![]() |
| “Pela primeira vez em sua história, depois de quase 2 mil anos de existência, o Coliseu tem uma descrição, uma imagem completa”, afirmou Balzani (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP) |
Apresentado na 7ª Conferência FAPESP 2026, projeto coordenado pelo arquiteto italiano Marcello Balzani cruza escaneamento 3D e dados históricos em uma base de dados capaz de monitorar continuamente o monumento de quase 2 mil anos
Uma representação digital do
Coliseu romano foi apresentada no dia 25 de setembro pelo arquiteto italiano Marcello Balzani, professor da Universidade de
Ferrara, durante a 7ª Conferência FAPESP 2026.
Além de reproduzir o formato do monumento com altíssima precisão, o modelo
funciona como um grande banco de dados, reunindo informações detalhadas sobre
os materiais usados, as técnicas de construção, as transformações históricas, o
estado de conservação e até a vulnerabilidade da estrutura.
Desenvolvido pela equipe do
Parque Arqueológico do Coliseu, sob a coordenação de Balzani, o projeto combina
escaneamentos em 3D com milhares de fotos (fotogrametria) e o método conhecido
como HBIM (sigla em inglês para Modelagem da Informação de Edificações
Históricas). O resultado é um modelo que, além da forma detalhada do monumento,
reúne conhecimentos de arqueologia, arquitetura, restauração e engenharia. Para
dar uma ideia do nível de detalhes, mais de 120 categorias de informação foram
incorporadas ao sistema.
A escala monumental do trabalho
aparece nos números apresentados por Balzani. Mais de 200 mil fotografias foram
utilizadas na documentação fotogramétrica e o levantamento a laser produziu
cerca de 109 bilhões de pontos, que permitiram reconstruir com altíssima
precisão a geometria tridimensional do Coliseu. O modelo HBIM resultante contém
aproximadamente 27 mil objetos digitais – representações individualizadas de
elementos do monumento, como paredes, arcos, pilares e abóbadas –, aos quais
podem ser associados diferentes conjuntos de informações, como materiais,
técnicas construtivas, cronologia e estado de conservação.
“Pela primeira vez em sua
história, depois de quase 2 mil anos de existência, o Coliseu tem uma
descrição, uma imagem completa”, afirmou Balzani. Para ele, porém, essa imagem
não deve ser entendida simplesmente como uma reprodução tridimensional. O
monumento, disse, “não é apenas matéria física: é uma extraordinária estrutura
da memória humana”.
Uma
máquina da morte
Construído no século 1º da era
cristã, o Coliseu foi o maior anfiteatro da Antiguidade, concebido como um
extraordinário circo destinado à realização dos grandes espetáculos públicos
romanos – e também como uma máquina da morte. Em seu período de funcionamento,
chegava a produzir cerca de 30 mil cadáveres humanos e animais por ano.
Gladiadores, condenados e animais utilizados nos espetáculos eram parte de um
sistema no qual a morte se convertia em espetáculo de massa.
A própria arquitetura
correspondia a essa função. O Coliseu não era simplesmente uma arena circundada
por arquibancadas, mas uma complexa estrutura de corredores, escadas, galerias,
passagens subterrâneas e mecanismos destinados a controlar simultaneamente a
circulação do público, dos combatentes, dos animais e dos equipamentos
utilizados.
Sob a arena funcionava uma
infraestrutura capaz de produzir aparições súbitas e mudanças de cenário.
Sistemas de elevação transportavam animais e outros elementos das estruturas
subterrâneas até o nível da arena. O espaço também promovia espetáculos
envolvendo água, com simulações de batalhas navais, e sistemas de enchimento e
escoamento rápidos das áreas alagáveis.
O Coliseu começou a ser
construído durante o reinado do imperador Vespasiano, da dinastia Flávia, por
volta de 70-72 d.C. Foi inaugurado, em 80 d.C., por seu filho Tito. E ganhou
ampliações, especialmente na parte subterrânea, sob Domiciano, irmão e sucessor
de Tito. Na época em que Roma tinha entre 750 mil e 1 milhão de habitantes, o
edifício podia receber um público da ordem de 50 mil espectadores. Portanto, em
uma única sessão, uma parcela considerável da população da capital imperial
podia estar reunida ali.
O Anfiteatro Flávio (Amphitheatrum
Flavium), como era chamado, em referência à dinastia dos imperadores que
promoveram sua construção, manteve-se em atividade por mais de quatro séculos.
Os combates de gladiadores parecem ter cessado por volta de 404-405, enquanto
as matanças de animais prosseguiram até 523, data tradicionalmente associada
aos últimos espetáculos no anfiteatro.
Mas essa gigantesca estrutura
sobreviveu à sociedade que a criou. Ao longo de quase 2 milênios, o edifício
perdeu sua função original e foi sucessivamente transformado, reutilizado,
parcialmente destruído e restaurado. Um terremoto ocorrido em 1349 provocou o
desabamento de parte importante de sua estrutura. Em outros períodos, elementos
construtivos foram retirados e empregados em diferentes edifícios de Roma.
O Coliseu atual é, portanto,
resultado não apenas da engenharia romana, mas da acumulação de muitas
histórias. Cada parede pode conter vestígios de diferentes épocas, e
intervenções realizadas séculos depois de sua construção original tornaram-se,
elas próprias, parte da história do monumento.
![]() |
| Balzani é professor titular do Departamento de Arquitetura da Universidade de Ferrara e diretor-fundador d o Centro de Desenvolvimento de Procedimentos Automáticos Integrados para a Restauração de Monumentos (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP |
Conhecimento histórico e tecnologia de vanguarda
Na abertura da conferência, o
presidente da FAPESP, Marco Antonio Zago,
ressaltou a articulação entre tecnologia e conhecimento histórico envolvida
nesse tipo de trabalho. O escaneamento a laser permite registrar a geometria de
uma construção com grande precisão e associá-la a fotografias, análises de
materiais e outras fontes. Mas a tecnologia, enfatizou Zago, não substitui a
interpretação. “Uma nuvem de pontos, por mais detalhada que seja, não decide o
que deve ser preservado, nem substitui o olhar crítico de quem conhece a
história do edifício. Seu valor está em fornecer uma base objetiva e confiável
para as decisões de conservação”, disse.
A historiadora Gabriela Pellegrino Soares,
professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade
de São Paulo (FFLCH-USP) e integrante da comissão responsável pelas
Conferências e Escolas Interdisciplinares da FAPESP, destacou a dimensão
existencial da fruição de um monumento histórico: “No mundo apressado em que
vivemos, de informações efêmeras e entrecortadas, pode ser transformador o
momento de visita e de vivência de um espaço, de um monumento, de um museu, que
nos proporciona, por um lado, a emoção advinda da contemplação e, por outro, o
acesso a um conhecimento relevante, cuidadoso, surpreendente, que aguça a nossa
curiosidade, o nosso interesse e redesenha a nossa imaginação do mundo, dos
seus tempos longos e marcadamente diversos e complexos”.
Moderador da conferência, Paulo César Garcez Marins,
diretor do Museu do Ipiranga (Museu Paulista da USP), enfocou o trabalho
realizado no Coliseu sob a ótica da gestão do patrimônio histórico. “Ele reúne
dados de diferentes áreas, como arqueologia, engenharia, arquitetura e
restauração, ampliando as possibilidades de conhecimento e conservação. O
sistema também permite a atualização contínua dos modelos e a integração de
dados históricos e novos levantamentos, contribuindo para o planejamento da
manutenção preventiva e para a gestão de longo prazo”, resumiu.
Fotografar,
medir e relacionar
A sobreposição histórica ajuda
a explicar por que o projeto de digitalização foi tão complexo. Métodos
tradicionais de documentação bidimensional – plantas, cortes etc. – são
insuficientes para representar integralmente uma construção com tal escala e
grau de heterogeneidade.
O levantamento teve de ser, nas
palavras de Balzani, “multiescalar e multidisciplinar”. Não bastava registrar a
forma externa do anfiteatro. Era preciso penetrar analiticamente em galerias e
corredores, compartimentos elevados e subterrâneos, paredes e abóbadas, colunas
e capitéis. E, depois, sintetizar todos esses registros em uma estrutura
geometricamente relacionada.
Uma rede topográfica de
referência permitiu articular levantamentos realizados em diferentes lugares e
momentos. Cada novo conjunto de medidas podia ser encaixado no sistema geral e
confrontado com os demais, formando progressivamente uma representação
tridimensional coerente do monumento.
A fotogrametria foi parte muito
importante do processo. As mais de 200 mil fotografias foram, posteriormente,
processadas para gerar modelos tridimensionais. Parte das imagens foi obtida
com drones – tarefa dificultada pelas gaivotas que sobrevoam atualmente o
monumento.
E o trabalho precisou ainda
coexistir com o funcionamento cotidiano do complexo arqueológico. Segundo
Balzani, o Coliseu permanece aberto, recebendo aproximadamente 30 mil
visitantes por dia. Ao mesmo tempo, durante o levantamento, havia 20 canteiros
de manutenção em atividade. Isso obrigou as equipes a compatibilizar as
operações de medição e fotografia com a circulação dos visitantes, as
exigências de segurança e os trabalhos de conservação.
Muito mais
do que uma imagem 3D
Produzir uma representação
visualmente convincente, porém, não era o principal objetivo. “Hoje é possível
criar na internet um modelo virtual do Coliseu em poucos minutos. Não é
difícil. Mas isso não é o monumento real e não serve para a conservação”,
afirmou Balzani.
A diferença fundamental está
nas informações associadas à geometria. Um trecho de parede, uma abóbada, um
arco, uma coluna não aparecem no modelo apenas como forma tridimensional. Tornam-se
objetos individualizados, aos quais podem ser associados dados sobre
cronologia, material, técnica construtiva, condição física, intervenções
posteriores e outras características. O modelo HBIM, já foi dito, reúne
aproximadamente 27 mil desses objetos digitais. É isso que permite “interrogar”
o monumento e planejar estratégias de conservação.
A dimensão temporal também foi
incorporada ao sistema. Os pesquisadores organizaram a longa história do
Coliseu em grandes fases, de modo que elementos pertencentes a diferentes
momentos possam ser reconhecidos e comparados. Um buraco aparentemente
insignificante em uma parede exemplifica a dificuldade. Ele pode ter sido
produzido durante a construção original, resultar do terremoto ou da retirada
posterior de algum componente, corresponder a uma intervenção medieval ou
moderna. O modelo permite associar essas marcas materiais às diferentes
hipóteses e fontes documentais.
A inteligência artificial
também passou a ser utilizada, particularmente no reconhecimento e
classificação de materiais. Mas Balzani ressaltou que a automação não elimina o
papel do especialista. Arqueólogos, historiadores, engenheiros, arquitetos e
pesquisadores de materiais continuam necessários para validar, interpretar e
contextualizar as informações.
Do
diagnóstico à prevenção
A grande vantagem de uma base
desse tipo é que ela não precisa permanecer congelada no momento em que foi
criada. Novos levantamentos podem ser acrescentados, permitindo comparar o
mesmo elemento ao longo do tempo. Uma fissura pode ser novamente medida. Uma
deformação pode ser acompanhada. Mudanças na superfície de determinado material
podem ser comparadas com registros anteriores. O modelo passa, assim, de
instrumento de documentação para ferramenta de monitoramento e manutenção
preventiva.
A possibilidade é
particularmente importante em uma construção com quase 2 mil anos de idade e
situada em uma região geologicamente instável. A cidade de Roma está associada
ao contexto tectônico dos Apeninos Centrais, uma das principais zonas sísmicas
da Itália. E o grande terremoto de 9 de setembro de 1349 – na realidade, uma
sequência de fortes abalos nos Apeninos – causou danos graves no complexo
urbano e o colapso de parte importante do anel externo do Coliseu,
principalmente no lado sul. Desde então, Roma não voltou a ser atingida por um
evento sísmico de magnitude comparável. Isso não significa, porém, que um novo
terremoto de grande intensidade não possa ocorrer.
O levantamento tridimensional
também revela a extraordinária sofisticação da engenharia romana. O Coliseu
combina pilares de travertino (rocha calcária porosa, formada pela precipitação
de carbonato de cálcio), paredes e abóbadas em uma estrutura concebida para
distribuir enormes cargas. O fato de parte substancial do edifício ter
atravessado quase dois milênios é, por si só, testemunho da eficácia dessas
soluções construtivas.
Ao mesmo tempo, o terremoto de
1349 deixou marcas profundas no monumento. O modelo digital permite agora
cruzar a geometria extremamente precisa do edifício com informações sobre
materiais, fissuras, deformações e outros indicadores de comportamento
estrutural, oferecendo uma base para estudos de vulnerabilidade sísmica.
Uma
política de Estado
Foi justamente a passagem da
documentação para a prevenção que motivou o professor Zago a formular duas
questões importantes a Balzani no final da conferência.
A primeira tratou da dimensão
política do empreendimento. Zago observou que a digitalização e a preservação
do patrimônio parecem ter sido assumidas na Itália como uma política de Estado,
capaz de sobreviver a sucessivos governos. “O Estado italiano assumiu como meta
um projeto dessa dimensão e que caminha, a meu ver, independentemente de quem
está no momento no governo. Acho que isso é um exemplo muito importante”,
sublinhou Zago.
Em resposta, Balzani situou o
projeto do Coliseu em um movimento mais amplo de digitalização do patrimônio
público italiano. Explicou que a adoção de normas nacionais vem modificando não
apenas os procedimentos técnicos, mas também a organização das empresas, a
formação dos profissionais e os aspectos jurídicos envolvidos na gestão do
patrimônio. Nesse contexto, o modelo digital deixa de ser apenas uma
representação do edifício: torna-se uma base de dados que precisa ser continuamente
atualizada e cuja produção, validação e utilização envolvem responsabilidades
claramente definidas.
A segunda questão de Zago
voltou-se diretamente para o futuro do Coliseu. Lembrando que a engenharia
contemporânea dispõe de técnicas para reduzir a vulnerabilidade de edifícios a
terremotos, como demonstram construções no Japão e no Chile, ele perguntou se o
conhecimento proporcionado pelo modelo digital poderia ser combinado, dentro
dos limites impostos pela preservação de um monumento histórico, com soluções
modernas de engenharia.
A resposta de Balzani foi
bastante concreta. Ele contou que, ainda durante o levantamento do Coliseu, o
Ministério da Cultura italiano encarregou outra equipe de utilizar os dados
produzidos para desenvolver um modelo de vulnerabilidade estrutural. Ou seja, a
enorme quantidade de informações incorporada ao modelo já está sendo utilizada
para avaliar o comportamento da construção e identificar riscos.
O especialista italiano
ressaltou que esse tipo de análise se beneficia do conhecimento muito detalhado
que agora se tem da própria lógica construtiva do Coliseu. O monumento combina
soluções que distribuíram as cargas e deram à estrutura uma capacidade
extraordinária de resistência ao longo dos séculos. O objetivo não é simplesmente
aplicar ao edifício antigo as técnicas empregadas em construções
contemporâneas, mas usar o conhecimento atual para compreender como aquela
estrutura histórica responde às solicitações e onde estão suas
vulnerabilidades.
É justamente nessa interface que
o projeto de “renascimento digital” do Coliseu adquire sua principal dimensão
prática. A tecnologia não pretende reconstruir virtualmente um Coliseu ideal,
apagando as marcas acumuladas em quase 2 mil anos. Mas, sim, registrar essas
marcas com precisão suficiente para compreender como o edifício chegou ao
presente, acompanhar como continua se transformando e antecipar os riscos que
poderá enfrentar no futuro.
A antiga máquina romana de
espetáculos e morte converte-se, assim, em uma gigantesca base de conhecimento
destinada a prolongar sua sobrevivência.
A 7ª Conferência FAPESP 2026,
“Renascimento Digital do Coliseu: Documentação Integrada e Modelagem do
Patrimônio Histórico”, pode ser assistida na íntegra em youtu.be/AYu_-L0ArY8.
José Tadeu Arantes
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/coliseu-romano-ganha-gemeo-digital-para-prever-riscos-estruturais-e-orientar-conservacao/59290


Nenhum comentário:
Postar um comentário