Kaizen ensina mudanças de comportamento
que podem auxiliar qualquer pessoa a combater desinformação e a ganhar maior
consciência política
Em um cenário eleitoral marcado pela velocidade das redes sociais,
uma pausa de poucos segundos antes de compartilhar uma mensagem pode fazer
diferença. Essas e outras mudanças de comportamento fazem parte do Kaizen,
filosofia japonesa da melhoria contínua que pode inspirar uma mudança simples
no comportamento digital: transformar a checagem de informações em um hábito
cotidiano.
O Kaizen parte da ideia de que grandes transformações podem ser
construídas por meio de pequenas melhorias realizadas de maneira constante,
explica o mentor e palestrante Junior Campos Prado, especialista em Kaizen e
Autogestão e criador do método KIAI (Gestão na vida e Negócios).
“Aplicado ao consumo de informação, o princípio pode significar
desenvolver uma rotina de perguntas antes de acreditar ou compartilhar
determinado conteúdo: quem publicou? Qual é a fonte? A informação aparece em
veículos ou canais oficiais? A mensagem apresenta contexto ou apenas provoca
uma reação imediata?”,
explica Prado.
A preocupação ganha relevância durante o período eleitoral. Para
as Eleições 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mantém o Programa
Permanente de Enfrentamento à Desinformação e disponibiliza ferramentas como o
Fato ou Boato, página que reúne checagens, informações verificadas e conteúdos
educativos para auxiliar a população na identificação de conteúdos falsos ou
descontextualizados.
“O Kaizen nos ensina a olhar para pequenos hábitos que, repetidos
todos os dias, produzem mudanças importantes. No ambiente digital, uma dessas
mudanças pode ser criar o hábito de não compartilhar imediatamente. Parar, ler,
procurar a fonte e verificar a informação é uma pequena atitude que pode
melhorar a qualidade daquilo que colocamos em circulação”, afirma o especialista.
Medo e indignação
A proposta não é transformar cada cidadão em especialista em
checagem, mas estimular uma postura mais cuidadosa diante de conteúdos que
despertam medo, indignação ou entusiasmo. A própria Justiça Eleitoral orienta o
eleitorado a buscar informações confiáveis e disponibiliza canais oficiais para
consulta sobre o processo eleitoral.
Nesse sentido, o Kaizen pode ser aplicado como uma espécie de
“checklist mental”. Antes de compartilhar, vale fazer uma pausa e verificar
três pontos: fonte, contexto e confirmação. Se a origem não estiver clara, se a
informação estiver fora de contexto ou se não houver confirmação em fontes
confiáveis, o melhor próximo passo pode ser simplesmente não compartilhar.
“A desinformação muitas vezes ganha força porque compartilhamos
antes de verificar. A mudança de comportamento não precisa começar com algo
complexo. Pode começar com uma pergunta: ‘Eu tenho certeza de que isso é
verdade?’ Se não tenho, por que vou ajudar a informação a chegar a outras
pessoas?”
Informação x opinião
A lógica também ajuda a diferenciar informação, opinião e conteúdo
manipulado. Uma publicação pode apresentar uma opinião legítima sem ser um
fato; uma informação verdadeira pode ser utilizada fora de contexto; e
conteúdos produzidos ou alterados por inteligência artificial podem dificultar
ainda mais essa distinção. Nas Eleições 2026, o TSE estabeleceu regras
específicas relacionadas ao uso de conteúdos sintéticos e à identificação de
materiais produzidos ou significativamente alterados por inteligência
artificial.
Para Prado, combater a desinformação não depende apenas de grandes
campanhas ou de ferramentas tecnológicas. Existe também uma dimensão individual
e cotidiana: melhorar gradualmente a maneira como cada pessoa consome e
compartilha informação, e alcançar maior consciência política.
“Kaizen é assumir que sempre existe uma pequena coisa que podemos
fazer melhor. Na informação, pode ser ler além do título, consultar a fonte
original ou esperar alguns minutos antes de encaminhar uma mensagem. Parece
pouco, mas quando milhões de pessoas desenvolvem esse hábito, o impacto
coletivo pode ser muito maior”, finaliza o especialista.
A proposta, portanto, não é dizer ao eleitor o que pensar ou em
quem votar, mas estimular uma atitude mais consciente diante das informações
que chegam diariamente pelas redes sociais e aplicativos de mensagens. Afinal,
em um ambiente no qual a velocidade do compartilhamento pode ser maior do que a
velocidade da verificação, parar para checar também é uma forma de
responsabilidade cidadã.
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