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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Eleições 2026: como o excesso de informação e a polarização podem afetar a saúde mental

Psiquiatra Dr. Guido Boabaid May explica como a exposição contínua a notícias, conflitos e debates políticos pode aumentar o estado de alerta e impactar sono, concentração e bem-estar 


No período eleitoral marcado pelo fluxo constante de notícias, pesquisas, debates e discussões nas redes sociais, acompanhar a política pode se tornar uma fonte de estresse para algumas pessoas. Embora a preocupação durante uma eleição seja uma reação normal, a exposição contínua a estímulos que geram tensão pode dificultar a recuperação do organismo e interferir em aspectos da rotina. 

Um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology, em 2023, mostrou que acontecimentos políticos cotidianos estavam associados a mais emoções negativas e pior bem-estar psicológico e físico. Mais recentemente, um estudo publicado na Biopsychosocial Science and Medicine, em 2026, acompanhou jovens durante a eleição americana de 2024 e encontrou piora da eficiência do sono, além de maior ruminação e sofrimento emocional no período eleitoral. 

Segundo o Dr. Guido Boabaid May, CEO e fundador da GnTech, empresa pioneira em farmacogenética no Brasil, o cérebro pode permanecer em estado de alerta por períodos prolongados quando é exposto repetidamente a informações que geram preocupação, conflito ou sensação de ameaça. “O cérebro não reage apenas ao que está acontecendo naquele momento, mas também à antecipação do que pode acontecer. E quando essa ativação se repete muitas vezes, fica mais difícil sair desse estado de vigilância e retornar ao equilíbrio”, explica. 

Na prática, esse excesso de estímulos pode aparecer como irritabilidade, ansiedade, cansaço, dificuldade de concentração e alterações no sono. O psiquiatra destaca que o problema não está necessariamente em acompanhar as eleições, mas na ausência de momentos de desconexão. “O maior problema não está em uma notícia específica, mas na exposição contínua e na ausência de períodos em que o cérebro realmente consiga se desconectar e se recuperar”, pontua. 

Outro fator que pode intensificar esse impacto é a polarização. De acordo com o Dr., quando posicionamentos políticos passam a fazer parte da identidade de uma pessoa, uma divergência pode ser percebida não apenas como uma discordância de ideias, mas como um conflito relacionado a valores e pertencimento. Nesse contexto, ele explica que a chamada polarização afetiva envolve “desconfiança, hostilidade ou rejeição em relação às pessoas do outro grupo”. 

O consumo excessivo de conteúdo político também pode assumir a forma de doomscrolling, caracterizado pela busca repetitiva por notícias, especialmente negativas ou ameaçadoras, mesmo quando a exposição já provoca desconforto. “Esse consumo merece atenção quando começa a interferir no sono, no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos ou no humor; quando a pessoa não consegue se desconectar; ou quando passa grande parte do dia ruminando sobre acontecimentos políticos”, afirma o especialista. 

Ele ressalta que nem todo desconforto durante uma eleição representa um problema de saúde mental. “Ficar preocupado durante uma eleição disputada pode ser uma reação perfeitamente normal. O sinal de atenção é quando esse estado começa a persistir e interferir de forma significativa no sono, no trabalho, nos relacionamentos ou na capacidade de se desconectar”, esclarece. 

A intensidade dessa resposta varia de pessoa para pessoa. Histórico de ansiedade, dificuldade em lidar com incertezas, qualidade do sono, problemas financeiros, conflitos familiares e outros fatores podem influenciar a forma como cada indivíduo reage ao período eleitoral. Por outro lado, sono adequado, atividade física, relações sociais preservadas e uma boa rede de apoio podem contribuir para uma resposta mais saudável ao estresse. 

O Dr. Guido também sinaliza que manter-se informado e preservar a saúde mental não são objetivos incompatíveis. “Algumas estratégias simples podem ajudar, como estabelecer horários específicos para acompanhar as notícias, priorizar fontes confiáveis e evitar a busca contínua por novas atualizações”, exemplifica. Recomendando ainda uma atenção aos sinais do próprio corpo e à necessidade de estabelecer momentos de desconexão. 

“Por fim, quando esse envolvimento começa a comprometer o sono, a produtividade ou as relações pessoais, ou provoca ansiedade persistente e dificuldade de se desligar do assunto, deixa de ser apenas interesse por política e passa a representar um impacto concreto sobre a saúde mental, e isso merece atenção”, conclui.
 



Guido Boabaid May - Médico psiquiatra há mais de 32 anos, com mais de 115 mil consultas realizadas, mais de 1.200 pacientes em tratamento guiado com teste farmacogenético e pioneiro da farmacogenética no Brasil. Guido também é fundador e CEO da GnTech, empresa de biotecnologia pioneira e líder em farmacogenética no Brasil, com mais de 30 mil testes farmacogenéticos realizados sob sua liderança, a empresa é detentora do maior banco de dados de farmacogenética sobre a população brasileira. Boabaid também atua como médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e é autor do livro "Onde Foi Parar Minha Alegria?”, publicado em 2025.


 

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