Pequenas e médias
empresas são as mais afetadas pela alta dos juros; em um ano, volume de atrasos
cresceu R$ 17 bilhões
O empresariado encontra dificuldade para pagar
dívidas, resultado do ciclo
alto de juros de
2022 a 2025. De acordo com o levantamento da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo
(FecomercioSP), com base nos dados do Banco Central (BC), no
segundo trimestre deste ano, as empresas deviam, em média, R$ 86,1 bilhões em
contas atrasadas
há mais de três meses, de pelo menos uma parcela — maior valor já registrado
na história. Em um ano, o volume em atraso registrou alta de 24%, quase R$ 17
bilhões a mais neste ano, já considerando a inflação do período [gráfico
1].
[GRÁFICO
1]
Crédito das
empresas em atraso (PJ)
Fonte: Banco do
Brasil/FecomercioSP
De acordo com a FecomercioSP, o aumento da inadimplência não está relacionado a uma maior contratação de crédito pelas empresas, já que o volume de crédito avançou apenas 2,3%. A parcela em atraso subiu de 2,7% para 3,3%, indicando que o principal problema está no pagamento, e não no tamanho das dívidas. Os atrasos registrados também refletem, em grande medida, os juros contratados pelas empresas há cerca de um ano, mostrando-se um efeito defasado do ciclo de juros elevados entre 2022 e 2025, que começa a aparecer com mais força neste momento.
No entanto, o ciclo de juros não é o único fator. O
País já registrou juros altos sem ter um atraso dessa magnitude. A principal
diferença é que, recentemente, o crédito está disponível para mais negócios, ao passo que o
aperto reflete um momento difícil para vários setores — como o Agronegócio com
commodities estabilizadas e câmbio para baixo, a Indústria pressionada pelos
importados e o Comércio apontando um consumo enfraquecido pela inflação e pelo
avanço das apostas esportivas. O efeito não é sazonal, visto que o recorde vale
mesmo quando comparamos com outro trimestre ao longo do ano.
Pequenas e médias empresas
sofrem mais pressão
As pequenas (com receita de R$ 360 mil a R$ 4,8 milhões por ano) e as médias empresas estão com o maior nível de atraso de toda a sua história. Juntas, têm cerca de 43% da carteira de crédito, mas respondem por R$ 3 de cada R$ 4 em atraso. As pequenas devem R$ 33,4 bilhões (39% do total) e as médias, R$ 31,7 bilhões (37%). Nestas últimas, o valor atrasado cresceu 34%. Entre as pequenas, cerca de R$ 8 de cada R$ 100 emprestados estão atrasados; já as médias, perto de R$ 4,50 — a média nacional é de pouco mais de R$ 3.
Quase metade de todo o crédito (48%) está
concentrado nas grandes empresas, que possuem caixa e conseguem financiar
condições mais vantajosas. Por isso, o atraso está bem abaixo da própria média,
indicando que, neste ano, não estamos sofrendo uma crise geral das empresas,
mas uma pressão
sobre as mais frágeis.
Por outro lado, as microempresas foram as que mais pioraram no último
ano, com o valor saltando 45%, de R$ 6,9 para R$ 9,9 bilhões.
Piora generalizada nos
estados; São Paulo acumula dívida em atraso de R$ 23 bilhões
A análise do mapa confirma o quadro disseminado pelo Brasil: o atraso bateu o maior nível da história em 18 das 27 Unidades Federativas (UFs) ao mesmo tempo. Para efeito de comparação, no período pós-pandemia, o recorde chegou a 25 das 27 UFs.
As maiores altas em um ano vieram de UFs e de
perfis econômicos diferentes entre si — Paraíba (123%), Amapá (73%), Rio Grande do
Sul (67%) e Amazonas (66%), reforçando que não é um problema setorial ou regional,
mas de uma piora generalizada [tabela 1].
[TABELA
1]
Crédito das
empresas em atraso (PJ)
Por estado /
Unidade da Federação
Fonte: Banco do Brasil/FecomercioSP
Em São Paulo, o valor corresponde a R$ 23 bilhões, sendo 27% de todo o atraso das empresas do país. As cinco maiores UFs somam quase 60%, mas é longe dos centros urbanos que a piora corre mais rápido.
Segundo a FecomercioSP, o mais preocupante é a falta de sinal de melhoria das empresas. A relação entre dívida e Produto Interno Bruto (PIB) em alta e as tensões globais tendem a manter juros e inflação pressionados. E mesmo que os juros comecem a cair, o alívio demora: leva cerca de um ano para o impacto da queda nos juros chegar às contas em atraso, e mais tempo ainda para as empresas recuperarem o caixa e voltarem a investir.
Nas outras vezes em que o atraso das empresas ficou
tão alto — começo dos anos 2000 e em 2016 e 2017 —, a economia ofertava menos
crédito e menos empresas tinham acesso a bancos, ou o País vivia uma recessão
econômica. A situação atual é diferente. O atraso bate recorde e o calote está
perto do maior nível de sempre, mesmo com a economia crescendo (perto de 2%).
Ainda assim, o resultado
não chega ao caixa das empresas na velocidade necessária para pagar as
contas.
Nota
metodológica
Estudo da FecomercioSP, com tratamento próprio dos dados de crédito de pessoas jurídicas do Sistema Financeiro Nacional divulgados pelo Banco Central do Brasil. A inadimplência acima de 90 dias marca a operação com ao menos uma parcela vencida há mais de três meses; Todos os valores foram corrigidos pela inflação (R$ de junho/2026). Como a inadimplência é um estoque (o saldo acumulado em atraso) e não um fluxo mensal, cada ano é medido pela média do 2º trimestre (abril a junho), e não pelo dado de um único mês — o que evita distorções pontuais e mantém a janela de comparação ano a ano. A abertura por porte segue as faixas de receita bruta anual (micro ≤ R$ 360 mil; pequena até R$ 4,8 mi; média até R$ 300 mi; grande acima disso).
FecomercioSP


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