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| Tati Rainer |
Receita Federal nega novo sistema de rastreamento de brasileiros no exterior; para o advogado de imigração Murtaz Navsariwala, episódio mostra a importância de tratar mudança de país como um processo que vai além do visto
O número de brasileiros formalizando a
saída fiscal do país cresceu nos últimos anos e chegou a 46.632 declarações até
o fim de agosto de 2026, segundo dados da Receita Federal citados pela
imprensa. O avanço ocorre em meio à circulação de informações sobre um suposto
novo sistema de rastreamento de brasileiros que vivem no exterior, cuja criação
foi negada pela Receita.
O dado, no entanto, não significa que mais
de 46 mil brasileiros tenham deixado o país em 2026. A própria Receita
esclareceu que parte dos registros corresponde a pessoas que já viviam no
exterior e decidiram posteriormente regularizar sua situação.
Para Murtaz Navsariwala, advogado
especialista em imigração para os Estados Unidos, o episódio chama atenção para
uma questão mais ampla enfrentada por brasileiros que decidem construir a vida
fora do país: uma mudança internacional envolve diferentes processos jurídicos
e administrativos, que não devem ser confundidos. “Existe uma tendência de
enxergar a mudança para os Estados Unidos como um único processo, quando, na
prática, existem questões diferentes acontecendo ao mesmo tempo. Uma coisa é a
situação migratória da pessoa nos Estados Unidos. Outra são as obrigações
fiscais, patrimoniais e administrativas que ela possa manter no Brasil. É
importante saber separar essas frentes”, explica Navsariwala.
Imigração
não termina com a aprovação do visto
Segundo o advogado, boa parte da atenção de
quem planeja uma mudança para os Estados Unidos está concentrada, naturalmente,
na obtenção do visto ou do status migratório adequado. Mas, à medida que a vida
passa a ser estabelecida no novo país, outras decisões precisam ser
incorporadas ao planejamento. “Conseguir o status migratório adequado é uma
parte fundamental do processo, mas não é a única. A pessoa começa a trabalhar,
empreender, constituir família, adquirir patrimônio e, muitas vezes, continua
mantendo imóveis, empresas, contas ou investimentos no Brasil. A vida passa a
existir entre duas jurisdições”, afirma Navsariwala.
É justamente nesse ponto que temas como
residência fiscal podem surgir. A saída definitiva do Brasil é um procedimento já
previsto para quem deixa o país e passa à condição de não residente fiscal. A
negativa da Receita sobre a criação de um novo mecanismo de rastreamento não
elimina as regras que já existiam.
Para quem deixou o Brasil há anos sem
revisar sua situação, a análise pode depender de fatores como a data da saída,
o tempo de permanência no exterior e os vínculos mantidos no país.
Navsariwala ressalta, entretanto, que
questões tributárias devem ser analisadas pelo profissional especializado na
área, assim como as questões migratórias devem ser tratadas dentro das regras
de imigração dos Estados Unidos. “Um dos cuidados mais importantes é não tentar
resolver questões diferentes como se fossem uma só. O advogado de imigração
analisa a situação migratória nos Estados Unidos; questões tributárias precisam
ser avaliadas pelo profissional competente. Em uma mudança internacional, esses
profissionais podem precisar trabalhar de forma complementar”, afirma.
Regularização
não significa nova onda de emigração
O crescimento das declarações de saída
fiscal também não permite concluir que esteja ocorrendo uma saída equivalente
de brasileiros do país.
Em 2021, foram registradas 25.806
declarações. Em 2026, o total chegou a 46.632 até o fim de agosto. Parte desse
crescimento, segundo a Receita, está relacionada a pessoas que já estavam no
exterior e formalizaram posteriormente sua situação.
Da mesma forma, os números não indicam
quanto patrimônio foi levado para outros países ou quanto permaneceu no Brasil.
Para Navsariwala, o debate serve principalmente como lembrete para brasileiros que já construíram uma vida nos Estados Unidos, mas nunca fizeram uma revisão mais ampla das consequências da mudança. “Depois de alguns anos nos Estados Unidos, a realidade daquela pessoa pode ser completamente diferente da que existia quando ela chegou. O status migratório pode ter mudado, a família pode ter crescido e novos vínculos profissionais e patrimoniais podem ter surgido. É saudável revisar periodicamente se a estrutura jurídica acompanha essa nova realidade”, diz.
O advogado acrescenta que o planejamento também é importante para quem ainda está preparando a mudança. “Imigrar não é apenas conseguir entrar nos Estados Unidos. Para quem pretende construir uma vida no país, o planejamento começa antes da mudança e continua depois dela. Quanto mais organizada estiver essa transição, mais clareza a pessoa terá sobre quais questões precisam ser tratadas nos Estados Unidos e quais ainda precisam ser resolvidas no Brasil”, conclui Murtaz Navsariwala.

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