Pesquisa realizada com mais de 104 mil crianças e adolescentes relaciona funções executivas ao desempenho em matemática; especialista explica como planejamento, memória e controle de impulsos interferem na autonomia
Uma criança pode compreender o conteúdo
apresentado em sala de aula e, ainda assim, ter dificuldade para iniciar uma
atividade, lembrar instruções, organizar materiais, administrar o tempo ou
concluir uma tarefa. Esses comportamentos estão relacionados às funções
executivas, conjunto de habilidades cognitivas que participa do
planejamento, da organização, da atenção, da memória de trabalho, do controle
de impulsos e da capacidade de se adaptar a mudanças.
A importância dessas habilidades para a
aprendizagem foi reforçada a partir da pesquisa com meta-análise "Relations
between Executive Functions and Academic Outcomes in Elementary School
Children", da PubMed Central, publicada em 2026, que analisou 305
estudos de longa duração envolvendo 64.167 crianças e adolescentes. A
pesquisa identificou uma associação significativa entre funções executivas e
desempenho em matemática. Entre os componentes avaliados, a memória de
trabalho apresentou a relação mais forte, seguida pela flexibilidade
cognitiva e pelo controle inibitório.
Para a psicopedagoga e educadora
parental Carla Costa, o resultado ajuda a ampliar a compreensão sobre
situações que muitas vezes são interpretadas apenas como falta de interesse ou
responsabilidade. “A criança pode saber o que precisa fazer e, ainda assim,
ter dificuldade para iniciar, organizar-se e concluir aquela tarefa. Muitas
vezes, isso é interpretado como preguiça, desinteresse ou falta de
responsabilidade, quando estamos diante de uma habilidade que ainda precisa ser
desenvolvida”, explica.
No dia a dia, alguns comportamentos podem
chamar a atenção de famílias e educadores, como a necessidade constante de
lembretes, o esquecimento frequente de instruções, a perda de materiais, a
dificuldade para cumprir combinados, começar várias atividades sem terminá-las
ou organizar uma sequência de tarefas. Entre adolescentes, essas
dificuldades podem aparecer na rotina de estudos, com trabalhos deixados para a
última hora, dificuldade para estabelecer prioridades, esquecimento de prazos e
sensação de sobrecarga diante de várias demandas.
Esses comportamentos, no entanto, não
significam necessariamente a existência de um transtorno ou diagnóstico. As
funções executivas continuam se desenvolvendo ao longo da infância e da
adolescência, e é esperado que crianças precisem de diferentes níveis de apoio
conforme a idade. Para Carla, o principal ponto de atenção deve ser a
frequência e o impacto dessas dificuldades na aprendizagem, na convivência
familiar, nas relações sociais e na autonomia.
“Não podemos transformar todo
comportamento em sintoma. Crianças estão aprendendo a esperar, planejar,
organizar, controlar impulsos e lidar com mudanças. O que precisamos observar é
se aquela dificuldade é persistente e se está causando prejuízo na vida
cotidiana. Antes de perguntar ‘por que ele não faz?’, muitas vezes precisamos
perguntar: ‘o que ele ainda precisa desenvolver para conseguir fazer sozinho?’”, afirma.
Segundo a especialista, família e
escola têm papel fundamental nesse desenvolvimento. Em vez de apenas cobrar
que o estudante seja organizado, os adultos podem ensinar estratégias
compatíveis com cada faixa etária, como dividir uma atividade em etapas,
utilizar agenda, estabelecer prioridades, organizar materiais e planejar o
tempo. Na infância, o suporte tende a ser maior e, progressivamente, deve ser
reduzido para que a criança assuma responsabilidades de acordo com seu
desenvolvimento.
Atividades simples da rotina também
podem funcionar como oportunidades para exercitar essas habilidades. Guardar os
próprios materiais, organizar a mochila, participar da construção dos horários,
esperar a vez em uma brincadeira, cumprir pequenas responsabilidades e
aprender a lidar com mudanças são experiências que ajudam crianças e
adolescentes a praticar organização, controle de impulsos, flexibilidade e
autonomia.
“Quando fazemos tudo pela criança,
podemos reduzir oportunidades importantes para que ela exercite a própria
autonomia. Isso não significa deixar de acolher ou exigir que ela faça sozinha
aquilo que ainda não consegue. Significa oferecer o suporte necessário e, aos
poucos, retirar esse suporte para que ela possa assumir responsabilidades
compatíveis com seu desenvolvimento. As funções executivas não são apenas
ferramentas para melhorar as notas: são habilidades que preparam a criança e o
adolescente para lidar com as demandas da vida”, conclui.

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