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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Restaurantes usam IA para reduzir perdas e preservar margem

Tecnologia ajuda empresários a prever demanda controlar compras reduzir desperdícios e revisar preços enquanto custos pressionam a rentabilidade do setor


A inteligência artificial começa a chegar aos restaurantes por um caminho pouco percebido pelo cliente, mas diretamente ligado ao lucro. Em vez de aparecer apenas no atendimento ou na criação de cardápios, a tecnologia já é usada para cruzar vendas, estoque, compras e produção e ajudar o empresário a decidir quanto comprar, quanto preparar e onde está perdendo dinheiro. Nas redes de alimentação, o uso de IA passou de 12% em 2023 para 43% em 2025, segundo a pesquisa Tendências do Ecossistema de Foodservice 2025, da Galunion. A busca por eficiência ocorre enquanto 23% dos bares e restaurantes pesquisados pela Abrasel fecharam janeiro de 2026 no prejuízo e 31% disseram não conseguir reajustar os preços do cardápio.

Marcelo Marani, fundador e CEO da Donos de Restaurantes, escola especializada na formação de empresários do food service, avalia que o principal impacto da tecnologia tende a acontecer justamente nos bastidores. “A inteligência artificial em restaurantes começa a fazer diferença quando ajuda o empresário a comprar na quantidade certa, produzir de acordo com a demanda e descobrir rapidamente onde a margem está escapando. O cliente talvez nunca veja essa tecnologia, mas ela pode aparecer no resultado do negócio”, afirma.


Inteligência artificial entra primeiro no estoque e nas compras

Uma das aplicações mais práticas está na previsão de demanda. Um restaurante que vende muito mais em determinados dias, recebe menos clientes em algumas semanas do mês ou tem pratos que ganham saída em períodos específicos acumula informações que podem ajudar a antecipar o movimento.

Ao organizar esse histórico, sistemas com inteligência artificial podem identificar padrões e apoiar decisões sobre compras e produção. Para o empresário, a diferença aparece em questões básicas do dia a dia, como definir quanto pedir de determinado ingrediente, qual volume preparar para o serviço ou quando reduzir uma compra antes que parte do estoque perca validade.

Esse controle interfere diretamente no CMV, sigla para Custo da Mercadoria Vendida. Na prática, o indicador mostra quanto o restaurante gastou com os ingredientes necessários para realizar suas vendas. Quanto maior o desperdício, a perda de estoque ou o erro de porcionamento, maior tende a ser a pressão sobre a margem.

“Um restaurante pode estar cheio e ainda assim ter pouco lucro. Se compra mais do que precisa, desperdiça alimentos ou vende muito um prato que deixa pouca margem, o movimento não resolve o problema. A inteligência artificial pode ajudar a encontrar essas distorções mais cedo, quando ainda existe tempo para corrigir a operação”, explica Marani.

A lógica é fazer com que informações que muitas vezes ficam separadas passem a conversar entre si. Histórico de pedidos, quantidade disponível no estoque, custo dos insumos e volume produzido podem formar uma base mais clara para decisões que antes dependiam principalmente da experiência do gestor.


Preço do cardápio também entra na conta

A formação de preços é outra área em que a tecnologia pode apoiar decisões. Aumentar o valor dos pratos, porém, nem sempre é uma alternativa simples. Pesquisa da Abrasel mostra que 31% dos estabelecimentos não haviam conseguido reajustar o cardápio no início de 2026. Outros 20% fizeram correções abaixo da inflação e apenas 11% aumentaram os valores acima dela.

Quando o repasse ao consumidor encontra resistência, a busca por rentabilidade se desloca para dentro da operação. Em vez de apenas elevar preços, o restaurante precisa entender quanto cada prato custa, quanto vende e quanto efetivamente deixa para pagar as demais despesas e gerar lucro.

A IA pode acelerar esse trabalho ao reunir ficha técnica, preço dos ingredientes, volume de vendas e histórico dos produtos. Um prato popular, por exemplo, não é necessariamente o mais rentável. Da mesma forma, um item com preço maior pode perder atratividade se o custo dos insumos subir sem que o empresário perceba rapidamente a mudança.

“Se não existe espaço para aumentar o preço toda vez que um custo sobe, o dono precisa descobrir onde pode ganhar eficiência. É preciso saber qual prato sustenta a margem, qual vende bem mas deixa pouco resultado e onde compras ou porções podem ser ajustadas. A tecnologia ajuda a chegar mais rápido a essas respostas”, diz Marani.


Reduzir perdas pode valer mais do que vender mais

A inteligência artificial também muda a forma como o empresário olha para o crescimento. Faturar mais não significa necessariamente lucrar mais quando o aumento das vendas vem acompanhado de desperdício, compras mal dimensionadas ou produtos com margem baixa.

É nesse ponto que a tecnologia pode ter um papel menos visível, mas mais relevante para o caixa. Ao identificar desvios de consumo, diferenças entre o estoque previsto e o real ou mudanças no desempenho dos pratos, o sistema pode indicar onde uma pequena correção operacional evita uma perda recorrente.

Para Marani, esse é um dos principais pontos de atenção para donos de restaurantes. “Muitas vezes o empresário procura uma estratégia para vender mais quando parte do lucro já está sendo perdida dentro da própria operação. Antes de buscar mais clientes, ele precisa entender se está comprando bem, produzindo corretamente e ganhando dinheiro com aquilo que vende”, afirma.


Tecnologia não corrige gestão desorganizada

Apesar do potencial, a ferramenta depende da qualidade das informações disponíveis. Um estabelecimento sem ficha técnica atualizada, inventário, registro de perdas ou controle das compras terá dificuldade para obter análises úteis, independentemente da tecnologia adotada.

É nesse ponto que o uso da inteligência artificial se distancia da ideia de substituir a gestão. A função passa a ser organizar uma quantidade de informações que já existe no restaurante e transformar esses dados em alertas capazes de orientar decisões mais rápidas.

“Antes, o dono podia descobrir no fechamento do mês que gastou demais ou que determinado produto estava consumindo sua margem. A mudança é conseguir enxergar o problema antes. Quando a inteligência artificial mostra que o consumo de um ingrediente saiu do padrão, que a produção está acima da demanda ou que um prato vende muito sem dar o retorno esperado, ela deixa de ser uma novidade tecnológica e passa a funcionar como ferramenta de rentabilidade”, conclui Marani.

 

Marcelo Marani - fundador e CEO da Donos de Restaurantes, uma das principais escolas para donos de restaurantes da América Latina. Professor formado em Ciência da Computação, com mestrado em Administração de Empresas, defendeu em 2007 uma tese que mostrava que 70% dos donos de restaurantes não trabalham com qualquer tipo de fidelização. Empresário, sócio de mais de 10 empresas do foodservice, com um faturamento de R$28MM em 2025, tem mais 27 anos de experiência no mercado de alimentação e é considerado um dos maiores especialistas em gestão e aumento de faturamento para restaurantes do Brasil. Marani é autor do livro Transforme o seu Restaurante em um Negócio Milionário, da editora Gente. É também host do podcast mais escutado no Brasil para donos de restaurantes. Foi apresentador de TV, no programa Café com Chef da Band domingo de manhã. Já treinou mais de 35 mil empresários, em 23 capitais do Brasil, e já fez trabalhos em Portugal e na Argentina. Para mais informações, visite o Instagram ou pelo site.



Fontes de pesquisa
Abrasel
https://bonito.abrasel.com.br/noticias/noticias/bares-e-restaurantes-faturaram-mais-em-2025-diz-pesquisa-de-servicos260319114043/

Abrasel
https://odp.abrasel.com.br/noticias/noticias/situacao-financeira-de-bares-e-restaurantes-volta-a-piorar-em-janeiro260306014352/

Abrasel
https://rs.abrasel.com.br/noticias/noticias/como-a-inteligencia-artificial-esta-ajudando-donos-de-restaurantes-a-ganhar-tempo-e-tomar-melhores-decisoes/

Abrasel
https://go.abrasel.com.br/noticias/noticias/restaurante-do-futuro-leva-automacao-e-ia-para-a-gestao-de-bares-e-restaurantes260817100031/


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