, concentração e bem-estar
No período eleitoral marcado pelo fluxo constante de
notícias, pesquisas, debates e discussões nas redes sociais, acompanhar a
política pode se tornar uma fonte de estresse para algumas pessoas. Embora a
preocupação durante uma eleição seja uma reação normal, a exposição contínua a
estímulos que geram tensão pode dificultar a recuperação do organismo e
interferir em aspectos da rotina.
Um estudo publicado no Journal of Personality and
Social Psychology, em 2023, mostrou que
acontecimentos políticos cotidianos estavam associados a mais emoções negativas
e pior bem-estar psicológico e físico. Mais recentemente, um estudo publicado
na Biopsychosocial
Science and Medicine, em 2026, acompanhou jovens
durante a eleição americana de 2024 e encontrou piora da eficiência do sono,
além de maior ruminação e sofrimento emocional no período eleitoral.
Segundo o Dr. Guido Boabaid May, CEO e
fundador da GnTech, empresa pioneira em farmacogenética no Brasil, o
cérebro pode permanecer em estado de alerta por períodos prolongados quando é
exposto repetidamente a informações que geram preocupação, conflito ou sensação
de ameaça. “O cérebro não reage apenas ao que está acontecendo naquele momento,
mas também à antecipação do que pode acontecer. E quando essa ativação se repete
muitas vezes, fica mais difícil sair desse estado de vigilância e retornar ao
equilíbrio”, explica.
Na prática, esse excesso de estímulos pode aparecer como
irritabilidade, ansiedade, cansaço, dificuldade de concentração e alterações no
sono. O psiquiatra destaca que o problema não está necessariamente em
acompanhar as eleições, mas na ausência de momentos de desconexão. “O maior
problema não está em uma notícia específica, mas na exposição contínua e na
ausência de períodos em que o cérebro realmente consiga se desconectar e se
recuperar”, pontua.
Outro fator que pode intensificar esse impacto é a polarização. De
acordo com o Dr., quando posicionamentos políticos passam a fazer parte da
identidade de uma pessoa, uma divergência pode ser percebida não apenas como
uma discordância de ideias, mas como um conflito relacionado a valores e
pertencimento. Nesse contexto, ele explica que a chamada polarização afetiva
envolve “desconfiança, hostilidade ou rejeição em relação às pessoas do outro
grupo”.
O consumo excessivo de conteúdo político também pode assumir a
forma de doomscrolling, caracterizado pela busca repetitiva por
notícias, especialmente negativas ou ameaçadoras, mesmo quando a exposição já
provoca desconforto. “Esse consumo merece atenção quando começa a interferir no
sono, no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos ou no humor; quando a
pessoa não consegue se desconectar; ou quando passa grande parte do dia
ruminando sobre acontecimentos políticos”, afirma o especialista.
Ele ressalta que nem todo desconforto durante uma eleição
representa um problema de saúde mental. “Ficar preocupado durante uma eleição
disputada pode ser uma reação perfeitamente normal. O sinal de atenção é quando
esse estado começa a persistir e interferir de forma significativa no sono, no
trabalho, nos relacionamentos ou na capacidade de se desconectar”, esclarece.
A intensidade dessa resposta varia de pessoa para pessoa.
Histórico de ansiedade, dificuldade em lidar com incertezas, qualidade do sono,
problemas financeiros, conflitos familiares e outros fatores podem influenciar
a forma como cada indivíduo reage ao período eleitoral. Por outro lado, sono
adequado, atividade física, relações sociais preservadas e uma boa rede de
apoio podem contribuir para uma resposta mais saudável ao estresse.
O Dr. Guido também sinaliza que manter-se informado e preservar a
saúde mental não são objetivos incompatíveis. “Algumas estratégias simples
podem ajudar, como estabelecer horários específicos para acompanhar as
notícias, priorizar fontes confiáveis e evitar a busca contínua por novas
atualizações”, exemplifica. Recomendando ainda uma atenção aos sinais do
próprio corpo e à necessidade de estabelecer momentos de desconexão.
“Por fim, quando esse envolvimento começa a comprometer o sono, a
produtividade ou as relações pessoais, ou provoca ansiedade persistente e
dificuldade de se desligar do assunto, deixa de ser apenas interesse por
política e passa a representar um impacto concreto sobre a saúde mental, e isso
merece atenção”, conclui.
Guido Boabaid May - Médico psiquiatra há mais de 32 anos, com mais de 115 mil consultas realizadas, mais de 1.200 pacientes em tratamento guiado com teste farmacogenético e pioneiro da farmacogenética no Brasil. Guido também é fundador e CEO da GnTech, empresa de biotecnologia pioneira e líder em farmacogenética no Brasil, com mais de 30 mil testes farmacogenéticos realizados sob sua liderança, a empresa é detentora do maior banco de dados de farmacogenética sobre a população brasileira. Boabaid também atua como médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e é autor do livro "Onde Foi Parar Minha Alegria?”, publicado em 2025.
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