sábado, 19 de setembro de 2026

Mesmo sem dificuldade para aprender, crianças podem enfrentar desafios para organizar os estudos

Pesquisa realizada com mais de 104 mil crianças e adolescentes relaciona funções executivas ao desempenho em matemática; especialista explica como planejamento, memória e controle de impulsos interferem na autonomia

 

 

Uma criança pode compreender o conteúdo apresentado em sala de aula e, ainda assim, ter dificuldade para iniciar uma atividade, lembrar instruções, organizar materiais, administrar o tempo ou concluir uma tarefa. Esses comportamentos estão relacionados às funções executivas, conjunto de habilidades cognitivas que participa do planejamento, da organização, da atenção, da memória de trabalho, do controle de impulsos e da capacidade de se adaptar a mudanças.

A importância dessas habilidades para a aprendizagem foi reforçada a partir da pesquisa com meta-análise "Relations between Executive Functions and Academic Outcomes in Elementary School Children", da PubMed Central, publicada em 2026, que analisou 305 estudos de longa duração envolvendo 64.167 crianças e adolescentes. A pesquisa identificou uma associação significativa entre funções executivas e desempenho em matemática. Entre os componentes avaliados, a memória de trabalho apresentou a relação mais forte, seguida pela flexibilidade cognitiva e pelo controle inibitório.

Para a psicopedagoga e educadora parental Carla Costa, o resultado ajuda a ampliar a compreensão sobre situações que muitas vezes são interpretadas apenas como falta de interesse ou responsabilidade. “A criança pode saber o que precisa fazer e, ainda assim, ter dificuldade para iniciar, organizar-se e concluir aquela tarefa. Muitas vezes, isso é interpretado como preguiça, desinteresse ou falta de responsabilidade, quando estamos diante de uma habilidade que ainda precisa ser desenvolvida”, explica.

No dia a dia, alguns comportamentos podem chamar a atenção de famílias e educadores, como a necessidade constante de lembretes, o esquecimento frequente de instruções, a perda de materiais, a dificuldade para cumprir combinados, começar várias atividades sem terminá-las ou organizar uma sequência de tarefas. Entre adolescentes, essas dificuldades podem aparecer na rotina de estudos, com trabalhos deixados para a última hora, dificuldade para estabelecer prioridades, esquecimento de prazos e sensação de sobrecarga diante de várias demandas.

Esses comportamentos, no entanto, não significam necessariamente a existência de um transtorno ou diagnóstico. As funções executivas continuam se desenvolvendo ao longo da infância e da adolescência, e é esperado que crianças precisem de diferentes níveis de apoio conforme a idade. Para Carla, o principal ponto de atenção deve ser a frequência e o impacto dessas dificuldades na aprendizagem, na convivência familiar, nas relações sociais e na autonomia.

“Não podemos transformar todo comportamento em sintoma. Crianças estão aprendendo a esperar, planejar, organizar, controlar impulsos e lidar com mudanças. O que precisamos observar é se aquela dificuldade é persistente e se está causando prejuízo na vida cotidiana. Antes de perguntar ‘por que ele não faz?’, muitas vezes precisamos perguntar: ‘o que ele ainda precisa desenvolver para conseguir fazer sozinho?’”, afirma.

Segundo a especialista, família e escola têm papel fundamental nesse desenvolvimento. Em vez de apenas cobrar que o estudante seja organizado, os adultos podem ensinar estratégias compatíveis com cada faixa etária, como dividir uma atividade em etapas, utilizar agenda, estabelecer prioridades, organizar materiais e planejar o tempo. Na infância, o suporte tende a ser maior e, progressivamente, deve ser reduzido para que a criança assuma responsabilidades de acordo com seu desenvolvimento.

Atividades simples da rotina também podem funcionar como oportunidades para exercitar essas habilidades. Guardar os próprios materiais, organizar a mochila, participar da construção dos horários, esperar a vez em uma brincadeira, cumprir pequenas responsabilidades e aprender a lidar com mudanças são experiências que ajudam crianças e adolescentes a praticar organização, controle de impulsos, flexibilidade e autonomia.

“Quando fazemos tudo pela criança, podemos reduzir oportunidades importantes para que ela exercite a própria autonomia. Isso não significa deixar de acolher ou exigir que ela faça sozinha aquilo que ainda não consegue. Significa oferecer o suporte necessário e, aos poucos, retirar esse suporte para que ela possa assumir responsabilidades compatíveis com seu desenvolvimento. As funções executivas não são apenas ferramentas para melhorar as notas: são habilidades que preparam a criança e o adolescente para lidar com as demandas da vida”, conclui.


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