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| Fotografia: Lali Moss |
Encontro reuniu especialistas do Comitê Gestor do IBS, iFood, Dexco e Valgroup para debater como a Apuração Assistida do Fisco, a gestão de margens no fluxo de caixa, o aceite tácito da duplicata escritural e a orquestração de IA estão redefinindo a atuação das lideranças financeiras no Brasil.
A entrada da
Reforma Tributária em sua fase de implementação prática, além da rápida
maturação da Inteligência Artificial Generativa nas finanças corporativas estão
provocando uma reorganização estrutural no alto escalão das empresas
brasileiras. O fenômeno esteve no centro dos debates da terceira edição do Qive Conecta, evento promovido pela Qive, plataforma líder do fluxo do contas a
pagar, em 23 de setembro no Teatro B32, em São Paulo, com 250 decisores no
presencial e transmissão online. O encontro reuniu executivos e autoridades
como o Secretário Municipal da Fazenda de São Paulo e 1º Vice-Presidente do
Comitê Gestor do IBS, Luis Felipe Arellano, o CFO do iFood, Pedro Gomes, e a
CFO da Dexco, Lucianna Raffaini.
1 - Reforma
Tributária: Apuração Assistida e o XML como confissão de dívida
A transição do
modelo fiscal brasileiro marca o fim da escrituração a posteriori, na
qual a empresa preenchia livros fiscais e o Fisco dispunha de até cinco anos para
auditá-los. Com a implementação da Apuração Assistida e o módulo ROC (Registro
de Operações de Consumo), os tributos (IBS e CBS) passarão a ser apurados em
tempo real diretamente pelo Fisco a partir dos documentos fiscais eletrônicos.
O ano de 2026 servirá como ambiente de testes, com o destaque das alíquotas nas
notas fiscais sem recolhimento efetivo, abrindo caminho para o fim do
PIS/Cofins em 2027.
"Quem errar
em 2026 e corrigir os erros em 2026 não vai sofrer nenhuma penalidade por isso
e vai chegar em 2027 mais preparado. 2026 é o ano de testar, porque a partir de
2027 o jogo começa a ser jogado de verdade.", explica Luis Felipe
Arellano, Secretário Municipal da Fazenda de SP e 1º Vice-Presidente do Comitê
Gestor do IBS.
Nesse novo
arcabouço, a qualidade da informação na origem ganha peso crítico. No
Panorama do Contas a Pagar, estudo proprietário da Qive, a análise de 226
milhões de notas fiscais emitidas no primeiro semestre de 2026 aponta que 85,4%
das NFe de contribuintes do Regime Normal saíram aderentes aos novos campos de
IBS e CBS. No entanto, a leitura por contribuinte é outra: 40,7% dos 337,3 mil
CNPJ do Regime Normal analisados não alcançaram adesão total, o que significa
96 mil fornecedores ainda não adequados. Além disso, o preenchimento isolado
não assegura que os dados estejam corretos, expondo as empresas a
inconsistências fiscais e cobranças automáticas.
"A Reforma
Tributária vai muito além de uma simples alteração de alíquotas. Trata-se de um
novo paradigma. Com a Apuração Assistida, o XML ganha valor de confissão de
dívida. O Fisco considerará como fato gerador exatamente o que está declarado
no XML, e não a interpretação da empresa.", complementa Thiago Ribeiro,
Gerente de Produtos da Qive.
2 - Impacto no caixa e o desafio de tomar decisões que preservem a
margem do negócio.
Os
desdobramentos das novas regras tributárias transbordam o departamento fiscal.
Para Daniel Paschino, CFO da Qive, cada decisão tomada na aquisição de
insumos, na negociação com fornecedores e na liquidação de faturas impacta
instantaneamente o caixa da empresa.
"Em 2026 e
2027, o grande desafio dos CFOs não será apenas cumprir a norma, mas tomar
decisões estratégicas de compras e pagamentos amparadas por dados estruturados.
É isso que garantirá a previsibilidade do fluxo de caixa e protegerá as margens
do negócio contra sobressaltos tributários”, explica Daniel.
Conectando essa
visão macrofinanceira de proteção de caixa à execução diária da tesouraria,
Erika Daguani, CPO e CHRO da Qive, destaca que a preservação da margem
corporativa é testada e consolidada no exato momento da liquidação financeira:
"É exatamente na jornada do contas a pagar que a matemática do caixa se
concretiza — ou estoura. Liquidar um pagamento sem a correta validação do
documento fiscal e dos créditos gerados pelo fornecedor significa sangrar a
margem do negócio na origem. O contas a pagar deixou de ser uma ilha
operacional de agendamentos bancários para se posicionar como a linha de frente
da proteção do fluxo de caixa e da sustentabilidade financeira da
empresa."
3 -A chegada da duplicata escritural em 2027 tira o contas a pagar da
zona de conforto
Uma das
transformações operacionais mais profundas na rotina das tesourarias
corporativas ocorre em 2027 com a obrigatoriedade da duplicata escritural em
meio eletrônico. A nova regulamentação estabelece prazos curtos para a
manifestação do comprador na registradora, com recusa em até 10 dias corridos e
aceite em até 15, conforme a Lei 13.775/2018 e a regulamentação do Banco
Central. A ausência de resposta dentro do prazo configurará aceite tácito.
Como a duplicata
escritural opera como um título "vivo" e negociável no mercado
financeiro secundário (para antecipações, cessão de crédito e alteração de
credores), a falta de uma conciliação tridirecional automatizada — cruzando a
nota fiscal, o título negociado e o registro no ERP — expõe as empresas a
riscos de divergências financeiras, duplicidade de cobranças e fraudes.
“Não se trata
apenas de reagir a um agendamento de boleto no vencimento, mas de gerenciar um
ativo financeiro vivo no mercado. Se a tesouraria não tiver uma conciliação
tridirecional automatizada — conectando em tempo real a nota fiscal, o título
registrado e o ERP —, o aceite tácito em até 15 dias transformará o contas a
pagar em um ponto cego de risco de crédito e passivos operacionais", revela
Arthur Maurício da Silva, Gerente de Produtos da Qive.
4 - IA nas
finanças: De "Work Augmentation" para "End-to-End
Orchestration"
No painel sobre
inteligência artificial, Pedro Gomes Pereira, CFO do iFood, detalhou
como a companhia superou a etapa de automação de tarefas pontuais (work
augmentation) para consolidar a orquestração completa dos processos em
Planejamento e Análise Financeira (FP&A). Ao conectar modelos de linguagem
(LLMs) ao Databricks e treinar a ferramenta nas métricas do negócio (AOV,
margem de entrega e logística), a área ganhou capacidade preditiva sem
precedentes.
"Construímos
uma estrutura no FP&A em que é como se tivéssemos 10.000 analistas
acompanhando cada micro-operação do negócio com uma lupa. Conseguimos
'conversar' com os dados em tempo real, o que nos dá uma velocidade
incomparável para ajustar estratégias. Adotamos uma estratégia baseada em
modelos open-source, o que nos permitiu aumentar o uso das ferramentas enquanto
reduzimos drasticamente o custo marginal por token", explica o executivo.
5 - Gestão
corporativa: o novo perfil de finanças
A evolução tecnológica provoca também uma mudança estrutural no perfil
das equipes de finanças. A exigência técnica individual em código (SQL e
Python) deixa de ser um pré-requisito estrito, cedendo lugar à visão
estratégica e à governança de dados.
"Se você só
automatiza um processo mal desenhado ou sem governança de dados, você está
apenas escalando o erro. O diferencial é a curadoria prévia e a qualidade dos
dados. Isso muda o perfil do profissional: a fluência em código fica em segundo
plano e o domínio sobre a estratégia do negócio passa a ser o ativo mais
valioso", esclarece Isis Abbud, Co-CEO e Cofundadora da Qive.
"Em 2026 e
2027, a Reforma Tributária assume o protagonismo no planejamento das empresas.
O principal desafio observado é garantir informações confiáveis e estruturadas
para tomadas de decisão assertivas que preservem as margens do negócio",
corrobora Daniel Paschino, CFO da Qive.
6 - Estratégia e
cultura: a Reforma Tributária como "Reforma de Negócios" e "Tax
Innovation"
A CFO da Dexco,
Lucianna Raffaini, em painel com Jamile Aun, CFO da Valgroup, sob mediação de
Nicholas Meira, COO & Head of Tax da Power Tax Brasil, sobre “Como os
grandes players do mercado conectam fiscal, estratégia e resultado de negócio”,
enfatizou que a transição fiscal deve ser encarada como uma genuína reforma do
modelo de negócios, pois afeta diretamente preços, compras, contratos e margens
comerciais.
Sob a premissa
de que "Erro pequeno vezes volume é igual a risco fiscal e
retrabalho", para a especialista, a gestão tributária precisa iniciar na
qualificação do cadastro de fornecedores e produtos.
"A Reforma
se define não como uma reforma apenas de impostos, mas sim como uma reforma de
negócios. O profissional tributário precisa sair da cadeira, entender do
negócio e falar a língua do usuário. Somos uma única empresa e o concorrente
está do lado de fora”, revela a executiva.

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