Idade, sozinha, não explica o risco; atenção está na concentração de bancos, benefícios, serviços e relações familiares no mesmo ambiente digital
Às vésperas do Dia Nacional e Internacional da Pessoa Idosa, celebrado em 1º de outubro, um dado ajuda a dimensionar o nível de exposição desse público no ambiente digital: 51% das pessoas com 60 anos ou mais ouvidas em auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), ou de seus representantes, recebem diariamente mensagens ou ligações suspeitas de golpe.
O número ganha outra dimensão diante do avanço da conectividade. O Brasil já soma 26,6 milhões de internautas com 60 anos ou mais, 20,1 milhões a mais do que há nove anos, segundo levantamento da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, com base na PNAD Contínua do IBGE.
Mas estar mais exposto ao ambiente digital não significa que pessoas mais velhas necessariamente caiam mais em fraudes. Há uma característica particular nessa rotina: no mesmo celular podem estar o banco usado há décadas, o benefício do INSS, conversas com filhos e netos, compras, serviços públicos e até o contato de profissionais como médicos ou advogados. São relações diferentes, mas que têm algo em comum: já carregam confiança antes mesmo de qualquer contato suspeito acontecer.
Para Wilder Martins, CISO e Head de Tecnologia da EXA, é justamente essa confiança pré-existente que pode ser explorada por fraudadores. A abordagem não precisa começar com uma história completamente inventada: pode reproduzir um vínculo real e acrescentar informações verdadeiras para parecer legítima.
“O fraudador tenta reproduzir uma relação que já é confiável para aquela pessoa. Pode ser o banco que ela usa há anos, o benefício que recebe, um advogado ou alguém da família. E ele não precisa inventar tudo: pode usar dados verdadeiros para sustentar uma identidade falsa. Em segurança, conhecer seus dados não significa provar quem está do outro lado”, explica o especialista em cibersegurança.
Uma falsa central bancária pode saber o nome do cliente e a instituição onde ele tem conta. Uma mensagem pode mencionar corretamente um benefício do INSS. Um falso advogado pode citar um processo verdadeiro. Em outro caso, o vínculo explorado pode ser ainda mais próximo: alguém se passando por filho, neto ou outro familiar diante de uma suposta emergência.
A peculiaridade,
portanto, não está em uma suposta incapacidade digital ligada à idade, mas na
quantidade e na natureza das relações de confiança que hoje também passam pelo
celular. Quanto mais situações importantes da vida são resolvidas digitalmente,
mais relevante se torna distinguir uma relação verdadeira de alguém apenas
reproduzindo seus sinais.
Proteger sem assumir o
controle
Para Wilder, aumentar
a segurança não significa retirar de pais, avós ou outros familiares a
administração do próprio celular, das contas ou das decisões financeiras. O
caminho é acrescentar uma
segunda camada de confirmação quando algo foge do habitual.
Se alguém ligar
dizendo ser do banco, a orientação é encerrar o contato e acessar o aplicativo
oficial por conta própria. Se a mensagem envolver aposentadoria ou benefício,
consultar diretamente o Meu INSS. Se um familiar pedir dinheiro em uma situação
incomum, confirmar a história por outro canal já conhecido. “A família funciona
melhor como segunda camada de verificação do que como vigilância. A regra pode
ser simples: uma situação inesperada pede uma segunda conexão. Não confirme uma
história pelo mesmo canal que trouxe a história”, diz.
Na prática, alguns
cuidados ajudam a preservar essa autonomia:
- buscar o canal
oficial por conta própria, em vez de continuar uma situação inesperada
pelo mesmo telefone, mensagem ou link em que ela começou;
- não tratar
informações pessoais como prova de identidade: conhecer CPF,
banco, benefício, processo ou nomes de familiares não comprova quem está
do outro lado;
- criar uma pausa
diante da urgência, especialmente quando há pressão para
transferir dinheiro, informar códigos ou tomar uma decisão imediatamente;
- combinar
previamente uma segunda checagem, para que uma situação fora da rotina
possa ser confirmada sem que outra pessoa precise controlar a vida
financeira ou digital.
O avanço da
conectividade entre brasileiros 60+ amplia possibilidades de independência,
acesso a serviços e gestão da própria vida. Para Wilder, a segurança precisa
acompanhar esse movimento como ferramenta de autonomia, e não como argumento
para restringi-la.
EXA - Com atuação nos modelos B2C e B2B2C, a EXA é uma companhia brasileira de cibersegurança especializada na prevenção de golpes e fraudes digitais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário